CULTURA
UM LUGAR  DA COMUNIDADE E PARA COMUNIDADE
SOCIO-CULTURAL
         CLÁUDIO VEIGA: FALA DE ALGUMAS FIGURAS DE SANTA CATARINA DO FOGO

                                     Um dia após o dos meus aniversários
                                     Dedicatória:


            À memória do meu pai, Cândido Henriques Veiga, que ensinou-me a amar e a ver o
                 lado positivo nas pessoas, nas coisas e na vida e, àà minha mãe
Catarina Crisanta Fontes Veiga que, junto com o meu pai, foram os meus melhores contadores de estórias.

                                                 §


Para o meu filho, Bruno Marques Henriques Veiga que, na hora de fazer o “soninho”, pede-me, sempre,
para lhe contar estórias do Baluarte.
                                                 §


Para os filhos e amigos de Santa Catarina do Fogo.

RECORDAÇÕES, SOLTAS, A PARTIR DE UMA CONVERSA DE BARBEARIA

                          
  I PARTE

No outro dia, na barbearia do tio Dadinho, aí em Washington Street, encontrei o Anibal Alves, mais
conhecido por Nhô Tónéco, comerciante do Fonte Aleixo de Santa Catarina, do Fogo. Após os
cumprimentos, e um curto diálogo como que, de aquecimento, ele pegou, com paixão, a descrever as
fronteiras do nóvel Concelho de Santa Catarina dizendo, que do lado da Baleia as duas pontes ( Scoral e
Ribeira Nha Lena) aí construidas são de Santa Catarina e, do lado do Saltos, o “madjôn” (fronteira) com
Nossa Senhora de Conceição situa-se, para quem vai de Cova Figueira em direcção a S. Filipe, um pouco
antes de se chegar à casa do Nhô Trúca, mais precisamente na casa do Miguel que fica em cima da
quemada que vai da serra até ao mar. E, claro, como é normal nestas conversas ele, aí resvalou, com
redobrada paixão, para o que ele chama de medições de terrenos, quem são os especialistas neste
dominio em Santa Catarina e, como é que aprenderam este oficio. Ia ouvindo e tentando prestar a atenção
mas, nomes de gente que conheço bem, como o José di Bilótchi, citado como um dos homens que
conhece bem essa (hi)estória de medidores de terreno, acabaram por levar-me a questionar afinal
quantas figuras viu, o meu Concelho de Santa Catarina do Fogo, nascer (?) e, assim, acabar, também, por
transportar-me para um mundo de recordações.
Com um certo prazer, a minha memória foi puxando pelas personagens, uma a uma, e os feitos, as (hi)
estórias, ou, os caracteres que lhes garantiram as minhas distinções.

Num ápice e, talvez porque acabara de ouvir o nome de José di Bilótche, - José Vieira Fontes de seu
nome próprio - apareceu esse homem de noventa anos de idade, nasceu em 1917, mas, ainda
aparentando jovialidade e, possuindo energia o suficiente para ir à reunião do Grupo de Apoio ao
Concelho de Santa Catarina ou, procurar sempre os mais novos, nas festas e/ou visitas nas casas
mortuárias ou, em casas de familiares e engajar em discussões sobre a politica e a (hi)estória da ilha do
Fogo. Admirável! José di Bilótchi é conhecido pelo seu espirito polémico e, por, nas suas discussões, ir
ao bolso e retirar daí pedaços de jornais dobrados, bem recortados e bem conservados, para sustentar as
suas argumentações.

Com ele, veio o Guilherme Vieira Fontes ou Djémi di Nascimento mais conhecido por Djéme Fontes, (1917-
2002), já falecido, mas, homem de “espirito grande”, desproporcional ao local que o viu nascer e ao
próprio Cabo Verde que o veio a conhecer. Pois é, Djéme Fontes, também, ele, polémico mas, um pouco
mais autoritário, fazia-me lembrar a figura do famoso Sinhô Zinho Malta da novela brasileira “ A Viúva
Porcina”, se bem me recordo o nome e, que retrata um dos grandes proprietários do Brasil. Possuidor de
um terreno de cultura de vindima em Chã das Caldeiras, Djéme Fontes foi um médio proprietário da ilha
do Fogo que, entretanto, pela sua forma de ser – extrovertido e “mãos abertas” - passou a ser conhecido
a nivel de Cabo Verde não só, como o primeiro produtor do vinho nacional, o “Manécon”, como, também,
aquele homem que convida(va) Governadores, Presidentes da República e Primeiros Ministros para seus
hóspedes em sua casa, em Cova Figueira.Lembrei-me menino em Cova Figueira, quando ouvindo o Djéme
a contar estórias da América e do seu Presidente, de que ficava convencido que ele, não só conhecia o
John Kennedy, como eram amigos pessoais. Lembrei, ainda, de uma vez, em 1992, ele ter-me mandado
parar o carro aí na Prainha, para ir cumprimentar o ex-Presidente Aristides Pereira que, a pé, passeava
com a mulher tomando a fresca briza do mar, no final de uma tarde. Eu fazia parte do elenco
governamental do MPD na altura e fui apanhá-lo em casa da filha, Maria Jesus, para dar-mos uma volta
pela Praia, por onde ele estava de passagem por uns dias. Lembrei de ter ficado deslumbrado com a
resposta que ele deu-me ao inquirir-lhe, em geito de brincadeira e de provocação, logo após ter
cumprimentado o casal Pereira e ter regressado ao carro, ...afinal, o que era aquilo(?) e, então... o apoio a
Mascarenhas Monteiro? Já sentado dentro do carro, ele, agarrando o chapéu com a mão esquerda em
cima do joelho, levou a mão direita à cabeça, meio calva, escorregando-a da testa pra trás, como que a
acentar o cabelo e, respondeu-me com a maior descontração e simplicidade: “’Nááá!!! nôs é amigo! ‘N
mandal un monti di uva cando el era Presidente! El é nha amigo e, é un homi bom.”(1)

Como que num passe mágico, acudiu-me a figura do Xáxi de Nascimento, de nome próprio Alexandre
Vieira Fontes (1929, 1980), irmão do Djéme Fontes. Ele é (ou, foi) mais lendário no meio Figueirense
apesar de ser menos conhecido pelas gerações mais novas, posto que emigrara para Senegal e, depois,
para Costa de Marfim nos principios dos anos sessenta do século passado e, de, lá não ter regressado,
senão após a independência de Cabo Verde. Contam, os mais velhos, que Xáxi, em desacordo com a
justiça, na altura, Portuguesa, por causa de uma briga familiar, “falou contra a nação” e, fugiu para Abidjan,
aonde ele veio a filiar-se como um grande militante e apoiante do PAIGC no tempo da luta, pondo a sua
casa, naquela cidade, à disposição desse Partido. Ele foi, também, um grande amigo da liberdade e, atesta-
o, o facto de ter dado ao seu quarto filho, no ano de 1966, o nome de John Kennedy Fontes. Infelizmente,
ele faleceu, em Abidjam, poucos anos após a independência de Cabo Verde, em 1980. Mas, conforme o
seu desejo, foi sepultado, pela familia, no cemitério da Cova Figueira, terra que o viu nascer e, que, ele
nunca tirou do coração nos longos anos que esteve na emigração. Xáxi di Nascimento tem muitas estórias
que os mais velhos que a minha geração, nomeadamente, o meu primo Goméry (1947-1972) costumava
contar nas horas de humor. Entretanto, há uma, que o meu irmão Candinho relembra sempre nas ocasiões
próprias, que me veio logo à memória junto com a figura de Xáxi. Conta o meu irmão que, por volta de
1976/77, (eu estava na Argélia, a estudar), Xáxi, de visita a Cabo Verde, estava aí, sentado à porta da nossa
casa na Rua Madragoa da Praia, junto com o nosso pai, Cândido, a conversarem. Xáxi, então, virou-se para
o pápá e disse-lhe: “Cumpadri, nu sta li entre nôs, dixam frabu: es cusa di Unidadi Guiné cu Cabo Verde
gô... ca ta da!” Pápá, perguntou-lhe “pamódi, cumpadri?” Xáxi respondeu-lhe: “Ah... cumpadri, li na Cabo
Verde, nu ta fazê curral pa guarda animal pa nu podê simia tudo padjigá e, la na Guiné, ês ta simia na
curral ês ta larga animal solto pa tudo padjigá...”(2). Dei comigo a sorrir ao de leve e, então, fingi prestar
mais atenção ao nhô Tónéco perguntando-lhe como é que aprenderam afinal esse oficio de medições de
terrenos? Eu aprendi com o Néné di nha Branca, respondeu e, prosseguiu: O Artur di Milia aprendeu com
o Nhônhô di nhô Antoninho. O Xalé di Nhaí, (1914-1983), ele, não(!), ele tinha boa quarta classe e aprendeu
sósinho. Estou a dizer-te estes nomes assim, se um dia resolveres escrever esta (hi)estória, para ai os
colocares, retorquiu. O tio Dadinho respondeu: o nome de igreja do Artur di Milia é Artur de Andrade, pai
do Manél Socorro. Fiz-lhe sinal com a cabeça que sabia e, ele prosseguiu: O nome de igreja do Nhônhô di
nhô Antoninho é Frascisco António Fontes, ele deve ter nascido ai por volta de 1870, porque casou com
25 anos e, foi, quando o meu pai nasceu! O nhô Tónéco tentou esclarecer: Sabes, naquele tempo não
havia registro civil; só havia registro na igreja. E tio Dadinho prosseguiu: E o nome de Néné di Nha Branca
é Manuel da Veiga. Ele morreu, há uns dois ou três anos, em Cova Figueira , parece-me em 2004. O nhô
Tónéco respondeu: o Néné di nha Branca viveu muitos anos, quase quarenta, aqui na América. Quando
sentiu que já não podia mais, pediu à filha para o levar para Cova Figueira porque ele queria morrer na
sua terra. A filha levou-o e, passados doze dias depois de ter chegado, morreu. Morreu com 98 anos...
Desliguei de novo das divagações do Nhô Tónéco e chamei às minhas recordações, as figuras de Santa
Catarina.

