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sempre. O objéctivo é informar ou criticar sem contudo esquecer os parámetros do civismo.
COLUNISTAS

Cabo Verde – Intrigas e Confusões Sobre Figuras e Aspectos Nobres
“A maior necessidade do mundo é a de homens – homens que não se comprem nem se vendam; (…) homens que não temam chamar pecado pelo seu nome exato; (…) homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a
bússola o é ao pólo”. Ellen G. White
Após a independência, Cabo Verde passa a comemorar de, entre outras datas, Cinco de Julho, Treze e Vinte de Janeiro. Cinco de Julho é o dia da independência nacional, Treze de janeiro o da liberdade e da democracia e vinte
o da morte de Cabral e dos heróis nacionais. Essas datas passaram a ser históricas e, infelizmente, partidarizadas. Cinco de julho e Vinte de janeiro são datas, eminentemente, ligadas à figura de Cabral e, sendo assim, em Cabo
Verde são, infelizmente, vistas como do PAICV quando, na verdade, deviam ser encaradas como de todos os cabo-verdianos. Treze de janeiro, Dia da Liberdade e da Democracia, marca, também, a realização das primeiras
eleições pluripartidárias que deram vitória ao MPD. É, também, visto, infelizmente, como data do MPD. Acompanhando as suas comemorações nestes últimos anos, pensamos que ainda iremos conviver com intriga e confusão por
alguns anos por culpa dos dois partidos (situação e oposição) e também da sociedade civil que ainda não assume e tampouco desempenha o papel que lhe cabe.
Cinco de Julho e Vinte de Janeiro têm como maior referência Cabral. Um intelectual de renome no mundo e na África em particular; promotor incansável da luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde; político, intelectual e
idealizador de toda a luta da independência nacional; combatente, não de gabinete, pois, esteve na linha de frente junto dos compatriotas; com arma na mão, pondo a sua vida em risco por uma causa não pessoal/partidária, mas
sim, justa e colectiva; co-fundador do PAIGC/CV; elaborou um programa dentro do partido para salvaguardar os soberanos interesses da Guiné e Cabo Verde. E, por causa das independências desses países perdeu a sua primeira
conquista como homem – a vida. Obrigado Cabral por não ter poupado o que lhe era de mais importante a favor de uma causa nobre. Considerado, por muitos, como maior intelectual africano, foi um homem altruísta, batalhador,
determinante, com idéias claras e objectivas sobre o futuro da Guiné e de Cabo Verde.
Assumiu uma postura clara e determinante contra o regime colonial e, sobretudo, contra o sistema instaurado por António de Oliveira Salazar a partir da década de 30 do século XX. Nessa época, Portugal fazia passar em Cabo
Verde, assim como, em outras latitudes que o sistema colonial era o melhor. Salazar, através dos seus discursos, tentava convencer as pessoas que era um homem de bem. Dizia que o negro não apresentava condições para
autogovernar e que, não cedendo independência estaria a nos fazer um grande favor. Neste contexto conturbado, confuso e, sobretudo, perigoso, Salazar legitimava o colonialismo e o seu sistema através de discurso retórico e
demagógico. É também, neste contexto que surgiu Cabral contrapondo todo o sistema colonial e o regime salazarista aliando-se aos compatriotas da Guiné e Cabo Verde numa luta contra qualquer tipo de dominação, da
injustiça… Cabral era um homem altruísta e com visão do futuro. Pensava sempre nas crianças e no futuro delas. Por isso, arriscou e perdeu a vida por causa justa – a da libertação da Guiné e Cabo Verde. Aliás, lutou não só para
tornar esses territórios livres da metrópole, como também, visava, sobretudo, a libertação desses povos de Portugal. Cinco de Julho marca, apenas, o fim do colonialismo português e o início da liberdade da pátria cabo-verdiana. O
fim do colonialismo português e o início da liberdade da pátria custaram a vida de Cabral e de muitos heróis nacionais. Esse homem que perdeu a vida, deixando sua esposa viúva ainda cedo, deixando, também, filhos por criar, foi
considerado por muitos nessa época, de terrorista. As idéias de Cabral punham, evidentemente, em causa o conforto e a mordomia de muitos homens e por esses e outros motivos era altamente odiado, criticado, vilipendiado,
perseguido… pelos defensores do sistema. Hoje, hipocritamente, muitos que se militam no partido fundado por Cabral falam desse génio intelectual, altruísta e defensor dos direitos humanos. Falam de um homem que combateu a
injustiça, que lutou contra qualquer tipo de discriminação, que lutou para pôr fim à exploração do homem pelo homem etc. Mas esses falsos seguidores de Cabral combatem, sistematicamente, todos aqueles que hoje se
identificam realmente com Cabral.
Treze de Janeiro é, sem sombra para dúvidas, uma data complementar a Cinco de Julho. Com esses dois momentos, Cabo Verde é hoje o que é. Se, por um lado, com os governos da Primeira e Segunda República, o país deu
passos significativos rumo ao progresso e acreditamos que o cabo-verdiano de bom-senso, imbuído de dados históricos se congratula com a independência em detrimento do colonialismo como, também, deve ver no dia Treze de
Janeiro um momento crucial que marca o início do novo rumo para o país. Com Treze de Janeiro, Cabo Verde é, indubitavelmente, um país diferente. Apesar de muitas conquistas materiais e humanas alcançadas nestas três
décadas a sociedade cabo-verdiana produziu uma conduta e, ao mesmo tempo, implementou um sistema que, ao nosso ver, não estavam na génese de libertação nacional como, também, na de instauração do regime
pluripartidário. Hoje, não temos presos políticos, não temos tortura física, não temos campo de concentração, não temos milícias, não temos tribunal de zonas, não temos perseguição contra a Igreja Católica e nem contra os padres
etc. Essas medidas e instituições coercivas da época colonial e do período do partido único foram substituídas pela perseguição disfarçada, pela promoção da mediocridade em detrimento do mérito e competência, pelo ódio, pela
inveja, pela maldade, pela mentira, pela calúnia, pela difamação...