José di Bilótche, Djémi Fontes e Xáxi de Nascimento, homens de opinião própria, que nunca deixaram
suas vidas e destinos serem tricoteados por mãos alheias tendo, pelo contrário, assumido sempre o
papel de protagonistas, representam a maneira de ser, o espirito livre e os anseios da plena cidadania
das gentes de Santa Catarina do Fogo...

Notas (tradução literal do crioulo para o Português):

(1) Como!!! Nós somos amigos! Mandei-lhe muita uva, quando ele era Presidente. Ele é meu amigo e, é um
homem bom.

(2}Estamos a sós compadre, portanto, deixa-me dizer-te: A unidade entre a Guiné e Cabo Verde não vai
dar certo, não! Pápá, perguntou-lhe: Porquê? Compadre. Xáxi respondeu-lhe: Ah compadre, nós, em Cabo
Verde, fazemos um cerco para guardar os animais para podermos aproveitar todo o mato para semear
enquanto que, lá na Guiné, eles abandonam os animais solto pelo mato e semeiam apenas o cerco.
                                                                                                                                                                                                                              
 II PARTE


Gente digna, de carácter e de bom humor! Exclamei, quase que em suspiro.
Com naturalidade e, sem esforço da minha parte, a figura do Djonsinho Nhô Chiquinho tal como o
conhecia na minha meninice em Cova Figueira -magro, sorridente e pronto para contar mais uma estória –
apareceu à minha frente.

João Monteiro Fontes, mais conhecido por Djonsinho Nhô Chiquinho, foi um dos melhores humoristas
que tive o privilégio de conhecer. Natural de Cova Figueira, nasceu em 1919 e veio a falecer, em 2002,
aqui nos Estados Unidos, para aonde emigrou, já com 57 anos de idade, com toda a sua familia no ano de
1976. Em Cova Figueira, vivia humildemente, passando por necessidades materiais várias mas, possuia
dignidade, integridade e sorrisos para distribuir com quantos cruzasse. Djonsinho, um homem franzino e
sorridente, detinha um manancial de anedotas e estórias mas, ele previlegiava mais as que diziam
respeito a ele e à vida dele. Ele gozava com a vida dele e com as necessidades por que passava, o que é
próprio de um homem superior, como ele o foi. Para o meu deleite recordei duas dessas estórias, que
passo a registar para o caro leitor e, que ele próprio relatava aos amigos e conhecidos entrecortados
pelas suas gargalhadas estridentes.

Contava, quando vivia em Cova Figueira, que um dia embrulhou-se com a mulher, Quina d’Inês, (que é
muito mais forte do que ele) em luta. E, que, não sabe como, o que é certo é que tropeçou numa mala e,
caiu e, a mulher caiu-lhe em cima e, gritou: “ACADIRÊÊÊÊ!!! E, que, então, ele
voltou para a mulher e disse-lhe: “Pa cusé bu sta grita acadirêêê... si bu tênê rê di baxo?” (3).

Esta outra, foi já nos Estados Unidos a viver e... com o seu ar sorridente, de sempre, contava que, após
um ano nesta terra, o filho mais velho o Orlando levou-o ao hospital para uma consulta. No fim, o Orlando,
a pedido do Doutor, traduziu-lhe em crioulo que o Doutor tinha dito que ele tinha açucar no sangue.
Então, quando regressou à casa, foi logo ter com a mulher, Quina, para lhe dar a noticia: “Quina, odjâ
cumo ês terra ê abençoado! Na Cabo Verde, ‘n ta djobêa açucar pa tudo banda pam pôba na café, ‘n ca ta
atchá. Ali nês terra, cu apenas um ano, ‘n tênê açucar na sangui. Mi, dján sôna!”(4)

Em cascata e, como numa fita de cinema, apareceram mais duas figuras ligadas ao humor; o António
Joaquim Fontes, tio Antoninho, mais conhecido por “Lópa” (1929-2002) e, o Antoninho d’Inês, de seu nome
próprio António da Veiga (1911-1997), conhecido, também, por P A I. Ambos falecidos aqui nos Estados
Unidos, eles são sempre chamados ou relembrados quando nós que os conhecemos vemos o famoso
actor Mexicano Cantinflas a actuar ou, então, o não menos famoso Dom Francisco do Sábado Gigante do
canal da TV, em Espanhol, a UNIVISION.

O Antoninho d’Inês era fisicamente aparecido com o Dom Francisco e, também, tinham, nos gestos e nas
marotices com as coisas da vida e, em especial, com as mulheres, uma semelhança admirável. Nenhuma
mulher e, não só, levava a sério uma conversa com o Antoninho d’Inês. O semblante e o tom da voz dele
davam sempre a impressão, mesmo quando o assunto era sério, de que ele andava a conquistar, a brincar
ou a zombar. Era a forma nata, dele... Aí, nos finais dos anos setenta e, durante os anos oitenta, sempre
que ouvia falar do PAIGC ou, simplesmente, Partido, ele virava e, apontando com o dedo indicator para o
peito do interlocutor , dizia: “PAIGerBÓ”. O, que, valeu-lhe o nominho de P A I. E, com aquele ar
de... zombando, retrucava sempre, quando se lhe ameaçava de que a milicia e o tribunal popular lhe iam
prender: “Mi ê Mercáno; ês ca podê cú mi” (5).

O tio Antoninho (Lópa) era práticamente o sósia do Cantinflas tanto nos traços fisicos, como nos gestos
com as mãos, nos tics no rosto e, sobretudo, nos exageros. A minha irmã Estefânia costuma relembrar,
quando falamos do tio Antoninho, (Lópa ), que, depois de adulta, foi ver o filme de Orféu Negro, na Praia.
E, que, o filme que viu tinha muito pouco a ver com o filme de Orféu Negro que o tio Antoninho viu em
Dakar e, que, nos tinha contado num dos serões que costumavamos ter, quando meninos, em casa dos
avós Quina e Xalé na Cova Figueira. Ela diz que ficou mesmo decepcionada com o filme e, que, prefere o
Orféu Negro do tio Antoninho, porque tinha muito mais estórias e mais sal...

Fiquei a pensar nestas três personagens: Djonzinho Nhô Chiquinho, Antoninho d’Inês e tio Antoninho.
Três figuras possuidoras de talentos natos e, que, bem poderiam ter conquistado multidões e feito
milhões, se o destino não lhes tivesse pregado a partida de lhes ter reservado a América, que tanto sabe
apreciar os seus dotes, como leito da velhice e da partida para a eternidade, em vez de berço de
nascimento e de criação.