Muitos falam, hoje, de Jesus Cristo, de Sócrates, de Cabral, de Che Guevara, de Mandela, de Ghandi, de Obama... Outros até, hipocritamente, usam objectos, marcas dessas figuras, esquecendo-se que esses homens nunca
distribuíram cimento, nunca deram verga, casa de banho, pensão social, envelope com dinheiro para comprarem consciência dos pobres; nunca intimidaram os pobres, nunca perseguiram cidadãos pelo facto de pensarem
diferente. Como citar ou usar essas figuras se, hoje, os que realmente se identificam com elas são maltratados, odiados, invejados, vilipendiados, perseguidos, sonegados direitos, condenados e julgados injustamente, como Jesus o
foi pelo povo e Pôncio Pilatos e Cabral pelos, ainda, confusos, assassinos!? Cabo Verde alberga hoje, na sua sociedade, povo e vários Pôncio Pilatos.
Acreditamos que enquanto as instituições de ensino, mormente as Universidades, continuarem a privilegiar conteúdos em detrimento de pesquisa, análise, interpretação… continuaremos com intrigas e confusões sobre a nossa
realidade. Não somos mais que um simples e humilde cidadão a exercer seu direito da cidadania.
Cidade São Filipe, Janeiro de 2009
Alberto Nunes
Treze de Janeiro é, sem sombra para dúvidas, uma data complementar a Cinco de Julho. Com esses dois momentos, Cabo Verde é hoje o
que é. Se, por um lado, com os governos da Primeira e Segunda República, o país deu passos significativos rumo ao progresso e
acreditamos que o cabo-verdiano de bom-senso, imbuído de dados históricos se congratula com a independência em detrimento do
colonialismo como, também, deve ver no dia Treze de Janeiro um momento crucial que marca o início do novo rumo para o país.
Cabo Verde – Uma Visão Crítica
e
Pedagógica Sobre as Práticas Sociais e Politicas
“Os homens precisam se unir para fazer renascer o gosto pelo questionamento, mesmo sabendo que é uma tarefa difícil e pouco valorizada actualmente. Pois, vivemos numa sociedade satisfeita
consigo mesma. Uma sociedade que já se convenceu que o material é superior ao espiritual…” José João N. B. Vicente
Na aprendizagem, a sociedade é um livro aberto, ou se calhar, escola para os habitantes. Estes são leitores, estudantes e professores permanentes. A sociedade é heterogénea. Nela
encontramos crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos; Indivíduos, uns irresponsáveis, outros responsáveis e com responsabilidades elevadas. Todavia, tomando a sociedade como livro
ou escola, os sujeitos que nela vivem, aprendem e ensinam muitas vezes, sem querer, como também, aprendem ou ensinam sem escolher o que aprender ou ensinar. Há, como é lógico, nestas
circunstâncias, perigos diversos. Pois, trata-se de uma aprendizagem diversificada a partir da realidade e da experiência quotidiana, onde os indivíduos convivem com todas as castas de
pessoas. Deste livro ou escola ninguém escapa. Portanto, refletindo assim, podemos concluir que somos professores e alunos permanentes. Assim, o cidadão, por mais comum que seja acaba
por ter responsabilidade na sociedade. Os sucessos ou insucessos são consequências das nossas atitudes como cidadãos. Nesta lógica, os professores não são apenas os que passaram pela
escola de formação ou que estão em sala de aula, mas sim, todos os cidadãos conscientes ou inconscientes. Os alunos não são, apenas, os que frequentam uma instituição escolar. Assim sendo,
podemos dizer que há dois tipos de professores e alunos: os professores que abraçam o professorado como profissão e os que no quotidiano directa ou indirectamente, consciente ou
inconscientemente ensinam; os alunos que frequentam as aulas e aprendem nas escolas e os que aprendam com atitudes dos outros na sociedade. Assim sendo, todos os cidadãos são
professores/alunos e responsáveis pela e na sociedade.
Longe de igualarmos essas figuras, podemos tomar como exemplos paradigmáticos Jesus Cristo e Sócrates: Jesus era grande professor, sobretudo um educador. Não preparava as aulas como
também não tinha sala de aula específica. Ensinava em todos os lugares: praias de mar, foz dos rios, desertos, praças públicas etc. Seus alunos eram indivíduos simples, humildes, honestos ….
Escolheu indivíduos que a priori Lhe exigiam enorme tarefa. Todavia, soube em pouco tempo transformá-los em grandes pescadores de homens e condutores da humanidade. Seu ensino é, na
verdade, transformador, significativo e, sobretudo útil no passado, presente e futuro. Para materializar seus ensinamentos usou como material didáctico exemplos da sua própria vida.
Sócrates era, também, à semelhança de Jesus um excelente professor/educador. Não tinha sala de aula e tão pouco turmas específicas. Direccionava seus ensinamentos para esclarecer a
juventude grega. Trata-se de ensinamento útil à sociedade. Jesus e Sócrates foram figuras pragmáticas, úteis, com ensinamentos significativos e que ajudam muito na construção de uma
sociedade sadia, harmoniosa e igualitária. Todavia, ambos foram julgados e condenados à morte por causa da verdade. Entre enganar, mentir e defender a verdade, ambos preferiram a verdade e
por ela morreram. É diveras uma convicção árdua! As sociedades modernas precisam, urgentemente recuperar e produzir homens desse calibre. As escolas precisam ter professores reflexivos,
brilhantes e, sobretudo fascinantes (Augusto Cury, 2003) responsáveis e comprometidos com a profissão. As outras instituições devem instruir os funcionários a prestarem serviços, sobretudo
serviços de excelência como acto de dever. Afinal ensinamos às crianças a serem amanhã maus cidadãos, maus profissionais e maus professores com o comportamento que temos hoje na
sociedade, nas escolas e noutras instituições.
Devemos ter sempre em mente que quando vemos ou ouvimos indivíduos assumidamente responsáveis a mentir na televisão, na rádio ou a desvirtuar a verdade em função dos seus interesses
ou interesses confusos, nada mais estarão a fazer do que ensinar uma criança a mentir ou a desvirtuar uma verdade amanhã, em função dos seus interesses; sempre que vemos/ouvimos
indivíduos com responsabilidades acrescidas a fazerem promessas falsas estarão a ensinar as crianças a não cumprirem com as suas tarefas/ obrigações no futuro. Tomemos a consciência,
sejamos responsáveis, freemos os nossos interesses a favor de uma sociedade justa, fraterna, harmoniosa e equilibrada para que amanhã não venhamos a criticar e condenar a sociedade que
hoje construímos! Jesus e Sócrates são figuras importantes a seguir, mas para tal é preciso conhecê-Los através da Bíblia (Jesus) e livros de filosofia (Sócrates), pois, o mundo precisa cada vez
mais de cidadãos desse calibre; precisa de cidadãos com visão clara e objectiva; precisa de homens reflexivos, transformadores, altruístas e práticos; precisa de ensino prático e fundamentado
na vivência quotidiana… Como esperar uma sociedade sadia, justa, harmoniosa, equilibrada… se hodiernamente o homem vive em função do presente, do imediato e dos seus próprios interesses
abdicando dos aspectos colectivos/comuns que constituem Pedras Basilares na construção da sociedade ideal almejada pelos homens que ainda defendem valores!?
É o que pensamos de momento como simples e humilde cidadão.
Cidade São Filipe, Fevereiro de 2009
Alberto Nunes

SANTA CATARINA DO FOGO, HISTORICIDADE
“Estai, pois, vigilantes e recordai-vos de que durante três anos, de noite e de dia, não cessei de exortar (…) cada um de vós”. Actos dos Apóstolos- Cap- 20 V- 31
Documentos históricos rezam que Santa Catarina foi o último espaço a ser povoado na óptica de Freguesia/Concelho na ilha do Fogo. Indicam também que, o micro-clima da regiao, agricultura,
pesca e pecuária foram elementos incentivadores à fixação dos seus primeiros habitantes na Orla marítima da planície das Praias Casinha e Bombardeiro. Entretanto, devido aos ataques de
piratas e, sobretudo, a partir do momento em que os habitantes procuravam regiões mais férteis e aráveis para a prática de agricultura passaram a fixar-se nas arribas de Domingos Lobo e
Maria da Cruz. Todavia, o povoamento de Cova Figueira, segundo os documentos, surgiu na sequência da erupção vulcânica de 1799. Três anos mais tarde, 1802 o Feitor João de Araújo Gomes
pediu de arrendamento a Fazenda real de Cova Figueira com o compromisso de fazer o seu povoamento com 150 famílias vindas da Freguesia de Nossa Senhora de Ajuda, vítimas da referida
erupção. Trata-se de uma região eminentemente rural onde a agricultura, a criação de gado e a pesca prevaleceram durante muitos anos como actividades predominantes. Em termos de
agricultura cultivavam-se milho, feijão, vinha e algodão; no que concerne à criação de animais priorizavam o burro e a cabra a nível da pesca praticavam-se pesca rudimentar. Seus habitantes
viveram, quase que exclusivo, à base dessas actividades pouco rentáveis durante vários anos, o que significa que a população foi habituada ao sacrifício desde seu povoamento.
Durante todo o século XIX e início do século XX surgiram novos povoados na sequência da expansão de zonas agrícolas e pastoricias - Estância Roque e Chã-das-Caldeiras são exemplos das
regiões mais altas e na Orla marítima sugiram novas zonas piscatórias como Tinteira e Monte Vermelho. Em Cova Figueira, seu povoado mais expressivo, emergiu uma elite económica que
cedo se demarcou das demais surgidas nos novos povoados e contribuiu para a criação de uma mentalidade que há muito entrou em declínio e que hoje muitos se aproveitam para criar uma
nova revanche política cujo objectivo é obscuro. Além das elites de Cova Figueira, verificam-se nos povoados mais recentes alguns vestígios dos primeiros moradores que, segundo os dados
recolhidos, eram homens e mulheres que dentro desta esfera geopolítica possuíam grandes prestígios económicos e sociais.
O evoluir do tempo dita novas actividades aos seus moradores, sem, no entanto, deixarem de praticar as já existentes. O pequeno comércio foi-se juntando às outras actividades, a emigração
e, consequentemente, as remessas dos emigrantes deram um novo e grande impulso à vida económica de Santa Catarina. A partir das décadas de 60 e 70 do século XX, Padre Antoninho
(capuchinho Italiano), José Joaquim Fernandes Lopes (Josezinho de Pepa) e José Henrique Veiga (Djédjé de Pedro) em Cova Figueira cederam “crédito” para financiar passagem a muitos
pais/chefes de famílias que, na altura, queriam encontrar novo rumo de vida em Portugal. Hoje, graças a essas iniciativas, muitas famílias de Santa Catarina vivem das remessas de seus
emigrantes radicados naquele país e outras de pensão já adquirida. Também deve ser realçada a emigração para os EUA que, nestas últimas décadas, tem estado a resolver os problemas
económico/financeiros das famílias em Santa Catarina, através das remessas e pensão adquirida.
Entretanto, com a dinâmica da economia de mercado e a fomentação do turismo em Cabo Verde, a aldeia de Chã das Caldeiras, as outras limítrofes e a Vila de Cova Figueira conheceram,
embora poucos, alguns investimentos privados e públicos. Hoje, pode dizer-se, e se bem aproveitados, que a agricultura, pesca, pastoricias, pequenas indústrias, turismo e as remessas dos
emigrantes constituem a base da sobrevivência/vivência, do progresso e desenvolvimento de Santa Catarina.
Os maiores investimentos começaram a ser feitos a partir da década de quarenta do século XX. A partir daí, Santa Catarina passa a dispor de algumas infra estruturas e equipamentos de
saúde, educação, Correios, Telecomunicações, Energia elétrica (1994 em Cova Figueira a tempo parcial) e água, transportes rodoviários e estabelecimentos comerciais, religiosos e alberga
alguns serviços públicos, nomeadamente, Delegação Municipal, Posto Policial, Posto de Saúde, Matadouro Municipal e Delegação do Ministério do Ambiente, Agricultura e Pesca (MAAP).
Cova Figueira, centro histórico da Freguesia, foi elevada à categoria da Vila pelo Decreto-Lei nº 101/97 de 22 de Dezembro. Pouca sorte teve, principalmente por parte dos governantes locais e
central após esse acontecimento histórico.