Sim, pode até ter sido uma partida do destino! Mas, que seria de nós em Santa Catarina do Fogo sem
essas figuras, de espiritos livres e autênticos fazedores de bom humor? Quem mais nos teria dado lições
tão preciosas sobre como ser integro, como ser digno, como ser livre, como ser criativo e como... sermos
nós? Gente vaidosa e orgulhosa por ter-se feita a si própria; gente lutadora; gente trabalhadora; gente
empreendedora; gente honesta e de respeito; gente de carácter e que não se deixa comprar; gente de
uma só palavra; gente de cara levantada; enfim, gente que quer ser gente, simplesmente. Que desçam os
espiritos dos nossos antepassados e nos ajudem no resgate desses valores, vezes sem conta
vilipendiados pela cultura da mediocridade e do desenrasque, pelo aniquelamento do que é óptimo,
melhor e maior versus pelo nivelamento por baixo e, pela luta desenfreada pelo poder... Que desçam pois!

Notas (tradução literal do crioulo para o Português):

(3). Aqui d’el Rei!!! E, então, ele voltou para a mulher e disse-lhe: Para que é que estás a gritar aqui d’el
rei, se tens o rei por baixo?

(4) Quina, olha o quão abençoado é esta terra! Em Cabo Verde, durante a minha vida toda, eu não tinha
açúcar para pôr no café. Com apenas um ano a viver nesta terra o Dr. disse ao Orlando para me dizer em
crioulo que já tenho açúcar no sangue. Já sou um abençoado!

(5) Eu sou cidadão Americano. Eles não podem fazer nada comigo.

Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.
                                                                                                                                                                                                                                
 III PARTE

Ouvia, sem prestar muita atenção, o NTónéco a falar das terras do meu avô Xalé, dos “madjons” da
Enseada Lena e o tio Dadinho a responder. Então, com os dois a dialogar, senti-me mais livre e dei asas às
minhas recordações com o Vovó Xalé.

Vovó Xalé ou Xalé di Mamá, de seu nome próprio Joaquim Vieira Fontes nasceu em 1895 e faleceu em
1982. Casado com Matilde Monteiro Fontes, mais conhecida por Quina, (1901-1981), foi o maior
comerciante da freguesia de Santa Catarina, dos anos vinte a cinquenta do século passado, chegando a
possuir nove lojas de uma assentada e a importar directamente da Europa - Alemanha e Inglaterra - nos
anos trinta, para o porto de Alcatraz, na ilha do Fogo. Sobram, ainda hoje, ruínas de armazéns do Vovó
Xalé nesse porto, como que a testemunhar o seu empreendedorismo e a sua coragem. Foi, também, um
dos maiores proprietrios, agricultor e criador de animais da freguesia. O extermínio ou desaparecimento
de certos animais a que se chegou hoje em Santa Catarina do Fogo, torna-se difícil de acreditar porque,
ainda na minha meninice, nos princípios dos anos sessenta, fui testemunha do fabrico de cobertores
(mantas) com a lã dos carneiros do Vovó Xalé. Estas mantas, diga-se de passagem, eram bem apreciadas
porque Santa Catarina do Fogo é uma região fria, relativamente ao clima geral de Cabo Verde. No entanto,
as estruturas arcaicas, feudais e rígidas da sociedade foguense que não facilitaram o desabrochar do
capitalismo, a crise de quarenta, a seca do final dos anos sessenta e seguintes, e a emigração,
concorreram para levar, praticamente, ao estado da destruição, o pequeno reino que Vovó Xalé, por
mérito próprio, soube construir. Ou melhor, convém, talvez, realçar que, tal como para os outros
proprietrios e comerciantes da ilha do Fogo, o reino de Vovó Xalé foi vítima, em particular, da
predominância da parceria nas relações socio-económicas da ilha que emperrou e vem continuando a
emperrar, a monetarização da sua economia, a circulação do dinheiro entre os seus agentes económicos
e a introdução de novas técnicas e/ou tecnologias na agricultura. Vóvó Xalé deixou, todavia, herança, em
terras e outras propriedades, que est ainda por ser dividida, o que é sintomtico da persistência dessas
relações.

Homem cantado por cantadeiras de “ratórco”: “Xalé di Mm, di Cova Figueira; Mudjêr qui spibu, ta ‘nguli
cuspínhu; Sê spibu di frenti, ê ca tem qui pô; Sê spibu di trs, ê ca tem qui trâ....”(6 CD de Linkin Nona),
Vovó Xalé não teve fama de mulherengo e, pode-se até dizer, destacou-se de uma tendência cabo-
verdiana dos homens do seu tempo, por não ter tido filhos fora do casamento. Homem de família, teve
nove filhos com a mulher que escolheu para juntar os troços na vida. E também, na morte! Pois, após a
morte da mulher, que foi a enterrar em Cova Figueira, recusou determinantemente a regressar para
América com a justificação de que esperava também o seu dia para ser enterrado junto daquela que
escolheu para sua esposa e companheira durante a vida. Morreu um ano e poucos meses depois e,
desde então, jazem juntos na mesma campa, no cemitério da Cova Figueira.

Vovó Xalé foi, também, conhecido por generoso e bondoso tendo ajudado a muitos nas horas mais
difíceis. Deixou marcas indeléveis nas pessoas (muitos deles “afilhados”, como ele os chamavam) que o
procuravam, para um simples conselho muitas das vezes, e nos netos, (teve cerca de meia centena) e, em
especial, aos meus primos Amaral e Alcides que com ele privaram praticamente até a idade adulta.

Recordei, com saudade, alguns ditados que ele usava, quando eu era ainda um menino, para corrigir os
primos ja quase adultos: “Distância di obido pa ôdjo ê di apenas quatro dedos; Si bu ca obí, bu ta odjâ” (7).
Ou, então: “Arranjar Maria não é nada, tratar Maria é que é tudo!” Ou, ainda: Un ê pôco, dôs ê tchêu (8).
São frases conhecidas mas, que Vovó Xalé, pela sua experiência, sabia, quando bem empregues, de seu
grande efeito na educação de crianças porque carregadas de simbologia e, em forma de equação,
despertadoras de curiosidade.

Não pude deixar de recordar a Vovó di Baluarte.

Maria Medina Henriques Veiga, mais conhecida por Mam di Nhô Cândido, ou Vovó di Baluarte, nasceu em
1896 e faleceu em 1978. Apesar de ter convivido relativamente pouco tempo com ela, foi, contudo, a figura
de mulher que mais me marcou na minha vida toda. Para o meu regozijo, tenho encontrado outras
pessoas, inclusivamente, não familiares, que me revelaram a mesma opinião. Senhora distinta e
respeitada pela sociedade era uma pessoa afvel, carinhosa, e generosa. Ela e o marido Pedro Veiga ou
Pedro Nha Socorro, ou Pap di Baluarte como lhe chamvamos, (1896-1982), moravam em Baluarte,
localidade situado a cerca de um a dois quilómetros de Cova Figueira. Um lugar que, para nós, os netos
que ao todo somamos cerca de meia centena, era um pequeno paraíso na terra e, hoje, é um local para
conservar como um bem comum e testemunho das nossas mais belas recordações de infância e
adolescência. Com Vovó viva, Baluarte era um autêntico lugar de encontro, reunião e convivência de
familiares e amigos. Havia tempos, especialmente, durante as férias escolares e nas “azguas” que, em
grupo de cinco, dez ou até de vinte chegvamos a Baluarte praticamente à hora das refeições ou j à
noitinha. Vovó tinha sempre a porta aberta e o acolhimento de mãe - sentíamos mais do que em casa.
Ainda hoje, guardo saudosamente a recordação do calor da sua bênção, sempre com um beijo na testa e a
admiração de como ela fazia para dar-nos a todos de comer. Os manjares da Vovó eram os mais gostosos
que alguma vez experimentara, fosse a cachupa, o xérén, a djagacida, o cozido de carne acompanhado de
couve e mandioca, o cúscús com leite ou, então, as suas famosas especialidades em pastéis de milho,
pastéis de batata doce os quais demos o nome de “batanguinha di Baluarte” e, o seu não menos famoso,
cúscús di mandioca. Desconheço frequentador de Baluarte que não tenha apreciado e não tenha elogiado
a “comida di Baluarte”. E devo lembrar aqui o nome de duas pessoas que muito ajudavam a Vovó na
preparação destes manjares, a Ana e a Noquinha.

Todavia, essa admiração pela Vovó di Baluarte estende-se a outras facetas que enformavam o carcter
dela: a justeza e as boas maneiras. Lembrei-me de uma vez em que soubemos, em Cova Figueira, j com o
manto da noite a cair sobre a tarde, que a Lena, a Idil e a Lidiana estavam em Baluarte, acabadas de
chegar da Bila. Eram elas três lindas menininhas, filhas da Méry di Féfa, que também gostavam de passar
as suas férias em Baluarte e pelas quais todos nós nutríamos paixões platónicas. Então, foi uma correria,
com os primos mais velhos a quererem fazer-nos voltar para casa, acabamos por desembocar, uns atras
dos outros, em número de dez a quinze ao todo, em Baluarte. Aí, os irmãos e primos mais velhos
continuaram a tentar escorraçar os mais novos, mandando-nos regressar para a casa em Cova Figueira.
Vovó apercebeu-se da manobra e fez logo a sua justiça: “A ter de regressar alguém para Cova Figueira,
que sejam os mais velhos! ... Mas... não, não é preciso irem!” Acalmou-nos: “Podem ficar... todos! Mas,
sem fazer muito barulho!”. Não raras vezes e, sobretudo, à hora das refeições, na mesa, ao lado esquerdo
de Pap di Baluarte, onde se sentava Vovó di Baluarte, com paciência, ensinava-nos como estar à mesa,
pegar o garfo ou o copo ou como servir-se, ou que mentir é feio e que não se deve falar mal de alguém
que não esteja presente ou, ainda, que devemos ser solidrios entre nós, “um por todos, todos por um”,
etc, etc... O que era diferente nela é que ela respeitava-nos a nós crianças conversando connosco como
se fossemos adultos – com paciência, dando atenção mas, sem fingimentos, com amor, mas sem falsos
mimos, e com respeito, mas sem intimidar...

Embalado pela recordação de uma figura com uma personalidade tão ímpar que soube conquistar a
estima, o respeito e a admiração dos que privaram com ela, apareceram, todas de uma vez, vrias outras
figuras que conquistaram o respeito pela autoridade que exerceram sobre a sociedade Santa
Catarinense. Cristiano nhô Lino (1877-1973), Pedro nhô Lino (1898-1975), Quinquin de Carolina (1910-1948),
Artur di Venâncio, Djédjé di Santa (1912-1997), Yay di Maria (1913-2005), Antoninho Nhô Lópi (1871-1966),
Semeano Montrond (?-1981), Amaro Montrond (?-1996), Pedrinho Nha Sandjon (1919-1980), Djédjé di Pedro
(1919-1996), Lim di Sandjon (1913-1997), Néné di Nica (1914-2005), Manél Reis Di César, Néné di Baí (1906-
1982), Josésin di Pépa (1931-1997), Augusto Nhamina, Djédjé di Cum (1923-1975), Djoné di Arséni, entre
outros senhores, são figuras que se impuseram e influenciaram positivamente os Catarinenses do Fogo,
nas décadas de quarenta, até princípios dos anos setenta do século passado. Uns foram regedores ou
figuras ligadas ao regedor, com poderes delegados pela autoridade Municipal e Administrativa da ilha, na
altura. Outros foram proprietrios de terras. Estiveram ligados, ou não, à autoridade daquele tempo mas,
são figuras que, pela postura exemplar que tiveram, em termos de comportamento na família e na
sociedade, granjearam um alto nível de estatura moral e influência positiva da população de Santa
Catarina. Exerciam a autoridade pública, fazendo justiça local, mas, também, não se coibiram de educar,
chamar a atenção e transmitir os bons usos e costumes e as boas maneiras, especialmente, aos mais
novos, para uma vida regrada em sociedade. São figuras que marcaram indelevelmente, e pela positiva, o
carcter e a vida social dos santacatarinenses, assim o reconheci, quase que em suspiros, e concluí: Ter
sido, talvez, o melhor modelo de administração, com mais impacto positivo na convivência comum, no
respeito pelo outro, em especial os mais velhos, e no respeito à propriedade alheia, que a sociedade
Santa Catarinense conheceu.

De repente acudiram às minhas recordações o Béto Tarêxa, do seu nome de igreja Adelino Andrade e o
Francisco Fernandes Lopes, mais conhecido por Francisco di Maninha; o primeiro faleceu no princípio da
década de setenta e, o secundo, na década de oitenta. Eles foram dois funcionrios públicos locais que
bem exemplificam a boa organização da sociedade santacatarinense, nas décadas de quarenta a setenta.
O primeiro tinha por tarefa de manter as ruas de Cova Figueira limpas e o segundo era encarregado da
venda de gua às populações, da guarda dos animais presos por invasão à propriedade alheia e da
cobrança das respectivas multas e/ou coimas. Foram duas figuras da minha meninice que, pelo zelo que
punham no cumprimento das suas missões, marcaram-me com as melhores referências que podia ter de
bons profissionais e de bons servidores públicos. Hoje, com os problemas de higiene pública e de justiça
que temos um pouco por todo Cabo Verde, recordo, com admiração, não só o empenho no cumprimento
da missão, por parte dessas figuras mas recordo, sobretudo, que uma povoação rural, constituída por
membros com apertados laços familiares, como foi a Cova Figueira, soube gerir, com asseio, a sua
ruralidade, e com justiça, os seus conflitos de propriedade.

Notas:

(6) CD de Linkin Nóna, música Talaia Baxo, interpretado por Quirino do Canto

(7) A distância que vai do ouvido até o olho é de apenas quatro dedos; Se não ouvires hs de ver.

(8) Um é pouco, dois são muitos.
                                                                                                                                                                                                                                
 IV PARTE

Encontrava-me quase em estado de letargia, absorvido que estava pelas saudosas recordações de
personagens e histórias que marcaram determinantemente várias gerações da sociedade
santacatarinense com os princípios de coragem e da procura constante do melhor e, com os valores de
família, do respeito e da honestidade, ouvi, fundo, uma música de violino entrando pela porta dentro da
barbearia. Curioso, pelo ritmo que não me parecia desconhecido, levantei-me, agarrei a porta, não
deixando que o cliente que ia de saída a fechasse e, olhei para o carro parado na luz vermelha, à frente
da barbearia do tio Dadinho, de onde vinha aquele som de... morna! Não, não reconheci a pessoa que ia a
conduzir mas, pelo aspecto físico poderia ser do Fogo ou da Brava, se bem que fiquei mais convencido
de se tratar de alguém do Fogo porque a morna que saia do carro era instrumental, tocada ao estilo de
violino da ilha do Fogo. Fechei a porta e regressei ao meu lugar. Antes de me sentar, uma chuva de
figuras e de histórias preencheram as minhas recordações.

Ntóni di Néco, Dénda, (1933 - 2007), Frank Tina, (1927 - 2006), Manêzinho di Nhabina, conhecido por Scáda,
(1928 - 2004), Arlindo Nhánha, (1935 - 2004), e Frank Lotinha, músicos que marcaram a sociedade
Catarinense e, em especial, Figueirense da minha meninice, na década de sessenta, disseram presente. A
precedê-los, a minha recordação trouxe, todavia, o grupo do Cândido Mámá di nhô Cândido, (1918 - 1999),
no violino, Cantilhano Noquinha, (1918 - 1996), na viola, Moisés de Lúlú, (1919 - 1996), na viola, Tio Djédjé,
(1919 - 1996), na viola, Tio Parromano na viola e, também, como exímio intérprete de mornas, Tio Pedrinho,
(1923 - 1999), no violino, e, Tio Xalêzinho, (1928 - 2005), no violino. Eles são mencionados como os
animadores das festas de Cova Figueira e de toda a freguesia de Santa Catarina, nos finais dos idos anos
trinta, até à primeira metade da década de cinquenta do século passado. Recordei o tempo em que eu era
menino, junto com os meus irmãos, e a minha mãe que costumava contar-nos estórias, à noite, com um ar
saudoso e olhos a brilhar, à luz do candeeiro, de como o meu pai fazia o violino “chorar” nas festas desse
tempo, ora em casa da Nhánha Nhô Cândido (1901 - 1951), ora em casa da Nhánha Bia ou, ainda, em casa
da Vina Santa (1899-1981) com o Administrador da ilha como convidado de honra. Ela contava, ainda, das
serenatas que se faziam em Baluarte, da bela voz que tinha o Tio Parromano e, até, cantava para nós a
morna “Moreninha sem par” ou, “Pombinha esquiva” ou, ainda a “Fodegosa”... que o Tio Parromano
trouxe da Praia, quando regressou da tropa, no ano de 1943. Já sentado, relembrando este cenário,
repetidas vezes vivido na minha infância, cogitei que, se calhar, fora naqueles momentos de expressão
de cultura e de amor que a minha mãe plantou fundo as raízes da minha caboverdianidade...