A luta pela elevação da Freguesia à categoria do Concelho remonta aos anos 90. Entretanto, na aurora desta década as motivações aumentaram. Essa questão foi motivo de discórdia entre
seus habitantes como também de gentes que não faziam parte da Freguesia. Uns defendiam que ela não tinha mínimas condições para ser Concelho, outros defendiam que sua elevação à
categoria de concelho poder-se-ia servir para criar as condições. É de se realçar, também, que muitos santacatarinenses, foguenses e não só, não se preocupavam com tal questão.
Incrivelmente são estes últimos os seus primeiros governantes e assumem hoje hipocritamente como maiores defensores de Santa Catarina e suas gentes. Enquanto homem de história este
facto não é nos estranho, pois, conhecemos tantos casos similares na história da humanidade.
No final de 2004 e início de 2005, o Governo e os grupos com assento parlamentar conceberam, apresentaram, apreciaram e aprovaram o projecto do Concelho de Santa Catarina. Assim, a
Freguesia foi elevada à categoria de Concelho a 09 de Maio de 2005, pela Lei nº 66/ VI, do mesmo ano, publicado no B.O. nº 19, I Série, da República de Cabo Verde. O Concelho é delimitado numa
área de 125,9 Km2 e com uma população de 5.500 habitantes.
Com a elevação da Freguesia ao Concelho, o Governo, através do então Ministro da Administração Interna, nomeou o presidente para presidir a Comissão Instaladora. Cumprindo os preceitos
legais, os dois partidos (PAICV e MPD) nomearam, também, cada um dois vogais para formar a equipa. Ao todo, cinco elementos – um presidente quatro vogais. A 25 de Julho de 2005 a equipa
tomou posse e, ao mesmo tempo, recebeu o Projecto/programa da instalação do município. A Comissão tinha dois anos e dez meses para implementar o Projecto/programa de instalação com
um Orçamento de 386.500.000$00 (Trezentos e oitenta e seis milhões e quinhentos mil escudos) para contemplar o seguinte: Construção de Paços do Concelho (1), construção de Residência
Oficial (1), Construção de blocos de residência para funcionários (1), construção de Unidade Sanitária de Base (2), Construção de Jardins infantis (2), Eletrificação rural, construção de
equipamentos colectivos (desportivos) (2), construção de sistema de abastecimento de água, construção do mercado municipal, aquisições de terrenos, construção de centro de saúde (1),
construção de estrada e caminhos vicinais, construção de blocos de habitação social, instalação do Gabinete Técnico Municipal, elaboração de Plano Director Municipal, elaboração do Plano de
desenvolvimento urbano, elaboração do plano urbanístico detalhado, equipamentos informáticos, mobiliários de escritórios, veículos ligeiros e equipamentos pesados (camião-sistema/recolha
de lixo (2). Também a Comissão Instaladora em parceria com o Governo devia enveredar os esforços para trazer os serviços desconcentrados do Estado para o novel Concelho.
O Governo assumiu a responsabilidade de fazer as transferências das verbas do Orçamento de instalação para a Comissão Instaladora. Para o investimento no Município foram transferidos em
2006 o montante de 85.100.000$00 e 2007 127.407.000$00 e a Operação Esperança transferiu o montante de 2000.000$00 perfazendo num total de 214.507.992$00. Não temos os dados das
transferências efectuadas (se foram) do segundo semestre de 2005 e do primeiro semestre de 2008.
Do Orçamento Geral dos cinco Municípios criados em Maio de 2005 que era de 1.821.500.000$00, Santa Catarina do Fogo ficou com 386.500.000$00, Ribeira Grande Santiago com
353.500.000$00, São Lourenço dos Órgãos com 368.500.000$00, São Salvador do Mundo com 361.500.000$00 e Tarrafal de São Nicolau 351.500.000$00 para a materialização dos programas
de instalação. No caso de Santa Catarina, esse Orçamento e os programas deviam ser implementados a partir de 25 de julho de 2005 (tomada de posse) até 18 de Maio de 2008 – Inicio e fim da
missão da Comissão Instaladora. Como se pode perceber essa Comissão recebeu, de acordo com os dados, algumas verbas do Governo. Na ausência de uma infra estrutura pública adequada
para instalar o serviço da Comissão, a equipa nomeada foi obrigada a arrendar um espaço privado para criar as condições de arranque. Muitos investimentos foram feitos na criação dos
departamentos e aquisição dos mobiliários. Que a verdade seja dita, a equipa ficou muito bem instalada e com condições de trabalhar. Durante a “vida” da Comissão Instaladora a equipa deu
início aos trabalhos de instalação. Houve eletrificação de alguns meios rurais, construções de algumas habitações sociais (questiona-se o critério usado na atribuição dessas habitações aos
necessitados), algumas zonas beneficiaram de rede de água (questiona-se o momento e objectivo da instalação da rede de água no domicílio), alguns instrumentos municipais foram
concebidos, construíram algumas estradas e caminhos vicinais em algumas localidades, construção de um jardim infantil e um outro em andamento, ultimaram e concluíram alguns
polivalentes que se encontravam em construção e em parceria com o governo realizaram algumas obras como foi o caso da Esquadra da Polícia Nacional na vila de Cova figueira; já foram
adquiridos alguns veículos ligeiros, equipamentos pesados (camião-sestema/recolha de lixo) etc. Muitos projectos/programas ficaram apenas no papel. Muitos ainda não arrancaram e outros
estão em andamento após o prazo estabelecido. Isso significa que a Comissão e o próprio Governo não cumpriram o papel de instalação, facto inquestionável. Entendemos que a Câmara saída
de 18 de Maio é que irá implementar os projectos da Comissão. Pois, nenhum serviço desconcentrado do Estado, à excepção do (MAAP) existe no Concelho. Não foram construídos Paços de
Concelho, residências oficiais, Blocos de residências para os funcionários, Unidade Sanitária de Base, Mercado Municipal, Centro de Saúde…; não existe ainda no concelho nenhuma agência
bancária. O Concelho continua ainda a depender do Concelho de origem-São Filipe.