Depois do grupo do Cândido, Moisés e Cantilhano Noquinha, a minha recordação trouxe de novo o grupo
do Ntóni di Néco, Dénda e companhia e os grandes marcos que imprimiram na música catarinense nos
anos sessenta. Recordei que aí, pelo início da década de sessenta, por volta de 1962, período marcado
pelo início das secas que vieram a transformar todo Cabo Verde, o grupo ganhou notoriedade e, elevou
Santa Catarina a um outro patamar, ao ganhar um concurso de música a nível da ilha, organizado em S.
Filipe, com a coladeira “Agú tem, agú ca tem”. Esta coladeira, compositada pelo Pedro Fonseca Fontes,
mais conhecido por Pedrinho di Vitalina, e orquestrada pelo Dénda, uma sátira ao poder de então que não
conseguia resolver os problemas na canalização já desgastada da água para Cova Figueira, chegou de
ser tocada na estação de rádio da Praia para o auditório de todo o Arquipélago. Recordei ainda que, na
mesma altura, o grupo passou a divulgar mais uma outra canção que enchia de orgulho os Figueirenses
porque toda ela é um hino a Cova Figueira, em língua Portuguesa, e que foi compositada no início dos
anos cinquenta, (50/52), também, pelo Pedro Fonseca Fontes. O nome desta canção é “ Cova Figueira,
povoação popular”. Por fim, recordei que, por volta de 1968, num momento de inspiração, aí, na “Cruz di
Maria da Cruz”, de onde se vê todo o “mar di casinha” até a linha do horizonte passando pela ilha de
Santiago, Frank Lotinha, com a dor da saudade a apertar pela partida para América que se aproximava,
compõe e musicalisa os versos de uma das mais lindas mornas daquele tempo e que veio a tornar-se,
sobretudo, a partir do início dos anos setenta, uma sina dos catarinenses: “América ê nha terra longe” (9).
Interpretada, pelo grupo do Ntóni di Néco e do Dénda e pela bela voz do Eurico Veiga, mais conhecido por
Eurico di Nênêzinha, e gravada em cassete, esta morna, América ê nha terra longe, fez parte das
preferências dos santacarinenses, nos bailes e nas serenatas, por largos tempos. Lembrei-me, com
saudades do tio Djédjé, José Henriques Veiga (1919 - 1996), de seu nome próprio, que, com o sorriso
estampado no rosto nos fazia ouvir, a mim e aos meus irmãos, a cassete no seu mini-autocarro em que
nos transportava da Bila para Cova Figueira, quando íamos de férias da Praia, por aquelas alturas.
Lembrei-me de ter pensado, naquele tempo, que ele, o meu tio, ao passar para nós a cassete com
músicos só da Cova Figueira, queria passar-nos o testemunho da nossa capacidade e do nosso orgulho
enquanto comunidade.

Ntóni di Néco, um grande violinista, e o Frank Lotinha, um exímio tocador do violão e também compositor,
são os dois únicos sobreviventes deste grupo.

O Ntóni di Néco encontra-se emigrado nos Estados Unidos com toda a família, desde 1976. Continua igual
a si próprio e é um animador frequente das noites cabo-verdianas, nos restaurantes criôlos de Brockton,
fazendo-se acompanhar, ora pelos filhos Láu e Nhônhô e pelo neto Zé di Láu, ora por Mário di Vera e por
João de Deus di Artinina, dois outros rapazes filhos de Cova Figueira.

O Frank Lotinha regressou a viver em Maria da Cruz, Cova Figueira, deixando para trás família e amigos,
para reviver o seu “amor-perfeito” roubado pelos anos passados na emigração. Diz-se por aí que arranjou
novos amigos em Maria da Cruz e, também, uma nova cretchêu que até já lhe deu novos filhos mas que
ainda hoje, a Cruz di Maria da Cruz, seu local predilecto de inspiração, dá-lhe aquele aperto de sodádi e
um nó na garganta que só acabam com o choro...

é a saudade que já não tem poiso é, isto mesmo!!! Murmurei, pensando no Frank Lotinha. É o sonho
guardado, recalcado e não realizado...é a dor do passado e, a responsabilidade do presente... é a
constante separação de familiares e de amigos... é o desencontro com a realidade... é a triste sina do
emigrante... é a nossa sorte; ter saudades...saudades do passado; saudades do presente e do futuro;
saudades de lugares conhecidos e imaginados; saudades do amor perdido; saudades dos amigos;
saudades dos que nos deixaram; saudades, saudades, saudades sem poiso! Será castigo ou previlégio?

Nota:

(9) Morna; América ê nha terra longi. Composição de Frank Lotinha (letra recordada com a ajuda do Amaral
Veiga).
Nun tardinha na sol di calada, Ami na cruz di Maria da Cruz ‘n spia pa mar di casinha, sodadi Pertam, quêl
fazem tchora América ê nha terra longi Cabo Verde ê nha amor-perfeito Terra nha mãe, nha crêtchêu, nhas
amigos Qui ta fazem tchora, sodadi Son dês morna ê un cavaquinho Trazen um violão tão perdido Frank na
Mérca ta tchora sodadi Cu sperança d’el torna volta América ê nha terra longi Cabo Verde ê nha amor-
perfeito Terra nha mãe, nha crêtchêu, nhas amigos Qui ta fazem tchora sodádi

Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.

                               
 IV.2 PARTE

Ouvi, então, o tio Dadinho a dizer ao NTónéco que “os valores matriciais que estão a dar às propriedades
em Cova Figueira, são muito elevados”...e NTónéco a responder que... “esses meninos de agora que
andam a trabalhar nestas coisas não sabem como fazer esse trabalho”... E, de repente, e a propósito de
meninos, como que acordei das minhas divagações poéticas sobre saudade sem poiso e, então, acudiu-
me a figura do Amadeus Fontes.

Um jovem de 45 anos de idade, Amadeus Fontes deve, por mérito próprio, aparecer na lista das figuras
não só de Santa Catarina e do Fogo, mas de todo o Cabo Verde, como um dos grandes do nosso mundo
artístico. Filho de Cova Figueira, mais propriamente de Frank di Tina que foi, também, tocador, Amadeus
encontra-se emigrado nos Estados Unidos desde 1984. É com o seu grupo um dos grandes animadores
dos bailes “criôlos” e que integra, entre outros, o violinista Linkin de Nóna e é, também, um dos fazedores
das noites cabo-verdianas, pelos restaurantes “criôlos”, em Boston, nos fins-de-semana.

Amadeus Fontes é um artista versátil: é compositor, faz arranjos musicais e interpreta, quer como
instrumentista (é multi-instrumentista), quer como cantor, para além de ter um pequeno studio de
produção. Contudo, é antes de mais um trovador, das pessoas, da vida de Cova Figueira e do mundo.
Duas belas composições dele, muito apreciadas a nível nacional – Antoninho Bódi, interpretado por
Djosinha e “Mar qui panham nha bóti”ou (Michell), cantado pelo próprio - são o retrato fiel de estórias
vividas em Cova Figueira, com personagens reais e, talvez por isso, de selecção obrigatória nos bailes
dos Figueirenses, aqui na América.

“Antoninho Bódi”, conta a estória, passada em 1983, de uma guerra, motivada por traição amorosa,
envolvendo Antoninho Bódi, Maninha e Náná di Tchico Nhaí, em que, Pinto Veiga, na qualidade de juiz do
tribunal popular, é chamado a fazer justiça. “Mar qui panham nha bóti”, conta a estória triste de Michell,
um rapaz de 20 anos que se afogou e morreu no mar, na baía di Fajã, em 2006, ao ir apanhar a lagosta para
festejar com a noiva, que tinha ido da América para ir buscá-lo.