Santa Cataria é, deveras, um Concelho pobre, o mais pobre do país. Segundo os dados do Instituo Nacional de Estatística (INE) este Concelho alberga 59% de pobres. Entretanto, é um concelho
com muitas potencialidades naturais, materiais, humanas... Estas potencialidades existentes do/no e fora do concelho devem ser conhecidas, estudadas, aproveitadas e, sobretudo,
equacionadas para resolver os constrangimentos existentes a favor do Município e dos munícipes para garantir o crescimento, progresso e desenvolvimento harmonioso, justo e sustentável.
Todavia, é necessário combater afincadamente os males que já afectam o município desde o primeiro momento da sua existência e que está à vista de todos. Tudo isso é possível desde que
abdiquemos dos interesses pessoais e partidários e lutemos juntos “Gregos e Troianos” para que haja boa vontade, abertura e, sobretudo humildade para que os interesses de Santa Catarina
sejam colocados como prioridades.
Os governantes locais, os munícipes (não só, militantes, amigos e simpatizantes) precisam sentar-se para diagnosticar, identificar os problemas, estabelecer metodologia, definir prioridades,
estabelecer critérios claros e objectivos que servem ao município e aos munícipes como um todo. Deve haver espaço para debater idéias e projectos com quadros de Santa Catarina residentes
e na diáspora. Basta, mas basta mesmo de confundir os santacatanrinenses de que o concelho não tem quadro! Deve haver diálogo e negociações, vezes necessários, entre os governantes e
os proprietários dos terrenos, principalmente na Vila de Cova Figueira. Pois, analisando a situação da Vila de Cova Figueira hoje, se percebe com clareza que a postura dos governantes locais e
dos proprietários dos terrenos constitui sérios problemas que podem mudar o rumo, adiar ou estagnar o progresso e o desenvolvimento da Vila e do município como todo. Pois, a partir de 1992,
com o municipalismo em Cabo Verde o terreno passa a ser uma questão de difícil consenso. No caso específico de Santa Catarina, os governantes devem assumir uma postura responsável e
credível para transmitir confiança aos proprietários que adquirindo terrenos (comprando-os nos proprietários), a Câmara fará o seu uso para o bem do Município e dos munícipes. Pois, nestes
últimos anos muitas denúncias foram feitas, a nível nacional, de governantes locais que distribuíram/venderam lotes de terrenos do município nas vésperas de campanhas/eleições aos
apoiantes como forma de angariar votos. Por outro lado, os proprietários terão de se mostrar abertos às negociações de terrenos com os poderes locais como forma de desbloquear o
progresso e desenvolvimento. Na vila de Cova Figueira, os proprietários dos prédios em ruínas devem sentar-se à mesa de negociação com a Câmara Municipal ou vice-versa a fim de chegarem
a um consenso para remodelarem os que devem ser remodelados e demolir os que devem ser demolidos para puderem dar lugar à construção de edifícios modernos. Pois, Santa Catarina
acarreta, neste momento, um ónus pesado que comprometerá fortemente o seu futuro. Interesse pessoal, imediato e partidário, intrigas e confusões estão a bloquear seu progresso,
crescimento e desenvolvimento. Trata-se do Concelho mais pobre do país e paradoxalmente paga-se o arrendamento mais caro de Cabo Verde para instalar a Câmara Municipal. Os melhores
salários são das pessoas que não estão e nem vão, certamente, investir aqui. Aproximadamente 1.000.000$00 são destinados a pagar salários às pessoas que nem se quer tomam um sumo
em Santa Catarina. Vive-se aqui, a partir de 2005, um autêntico colonialismo, isto é, os nativos, principalmente os quadros sentem-se estrangeiros em sua casa.
Em Santa Catarina, o poder local e não só tem de mudar urgentemente o conceito de forças vivas e da população. Elas devem ser entendidas não como simples apoiantes de quem está no
poder e que no momento de aprovação de quaisquer documentos importantes para o futuro do município são chamadas para darem um aval positivo às idéias preconcebidas dos governantes,
mas devem ser entendidas como sujeitos pensantes e reflexivos dentro de um quadro teorico-prático, sustentado na imparcialidade das decisões importantes que servem o Município, os
munícipes e o país como um todo.
Ao circular em Santa Catarina ouvem-se queixas provenientes de pessoas que reclamam que no ano transacto havia trabalho, dinheiro e artigos diversos a circularem no Concelho e desde 30
de Maio de 2008 muitos chefes de família não sabem o que é ter um salário, porque simplesmente o trabalho não existe. Os jovens, à excepção de um grupo que se encontra preste a concluir a
formação profissional, estão a perambular no concelho sem saber o que fazer. Foram deixados ao Deus dará. Ouvem-se expressões do tipo: “es homi engananu”, es homi engana tudo
argúem”, “ Hoje tinha discussan na Cambra”, “ninguém sta ta trabadja”, “antes de eleição tinha trabadju pa tudo argúem, gosim Ca tem pa ninguém”. “Du benden Santa Catarina na um
stranho”... Os realmente pobres e sem alternativa sofrem calado, agüentando a dor e fingem que tudo está bem. Triste, mas é realidade. Entretanto, apesar desta realidade estampada à vista
de todos, muitos, dentro e fora do concelho, com muita táctica e manobra pintam-na de colorido e tentam, sobretudo desviar a nossa atenção destes reais e sérios problemas que afectam o
município e os munícipes.
Vila de Cova Figueira, Março de 2009
Alberto Nunes
OBS: Este texto é resumo de um trabalho maior em curso.
BIBLIOGRAFIA/FONTES
Programa de Instalação do Município de Santa Catarina- Elaborado pelo Ministério da Administração Interna, através da Direcção Geral de Administração Local.
BARCELOS, José Christiano de Sena, Subsídios Para História de Cabo Verde e Guiné, Vol II, Parte III, 2ª Edição
Boletim Oficial. Nº 19, I Série, da República de Cabo Verde.
Decreto-Lei Nº 101/97 de 22 de Dezembro
REVISTA, Ilhas Série 02 nº 01 Abril/Maio de 2008
RIBEIRO, Orlando, A Ilha do Fogo e as Suas Erupções, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, LISBOA, 1997
HOMEM DA CULTURA
Sr. VALDEMIRO DIAS
Introdução
Há pessoas que pelo contributo dado à sociedade permanecem eternamente na memória colectiva das sucessivas gerações. Destarte, as figuras ligadas à cultura, mormente tradicional, só
desaparecem fisicamente do nosso meio. Pois, as suas experiências, vivências e práticas da vida transformam-nas em quase imortais. Na ilha do Fogo, a história tem resgistado as práticas
(contribuições) de muitas figuras simples e humildes na produção, preservação e enriquecimento da Cultura Tradicional. Assim, penso não estar a exagerar afirmando que, aqui, não se pode falar
das festas de Romaria sem se falar dos Senhores, Sangolé, Nhonho Corcobada, Alexandre Andrade (TCHITCHITI), Pedro de Amélia e Vlademiro Dias. Os quatro primeiros já não fazem parte
deste mundo. Todavia, pelas suas contribuições, na produção, preservação e enriquecimento da nossa Cultura Tradicional, persistem no nosso meio, através da memória colectiva. O último, o Sr.
Vlademiro Dias (conhecido entre nós como homem da Cultura Tradicional) que ainda labuta e vive entre nós, contínua a nos brilhantar nas Festas de Romaria e com muita ênfase nas de São
Filipe. É sobre Vlademiro Dias e suas contribuições na Cultura Tradicional do Fogo que vou Falar.
Vida
Vlademiro Dias nasceu a 10 de Novembro de 1937, na Cidade de São Filipe, ilha do Fogo; filho de António Dias e de Ana Lopes Dias; casou-se em 1960 com Isabel Souto Barbosa Dias; pai de
sete filhos; avô de dez netos e bisavô de dois bisnetos. Vlademiro revelou-se muito cedo como pai, homem, chefe de família e profissional exemplar
Católico, Vlademiro apaixonou-se, muito cedo, pelo tambor e pelas festas de Romaria. Aliás, aos 14 anos já praticava os toques de tambor.
Nos anos cinquenta, Vlademiro jogava futebol. Foi colega do Sr. Zuca e Tuné de Comazinha; Foi também braçal durante 11 anos (1957-1968) no Porto de Fonte Vila, onde transportou sacos às
costas para carregar e descarregar os barcos que entravam e saíam desse porto.
Em 1970 trabalhou como magarefe na cidade de São Filipe. Abatia os animais como cabra, vaca, porco para a venda na cidade e no interior da ilha.
Com a criação do porto de Vale dos Cavaleiros em 1968, Vlademiro, tendo como chefe Nhô Nelinho de Bia, na qualidade de estivador, passou a trabalhar ali. Foi, tal como muitos outros braçais,
também pescador em pequenas embarcações de boca aberta na orla marítima desde porto de Vale dos Cavaleiros até Baia do Corvo, no Concelho dos Mosteiros.
Em 2006, a morte arrebatou-lhe a esposa Isabel Souto Barbosa Dias, após 46 anos de vivência matrimonial. Hoje, Vlademiro é um homem viúvo. E assim, nos garante que irá morrer.
Vlademiro, Homem da Cultura Tradicional do Fogo
Como homem da Cultura Tradicional ligado às festas de Romaria na ilha, com incidência nas de São Filipe, Vlademiro iniciou a sua carreira como tamboreiro aos 19 anos como aluno e admirador
do tamboreiro mestre - Alexandre Andrade (1906-1984). Hoje, apesar de introduzir novos toques e estilos próprios, Vlademiro continua a praticar os toques criados e desenvolvidos pelo seu
mestre, Tchitchiti, que são conhecidos, genericamente, por “briais” (“brial”, no singular): o “brial” do almoço dos cavaleiros, o “brial” das corridas de perícia, o “brial” das cavalhadas, da tomada de
bandeira etc. Apesar do sucesso conseguido na sua carreira como tamboreiro ele continua a nutrir forte respeito pelo o seu mestre (Tchitchiti). Vlademiro Dias é, hoje em termos de tamboreiro,
fruto de uma vivência intensiva junto de tamboreiros experimentados da ilha como mestre Tchitchiti e Pedro de Amélia, seus antecessores directos.
Com o desenterro da Bandeira de São Filipe pelo Grupo de sete Estrelo em 1917, Alexandre Andrade (NHO TCHITCHITI) passou a ser o chefe principal dos tamboreiros nas festividades de
Romarias em São Filipe. Nho Tchitchiti permaneceu como chefe principal até 27 de Junho de 1984, altura em que faleceu, na noite do canizade de São Pedro. Tendo desfalecido cerca das 9 da
noite enquanto tocava, Tchitchiti foi transportado ao hospital onde faleceu horas depois. Após a morte desse mestre, Pedro de Pina, mais conhecido por Pedro de Amélia passou a ser o novo chefe
dos tamboreiros nas festividades de Romaria em São Filipe até 1996, altura da sua morte. A partir daí, Vlademiro Dias assumiu a chefia principal dos Tamboreiros até a actualidade. Com a
mediatização das Festas, Vlademiro Dias e a Cultura Tradicional do Fogo conheceram uma nova dinâmica. Na qualidade de tamboreiro principal, tem levado as festas das Bandeiras da ilha para
outros cantos do arquipélago nomeadamente, São Vicente, Cidade Velha, Assomada e Praia, como também no estrangeiro, em particular, Holanda e Bélgica em parceria com a Câmara Municipal
de São Filipe e com o grupo PBS, através do Sr. João Rodrigues Pires.
Vlademiro Dias tem enveredado esforços no sentido de fazer com que os jovens de hoje também comecem a aprender a tocar o tambor. Diz-nos sempre: “Minó di Mámá moreu e a gaita ficou
guardada no Fogo, mas quando Vlademiro Dias morrer alguém irá continuar a tocar tambor na ilha do Fogo”. Ele defende que a nossa cultura tem de ser cultivada, tem de ter continuidade.
Como homem da cultura e chefe nº 1 do grupo Estrelas do Fogo tem já, para o próximo mês de julho, um convite do Sr. Markus Leukel, percussionista e investigador dos ritmos de África e do Brasil
(alemão) para efectuar uma digressão à Alemanha e Áustria onde o grupo irá divulgar e promover as festas das Bandeiras ligadas à cultura tradicional do Fogo.