Amadeus Fontes é ainda compositor de vários outros temas, como: “Cumpádri Francisco” (1984); “Pádri
qui casam” (1991); “Ana cú Maria” (1996); todos interpretados por Bana, sendo o primeiro e o terceiro,
também, retratos de estórias reais passadas em Cova Figueira. Tem ainda composições em carteira como
a bandeira “Grandéza di Djarfogo” (1999) que estava previsto ser gravada pelo malogrado Ildo Lobo;
“Cabra di Rótcha” (2000); “Telefone, telemóvel, telecriolo” (2004), os quais Amadeus pensa lançar no seu
próximo CD. Fruto da tradição musical da sociedade catarinense, Amadeus Fontes é, agora, o seu
expoente máximo a nível nacional. Estilizou o ritmo das mornas e coladeiras da região catarinense do
Fogo e vem fazendo o mesmo com o ritmo das suas bandeiras. Acreditamos, pois, pelos pergaminhos
artísticos a que já nos habituou, que muito mais fará para a música de Santa Catarina, continuando a
cantar e a retratar os catarinenses no seu ritmo e lá onde estiverem.

A figura de trovador de Amadeus Fontes trouxe-me as imagens de Ana Mamá di Luísa, Xóti Mané di Xêpa,
Nênê di Arcanja, Mamá di Mília, Maria di Dina e Lim di Dimingo, figuras ligadas às festas das bandeiras, em
Santa Catarina, nos anos cinquenta e sessenta. Acudiram-me recordações da minha meninice e contos da
minha mãe, de que a Avó Quina, tinha a tradição de festejar todos os anos o San Djôn e o San Pedro, nos
dias 24 e 28 de Junho, fazendo dias seguidos de festas que, às vezes, duravam uma semana ou mais, e
envolvia a chamada matança de animais – porcos, carneiros, cabritos, cabras, vaca - muita comida e muito
grogue. Com a morte do filho Guíguí, (1937 - 1962), em acidente de moto em S.Vicente, precisamente no
dia de San Djôn, ela deixou definitivamente de festejar as ditas bandeiras para passar a realizar missa em
memória do defunto durante os sete anos seguintes. Assim, as bandeiras de San Djôn e de San Pedro
deixaram de ser festejadas em Cova Figueira durante todo esse tempo e fiquei sem memória se depois
foram retomadas por outras famílias. Recordei a festa de Santo António que era tradicionalmente
festejada em Baluarte pela Julieta.

Lembrei-me de algo que me fez esboçar um sorriso... Na minha meninice, cheguei a pensar que só a
Julieta podia festejar o Santo António. É que o sogro dela, na casa de quem ela morava, chamava-se
António Grandi (1886 - 1970). Ela era casada com o António Piqueno (1926 - 1984). E tem um filho chamado
José António… Mas parei logo de rir, para não ser apanhado pelo NTónéco que estava sentado no meu
lado esquerdo.

Acudiu-me então uma outra estória que o meu primo Amaral me contara aqui na América, a propósito da
“grandéza”(10) da nossa gente na organização de festas. Aí pelos anos de 1971 ou 1972, ele (o Amaral)
estava ainda a viver em Cabo Verde e, foi à festa da bandeira de Nhô S. Filipe, em Cova Figueira,
festejado, tradicionalmente, no dia 11 de Maio pelo Gonçalvi da Enseada Nha Lena. Nessa festa estava,
também, o Armindo Fontes Barbosa, que vivia na Praia por aquelas alturas mas, que tinha ido em missão
de serviço para o Fogo. O Gonçalvi um homem simples, coveiro de profissão, tinha providenciado a
matança de uma vaca para a festa, aí à frente de todos os festeiros. Então, o Armindo Fontes Barbosa
emocionado e, estupefacto com tal cena e com tanta fartura e festança, tomou a palavra e, disse, entre
outros: ... Ês quê pôvo di coraçon grandi! Tão grandi cumó burcan di Djarfogo... (11). E, não é que é!
Retorqui para comigo.

Todavia, lembrei-me, ainda, dessa impressão que a festa das bandeiras causava em mim na flor da minha
meninice: O tambor e os “gritos” das cantadeiras davam-me a sensação de algo de estranho, que nada
tinha a ver com a Cova Figueira... O Xóti Mané di Xêpa que era o tamborileiro naquela altura era, por
acaso, uma figura que me era estranha pois, ele não era da Cova Figueira. Mas, à medida que fui
crescendo, habituei-me ao ritmo das cantigas e às figuras ligadas às bandeiras e passei a admirar o Lim di
Dimingo a rufar os tambores e a entrar com o seu assobio que lhe é característico – fino e comprido - no
momento certo, como que a dizer à Cova Figueira que a festa é rija e vai durar. Assim, vim a atribuir
aquela impressão da minha tenra idade, à figura do Xóti Mané di Xêpa e/ou, ainda, ao facto das
manifestações das bandeiras acontecerem talvez um bocado espaçadas no tempo... Recordei também a
capacidade de improvisação da Nené di Arcanja que a cantar ia fabricando estórias consoante as
personagens com as quais cruzava. Pena, não conseguir lembrar, senão de nomes de pessoas que a
Nênê di Arcanja cantou nesses momentos de inspiração!!!

Nota: (10) Vaidade
(11) Que povo de coração grande! Tão grande como o Vulcão do Fogo...
Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com, Boston.        

                             
    V PARTE

Perguntei ao tio Dadinho se por acaso sabia em que ano a Nenê di Arcanja nasceu e, também, o ano em
que ela faleceu. Ele respondeu-me que n ão e, que, quem poderia dar-me essas informações podia ser a
Tia (Avó) Canquinha que completou os cem anos neste mês de Novembro, com uma grande festa no “Hall”
(salão de festas). NT ón éco retorquiu que ela, a tia Canquinha, está lúcida ainda e que pode contar-me
muita coisa sobre gente antiga, donde é que vêm... Tio Dadinho respondeu que ela está rija, sim, mas, que
está a ouvir mal e, que, quem é bom mesmo com as informações sobre gente antiga é o Nhôlá, José
Malaquias Monteiro Fontes, de seu nome próprio. O Nhôlá, quando menino, aprendeu com a Nha
Mariquinha (1863 - 1964), avó dele pelo lado da mãe, ent ão, ele conhece todas as famílias de Cova
Figueira e donde é que vêm, completou.

Fiquei a pensar no Nhôlá que, por acaso, não tive a oportunidade de encontrar desde que passei a viver
na América, mas, que sempre me fora recomendado como um conhecedor da genealogia das famílias de
Cova Figueira. Uma vez mais, prometi a mim mesmo que tiraria um desses dias para o ir visitar, pois que,
para além do mais, foi muito amigo do meu pai, e assim, satisfazer um dever e, porque não, também, um
pouco da minha curiosidade e demonstrar-lhe, ainda, a minha admiração pela dedicação que teve, quando
menino, para aprender com a avó a genealogia das famílias de Cova Figueira. Com naturalidade, às
minhas recordações, acudiram outras figuras, curiosos e autodidactas, que tive, e tenho, o privilégio de
conhecer e que se impuseram em Santa Catarina do Fogo.

Apareceu, primeiro, o Pedro Fonseca Fontes ou, Pedrinho di Vitalina como é mais conhecido. Ele é uma
dessas figuras que se impôs no meio Catarinense; um amante do bem falar, das letras, da cultura e da
intelectualidade. Um autodidacta de fazer inveja! Ele nasceu em Cova Figueira nos idos anos de 1929 e
emigrou para América já adulto no ano de 1970.

Um homem dinômico e activo na sociedade, Pedro Fontes esteve envolvido em várias actividades.

Para além das composições “Cova Figueira povoação popular” (1950/52), “Agu tem, agu ca tem” (1962), e
que atrás citamos, compôs ainda a morna “C ú nha disgosto, n’ ta sufri” (1940) e a coladeira “Primera bez q’
um bá pa Bila” (1964/65).