Actualidade
Além de exercer as actividades ligadas à Cultura Tradicional da ilha do Fogo, Vlademiro Dias desempenha a função de contínuo na Escola Secundária Dr. Teixeira de Sousa desde 25 de Fevereiro
de 1995. Trabalhador exemplar que respeita os funcionários e que assim conquista o seu respeito. Reconhecido pelas sucessivas Direcções, professores, alunos, auxiliares administrativos e
colegas como homem assíduo, pontual e cumpridor de horário e de seus deveres. Como contínuo, exige sempre que os professores sejam pontuais e assíduos. Exerce e faz os outros exercerem
suas funções com responsabilidade, honestidade e competência.
Composição do Grupo Estrelas do Fogo 2009
1. Vlademiro Dias (1º Taboreiro Chefe)
2. Roosevelt Lopes Correia (2º Taboreiro Chefe)
3. Nilson Lopes (3º Tamboreiro e Colecheiro)
4. Lici Sequeira (4º Tamboreiro e Colecheiro)
5. João Pedro Rodrigues (5º Tamboreiro e Colecheiro)
Coladores
1. Américo Sequeira (Natanael)
2. Daniel Alves (Nho Sopa)
3. José de Maria (residente em Velho Manuel)
Coladeiras
1. Catarina de Pina Brandão (Idalina)
2. Maria Lopes (Maria Tchuneta)
3. Joaquina Dias (Budjodja)
4. Maria Socorro Teixeira (Domingas)
5. Lucinda Mendes (Mama de Rompe)
6. Manuel Pina Cabral (Mané Bispo)
Vlademiro, que tenha vida longa e muita saúde!
O professor
Alberto Nunes

“Como podia um discurso corajoso influenciar homens cuja mente está predisposta e profundamente imbuída de objectivos contrários”. Thomas More
A autarquia local foi instituída em Cabo Verde em 1992, logo após a mudança do regime monopartidário para o pluripartidário. Nessa data, chegou ao fim o sistema de Delegado de Governo nos
concelhos, sendo que esta estrutura em pouco diferia da que tinha sido implementada desde época colonial ( os regedores e cabos-na altura, era um concelho. Nessas, que foram as primeiras
eleições autárquicas, a ilha teve dois candidatos - João do Rosário (MPD) e Eugénio Miranda Veiga (PAICV). Os resultados eleitorais deram vitória ao Eugénio Veiga. Com vitória alcançada instalou-
se, no Fogo, “o paternalismo político” e, em simultâneo, a “política de assistencialismo”. O “paternalismo político” e “política de assistencialismo” foram formas/estratégias encontradas e
montadas pela equipa no pódio para empobrecer e, sobretudo, dominar politica e economicamente os desempregados. Entretanto, alguns assalariados, proximos dos vencedores, perceberam a
estratégia montada e aproveitaram-se dela para ascender politica, económica e socialmente. A partir de 1992, no Fogo, o presidente da Câmara passou a ser visto, pelos desempregados, como a
única solução dos seus problemas económicos. Estes desempregados foram colocados, propositadamente, em situação de extrema pobreza, por forma a serem dominados e usados em
função do interesse de quem estava e ainda está no poder. Entretanto, os referidos homens assalariados, conscientes desta real situação vivida por esses pobres, lutaram e ainda continuam a
lutar em prol da manutenção de tal poder e “status quo”, em troca de alguns privilégios e/ou mordomias, pondo assim de lado, os princípios, valores morais e éticos que sempre
nortearam/norteiam os homens na sociedade e caindo, deste modo, no individualismo, na satisfação pessoal e no despudor.
Após as primeiras eleições autárquicas, a equipa vencedora passou a identificar, “a pente fino”, seus apoiantes e oponentes, usando pessoas afectas ao partido e ao poder local (um tipo de
PIDE). Esses individuos trabalham afincadamente na identificação das pessoas residentes e de outras que entram na ilha para saberem se apoiam ou se são “contra” a equipa no poder. Feita
esta segregação, comunicam aos homens do poder que passam a praticar em relação aos “contras” a “discriminação negativa”. Os apoiantes passam a ter tratamento e oportunidade
especiais, por quanto, os oponentes são ignorados e, muitas vezes, atropelados seus direitos consagrados na Constituição da República e noutros documentos normativos.
A prática vivida leva-nos a entender que para os pobres, o emprego no seu verdadeiro sentido deixou de existir, pois, esta camada só passa a ter um “trabalho” alguns meses antes das eleições.
Esta estratégia/situação montada pelos homens do poder, coloca esses pobres em situação vulnerável, frágil e dependente de quem está no poder. Os homens do poder ao coloca-los em
situação difícil aparecem sempre às vésperas das eleições como salvadores, com a solução milagrosa para os seus problemas. É por isso que, na altura das campanhas eleitorais, ouve-se
expressões do tipo: “el é pápá; sima el ca tem; ali é el é que ta manda ba um bés; el é insusbstituivel, quenha qui du ta pô na se lugar?…” Como se pode perceber, a situação imposta aos pobres
pelo poder, obriga-os a ver a câmara municipal e o próprio presidente como únicas entidades empregadoras e de apoio. Sem surpresa, pois pertencem á mesma escola ideológica, as outras
câmaras, criadas 1992 (Mosteiros) e 2005 (Santa Catarina), tem seguido a mesma cartilha da câmara- mãe.
Observando o comportamento de cidadãos de outras ilhas ou de outros países, percebe-se, com clareza, que as pessoas labutam para criar o auto-emprego libertando-se das teias partidárias e
do poder local. Presencia-se homens e mulheres a trabalhar, incansavelmente, em diversos sectores da sociedade para garantir o auto-sustento com dignidade. Esta luta para conseguir o
emprego e auto-emprego contribui para que essas pessoas sejam livres e independentes das teias politico-partidárias. Entretanto, no Fogo, ao amanhecer é possível encontrar, nas portas das
câmaras municipais, dezenas de pessoas carenciadas à espera de apoio, esquecendo-se, quer o povo quer o poder local, que sem o trabalho de todos nós, cada um na sua área, não podemos
crescer e tão-pouco desenvolver. Há que combater afincadamente e com muita urgência esta atitude de empobrecer o povo e de torná-lo dependente, pedinte e ocioso, pois com este tipo de
comportamento e mentalidade, o discurso é vazio e, visa, sobretudo, manipular consciência dos inocentes e dos incautos/interesseiros.