Esteve na organização e encenação do teatro em Cova Figueira nos princípios dos anos cinquenta, em
companhia de colegas e amigos como o Arnaldo Barbosa, conhecido ainda por Arnaldo Nha C ôndida (? -
?); o Sabino Lopes Gonçalves, mais conhecido por Sabino Lotinha (1914 - 1993); o Eugénio Fontes,
também conhecido por Eugénio Nhaí; o José Santos Fontes, conhecido por Santinho; entre outros. A
geração dos meus pais recorda saudosamente uma das peças teatrais encenada por este grupo nos princ
ípios dos anos cinquenta, no local que chamavam de Igreja e que fica na parte traseira da casa dos meus
avós Xalé e Quina e à frente da casa do Rúja e de Nhaí de Ntónha. Nesta pe ça participaram como artistas
o Pedrinho di Vitalina, o Tio Santinho, a Quéta di Tina, o Tio Parromano, a Niquinha di Cúca, o Arnaldo
Barbosa, a Codé di Nascimento, o Zezé di Ita, a Antónia di Ita, a Baizinha di Linda entre outros(as).

Esteve, também, com alguns dos amigos já citados, na organização de grupos carnavalescos em Cova
Figueira, isso, nos anos cinquenta a sessenta. E, no mesmo per íodo deu um contributo inestimável para a
construção do campo de futebol do “Monti P êládo,” ao mobilizar e dispensar os seus homens, enquanto
capatazes de obras.

Apesar de ter apenas a quarta classe escolar, Pedro Fonseca Fontes escreveu n ão s ó letras para a
música, como versos e peças jornal ísticas que chegou de publicar no jornal “O Arquipélago”, em Cabo
Verde e, mais tarde, no “Portuguese Times”, em New Bedford, MA EUA, contando e cantando sobre a
sociedade de Cova Figueira. Tem guardados contos em crioulo, uns referentes a Eduardo Monteiro
Fontes, conhecido por Dadinho di Páchi, avô dele e meu bisavô e gentes desta gera ção e, também, em
Português que nunca chegou de publicar. Relíquias, que acabei de descobrir!

Trespassaram, depois, pelas minhas recordações, vários outros nomes que precederam a figura de Pedro
Fonseca Fontes. O José Cristiano Fontes, Sr. Fontes, como lhe chamavam ou, ainda, Nhonhô di Fidjinha,
(1912 - 1983), como foi conhecido por próximos; o Pedro Vieira Fonseca, conhecido por Néco di Bia (1904 -
1972); o António Pedro Fonseca também chamado por Bêlógiou, ainda, por Antoninho di Bia, (1910 - 2001).

Os três frequentaram o liceu no antigo Seminário de S. Nicolau e exerceram a actividade de professorado,
por vários anos, em diversas localidades de Cabo Verde. O Nhonhô di Fidjinha, um “quinto-anista” como
dizia o povo em Cova Figueira, foi um professor afamado nesta povoação, tendo leccionado ainda em
Forno e em S. Filipe e, também, foi prosador de renome; o Néco di Bia e o Antoninho di Bia foram dois
irmãos, filhos do padre Ambrósio, um homem culto e amante da escola. Eles foram professores de várias
gera ç ões na Cova Figueira, entre as quais a minha; o Néco foi ainda professor em Achada Grande/Corvo
dos Mosteiros e o Antoninho di Bia leccionou o ensino primário, também, em Calheta de Santiago de 1941
a 1952 e, em Juncalinho e Queimadas de S. Nicolau, de 1952 a 1959.

Recordei, ainda, o Sabino Lopes Gonçalves ou Sabino Lotinha (1914 - 1993) como era chamado por todos.
Irreverente, bem-falante, amante da música e dos cavalos. Sabino foi um grande activista cultural,
desportivo e, tamb ém,político.

Todos eles foram figuras dos anos trinta a sessenta e por serem originários de Cova Figueira e parentes,
todos eles contribuíram enormemente para transmitir-me, ainda na minha infôncia, aquele sentimento de
orgulho de pertença à comunidade catarinense.

Lembrei-me ainda de outro autodidacta exemplar de Santa Catarina do Fogo, um companheiro predilecto
de “troca de impressões” aqui na Am érica, um amigo de infôncia, o Joaquim Fontes, mais conhecido por
Quinquin di Canquinha.

Natural de Cova Figueira, nasceu no ano de 1949, sofre de distrofia muscular, uma doen ça que começou
a atacar-lhe as células dos m úsculos, tinha ele os sete anos de idade. A pouco a pouco, viu reduzir-se a
locomo ção pelos seus próprios meios até que, aos dezasseis anos de idade, viu-se obrigado a socorrer-
se da cadeira de rodas.

Homem de carácter forte, determinado e inteligente, Quinquin, por causa da doença, não pôde ir além dos
estudos primários na escola formal. Contudo, por iniciativa e esforço próprios, em 1963/1964, fez um curso
de Inglês pela rádio, através da famosa estação da BBC e, entre 1970 e 1973, fez um curso de electrónica
por correspondência. Assim, por largos anos, Quinquin foi o único dotado de um certificado ao qual se
recorria para traduções de documentos do Inglês para o Português e, particularmente, para concerto e
reparação de aparelhos de rádio e de relógios, na ilha do Fogo.

Foi o primeiro, tamb ém, a captar as emissões televisivas na ilha do Fogo, isso nos anos de 1974/1976.
Captou em Cova Figueira, nesse per íodo, os Jogos Olímpicos de Canadá que, várias pessoas, vindas de
quase todas as localidades do Fogo, puderam assistir.

Depois de ter emigrado para os Estados Unidos, em 1978, aprendeu como preparar o imposto sobre os
rendimentos deste Pa ís (o Income Tax), aprendeu os of ícios de Notário Público e tirou a respectiva licen
ça, assim como a licença de Juiz de Paz. Há anos que vem ajudando a comunidade cabo-verdiana, entre
outras, de língua portuguesa, com os serviços ligados a casamentos, emigração, preenchimento de
impostos, procurações, etc...

Quinquim é uma figura de se tirar o chapéu e Santa Catarina do Fogo deve-lhe a divulgação destacada
das suas informaç ões através do portal criado na internet, sob o endereço WWW.Topicos123.com todo
concebido e executado por ele. Foi um apoiante incondicional da elevação de Santa Catarina a Concelho
e é um lutador incansável para o seu desenvolvimento.

Pensar em Quinquim fez-me lembrar que ainda tinha de ir at é Randolph, a cidade onde ele mora, à casa
da minha irm ã Estef ônia. Levantei-me e despedi-me do NT ón éco dizendo-lhe que da pr óxima haver
íamos de continuar esta conversa sobre os peritos de marca ções de terrenos porque a havia achado
interessante e, com outro aperto de mão, despedi-me do Tio Dadinho, formulando um... vemo-nos no
próximo fim de semana.

E despeço-me, também, dos leitores, marcando o nosso derradeiro encontro, com essas recorda ç ões,
para a próxima 5.ª Feira.

Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.
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 VI PARTE

Já no carro, a caminho de Randolph, dei comigo a questionar-me se as minhas recordações sobre as
figuras de Santa Catarina do Fogo teriam ingredientes para constituir uma boa crónica. Decidi que o
prazer que as recordações de tais personagens me proporcionam é tal que, certamente, encontrarei os
melhores ingredientes. O meu maior problema, pensei, ser´ talvez seleccionar os ingredientes que
melhor caracterizam as personagens, as histórias e as estórias. Mas ingredientes e personagens não me
hão-de faltar. Preocupei-me, também, se não acabaria por fazer injustiça, passando ao lado de figuras que
talvez até desconheça, ferindo susceptibilidades e criando indesej´veis conflitos. Decidi, não se pode
censurar a inspiração com demasiadas preocupações. O melhor que posso fazer, concluí, é deixar esta
estória em aberto, e esperar que, de forma igualmente fraterna, surjam outras figuras e/ou outras
histórias e estórias.

Não obstante, enquanto chegava a estas conclusões, j´ a minha cabeça fervilhava à busca de figuras que
porventura tivesse esquecido. A pouco a pouco, não sei se por estar na “Estrada 28”, a conduzir em
direcção a Randolph, veio-me à lembrança a imagem da estrada que leva ao “Monti Pêl´do”, nome do
campo de futebol da Cova Figueira. Então, em catadupa, sucederam-se uma série de recordações de
figuras e de histórias e estórias, todas ligadas ao futebol da Cova Figueira. Na verdade, antes do “Monti
Pêl´do”, as partidas de futebol realizavam-se na “Quem´da B´xo” em Cova Figueira, à frente da casa do
Branquinho.

Tio Santinho, um grande amante do futebol, ferrenho adepto do Santos do Pelé, do Brasil e do Sporting de
Portugal não consegue, ainda hoje, assistir pela televisão nem ouvir o relato pela r´dio dos jogos da
equipa que apoia, tal é a emoção que se apodera dele. Ali´s, todas as vezes que uma dessas equipas de
que ele é adepto joga, ele arranja sempre desculpas para se isolar (tem sempre um pequeno aparelho
r´dio na mão ou, no bolso) e reaparecer com o golo da sua equipa ou, como é mais frequente, com a
vitória final.

Acompanhando a figura do Tio Santinho, apareceram figuras que nos finais dos anos cinquenta e
princípios dos anos sessenta jogavam futebol em Cova Figueira, à frente da casa do Branquinho, e que a
minha memória, um a um, foi recordando: Manuel di Tarêxa, Frank Lotinha (Yaúca, era como lhe
chamavam), Tio Pedrinho (Pedrinho di Mam´ di nhô Cândido), Lim di Dimingo, Pedrinho Lim (Léléca), X´xi
Nascimento, Sabino Lotinha, (um ferrenho adepto dos Belenenses de Portugal que chegou a jogar no
Sporting dos Mosteiros), Jorge Maurício, Maninho di Mano Tchôtchô, Nhônhô di Panôta, António
Chimento, João di Mamanzinha, (1940 - 1969), Valdimiro Maria Dina, Orlando Nogueira, Tio Búrbúr, Arlindo
Nh´nha, João di Djéca, Tio João, como ´rbitro ou fiscal de linha, e gente mais nova como o Guédes di
Micia, Frank Moisés, Eurico Nenêzinha, José Pedro di Djédjé, Nhônhôzinho di Catrina (Cuquinha) entre
outros.

Arlindo di Nh´nha e João di Djéca eram dois esquerdinos que a minha lembrança guardou como dois
homens de pontapés forte, sobretudo quando bombeavam a bola. Tio João, também conhecido por Féré,
(1927 - 2004), marcou-me com aquela imagem, hoje saudosa, do ´rbitro parcial que pendia com a cabeça, e
inclusive, com o corpo todo, para o lado que ele queria que a bola fosse.

A esta geração de homens, jogadores e amantes do futebol, devemos não só a tradição da pr´tica desta
modalidade, no meio Figueirense, como o campo de “Monti Pêl´do”, em Cova Figueira. Todos eles,
entusiasmados pelo Jorge Maurício que na altura era professor em Cova Figueira, conseguiram o terreno
cedido por Pedro Veiga e Maria Medina Henriques Veiga. Depois o terreno foi ampliado com uma parcela
colocada à disposição pelo casal Pedro Vieira Fonseca, (Néco Bia) e Guilhermina Vieira Fontes Fonseca
(Nhamina Sandjon) (1910 - 2003), aí em “Monti Pêl´do”. Mais tarde, obtiveram apoio em equipamentos e
homens junto das autoridades respons´veis pelas construções de estradas. O Pedrinho di Vitalina, que na
altura era capataz num dos troços de estrada ai perto, deu um apoio inestim´vel. Em regime de trabalho a
tempo parcial, e algum trabalho volunt´rio, andaram por mais de um ano a construir o campo “Monti
Pêl´do”.

Não pude deixar de recordar os jogadores de futebol da Cova Figueira na companhia dos quais
experimentei momentos inolvid´veis na pr´tica desta modalidade: Luther Veiga, Nélinho Lilim, César
Maninha, Amaral Veiga, Caló Fontes, Alcides Veiga, Salvador, Walter Veiga, César Lubrano, Pedro Paulo
Veiga, Xóti Pires, Zito Veiga, Pedrinzinho Veiga, Daniel Fonseca, Pinto Veiga, Xalé Fontes, José Luís (Kar´),
Luís Veiga, Candinho Veiga, L´u Fonseca, Gregório Pires, Distéfano Veiga. De todos guardo profundas
recordações mas assaltam-me duas lembranças: a primeira, o grande faro e sentido da baliza do
Distéfano, um pequerucho naquela altura, mas, oportuno a marcar golos como jamais presenciara. Mais
tarde, Distéfano só não foi ao Alvalade, para integrar a equipa do Sporting porque o cunhado Virgílio, com
quem vivia nos primeiros anos em que emigrou para os Estados Unidos, assim não quis; Sporting chegou
a convid´-lo, numa das deslocações que fez para os Estados Unidos para jogar contra a selecção da LASA
(12) de que Distéfano era um jogador destacado; a segunda lembrança, a segurança que sentia na equipa
quando tinha a jogar o Walter (13) e o Pedrinzinho, na defesa, o Xalé e o Candinho, no meio campo. Esses
quatro jogadores eram autênticos tampões, a bola não passava e, ao mesmo tempo, grandes armadores
de jogo. Durante toda a primeira metade dos anos setenta, o Xalé, o Candinho e eu íamos regularmente da
Praia, passar as férias grandes escolares, a Cova Figueira, e então, integr´vamos a equipa local para
disputar jogos com outras equipas e localidades do Fogo.

Orgulha-me recordar que, de todos os jogos em que participei, durante esse tempo todo, Cova Figueira
não perdeu senão contra o Botafogo, em S. Filipe, um jogo em que and´vamos desfalcados de alguns dos
nossos melhores jogadores, e que também muito me marcou, porque joguei com uma distensão muscular
na perna direita, uma dor que jamais consegui apagar da minha memória. Ganh´mos sempre nos jogos
disputados em casa, no “Monti Pêl´do”, onde dispúnhamos do apoio total do povo de Cova Figueira e de
Santa Catarina. Crianças, jovens, adultos, mais velhos, homens e mulheres, todos rumavam ao “Monti
Pêl´do” nos dias em que recebíamos advers´rios vindos de outras localidades. Era um apoio
incondicional, de todos, sem distinção nem divisão... O povo e a alegria do povo dava-nos mais energia e
o brio de jogar bem. Eu sentia um enorme contentamento e uma motivação extra quando via senhoras
como a Nenêzinha di Pinina carregar ´gua para o “Monti Pêl´do” para distribuir para os jogadores. Sentia-
me apoiado e em comunhão com a minha gente. Momento algum em minha vida conseguiu apagar
recordações tão alegres e tão reconfortantes, junto com a minha gente. Festej´mos muitas vitórias.
Juntos, em comunhão com as nossas recordações e figuras, com a nossa história, com as nossas gentes,
conseguiremos outras vitórias, e construiremos outras figuras e outras estórias, para o melhor porvir de
Santa Catarina.

Para todos os filhos e amigos de Santa Catarina do Fogo, votos sinceros de Boas Festas de Santa
Catarina! Cantemos, então, em uníssono o nosso hino, Cova Figueira povoação popular (*) legado por
Pedro Fonseca Fontes (Pedrinho di Vitalina).
I


Cova Figueira, povoação popular
De lindas cores e tudo o mais
No seu seio a todos há-de encantar
Moças bonitas coisas banais

Refrão

É terra de encanto e de luz
É terra que tudo seduz
Risonha e modesta
Em dias de festa

II


Cova Figueira povoação popular
De lindas flores e tudo o mais
No seu seio a todos há-de encantar
Moç as bonitas coisas banais


Refrão

É terra de encanto e de luz
É terra que tudo seduz
Risonha e modesta
Em dias de festa

III


Amanhã é dia de festa
Nesta terrinha com esplendor
Raparigada dançai, dçnçai que há-de brilhar a nossa festa
Rapaziada cantai, bailai com alegria e com amor

Refrão

É terra de encanto e de luz
É terra que tudo seduz
Risonha e modesta
Em dias de festa
(*) Inserida neste espaço graças à amável colaboração do filho do autor, o José Pedro Fontes, Colácho.

Notas:

(12) Luso American Soccer Association: Associação Luso-Americana de Futebol

(13) Walter é o pai do Zico que integrou a equipa de Cabo Verde dos sub-19, nos Jogos Lusófonos em
Macau, e que foi o melhor marcador da nossa selecção nestes jogos.

Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.

FIM
Claudio