No Fogo é preciso a união dos diversos sectores, dos partidos e, sobretudo da sociedade civil para dizer um basta ao “paternalismo político” e à “política de assistencialismo”, pois esta prática
tem contribuido fortemente para a manipulação/coacção e compra de consciência de muitos pobres e de muitos outros que se aproveitam desta situação/estratégia implantada no Fogo após a
mudança política.
Houve, sem dúvida, uma mudança política, a partir de 1991, mas no Fogo, a lógica e a prática continuam sendo, as do partido único. A ilha ganharia muito, independentemente do partido A, B ou C,
se houvesse sempre concertação e diálogo entre os homens no poder e a sociedade civil (não nos referimos ás reuniões de militantes, amigos e simpatizantes do partido e do grupo no poder,
como tem sido pratica).
Reconhecemos, com apreço, as obras estruturantes em curso, as primeiras pedras lançadas e outras que irão ser lançadas em breve; entendemos que contribuem significativamente para a
modernização e, sobretudo transformação das infraestruturas na ilha; entretanto, voltamos a sublinhar que essa modernização e transformação devem atingir a mentalidade dos governantes
locais, dos partidos políticos e da própria sociedade civil para que o cidadão foguense possa viver livremente e em pé de igualdade como os demais cabo-verdianos.
Cidade de São Filipe, Junho de 2009
Alberto Nunes
Apresentação do Livro “ Ganância & Poder e Cidadania “ (de costas voltadas) da autoria de Adriano Gonçalves Rodrigues Pires
Data: - Sexta-feira 18 de Setembro de 2009
Local: – Casa das Bandeiras – Cidade São Filipe – Fogo
Apresentador - Alberto Nunes
Esboço de Apresentação
Boa tarde
Sr. Adriano Rodrigues Pires
Chefes dos serviços desconcentrados do Estado
Ilustres convidados
Antes de falar sobre o livro, permitam-me, em primeiro lugar, agradecer o Sr. Adriano Gonçalves Rodrigues Pires, pelo privilégio que me concedeu para estar aqui na qualidade de apresentador
desta que considero ousada, magnífica e singela obra.
Na minha modésta opinião, o presente livro constitui uma obra-prima e uma fonte histórica que doravante pode ser usada pelos historiadores e outros estudiosos para melhor compreensão dos
aspectos sócio-politico-militares cabo-verdianos. A meu ver, constitui ainda, um desafio aliciante aos cabo-verdianos não contagiados pelo conformismo e que se querem demarcar dos discursos
oficiais, tradicionais, rígidos e dogmáticos. Em Cabo Verde, fomos habituados a um discurso oficial, tradicional, rígido e dogmático. Este tipo de discurso induz-nos a acreditar que não há outro
diferente, na medida em que, são poucos os cabo-verdianos que têm acesso à televisão ou outros meios de comunicação social para apresentarem seus estudos, seus trabalhos académicos ou
ideias sobre quaisquer aspectos da nossa sociedade. Normalmente, a televisão e outros meios de comunicação social são diariamente invadidos com discursos propagandísticos dos membros do
governo, presidentes e vereadores das Câmaras Municipais, chefes de instituições e organizações, sobretudo públicas. Efectivamente, neste tipo de discurso tudo é rosa sem espinho, tudo foi
cumprido com rigor a 100%, nada ficou por fazer, o balanço é sempre positivo. Habitualmente, aparecem indivíduos ligados a este tipo de cidadão e de discurso para bater palmas e aplaudir,
independentemente do conteúdo ou da credibilidade do discurso. Fomos habituados a discursos de líderes partidários, de chefes do Governo, de membros do Governo, de chefes das instituições
públicas e de certas organizações. Discurso, muitas vezes parcial, desarticulado da realidade, discurso produzido, na maioria das vezes para ludibriar mentes desprevenidas.
Todavia, para os que ainda não tiveram oportunidade de ler este livro devo dizer-lhes que não vão encontrar este tipo de discurso, pois, Adriano Rodrigues Pires de forma corajosa, descomplexada,
inteligente e “sem papas na lingua” fez um levantamento de factos ocorridos no nosso dia-a-dia em Cabo Verde, em diversos sectores e em algumas organizações como, por exemplo, nas Forças
Armadas, nos partidos políticos e no Governo; com análise desapaixonada (ferisse a quem ferisse) publica-o com recursos próprios a fim de proporcionar aos cabo-verdianos dados e factos
substanciais de modo a que possam reflectir sobre uma realidade bem diferente da produzida e reproduzida pelos líderes partidários, membros do Governo e chefes dos serviços. Todo este
esforço e trabalho empreendido visa, no meu entender, ajudar os cabo-verdianos a tomar consciência da verdadeira realidade e, ao mesmo tempo, agir em conformidade, no sentido de, provocar
mudança no status quo da nossa sociedade.
Com estilo académico, sobretudo intelectual, Adriano Rodrigues Pires apoiou-se em dados e factos observados, como também em consultas documentais credíveis para, em seguida, reconhecer
os avanços e ganhos conseguidos por Cabo Verde durante os 34 anos da independência. Reconhece, ainda, através do mesmo procedimento, as fragilidades e pontos fracos de Cabo Verde.
Procurou, no entanto, identificar as causas dessas fragilidades e, ao mesmo tempo, propor as possíveis soluções como forma de solucionar estas fragilidades e aspectos menos bons. Um
posicionamento que, a meu ver, é louvável, na medida em que o autor trabalha com dados objectivos, sobre factos que ele conhece muito bem. Penso que com esta atitude, Adriano Pires está a
cumprir o seu direito e dever como cidadão. Pois, segundo ele a maior crise que afecta Cabo Verde reside na crise da cidadania. O homem, segundo ele, foi relegado para o segundo plano no
sistema político cabo-verdiano. O egoísmo, interesse pessoal, oportunismo, ganância no poder e no bem-estar promovidos pelos homens do poder secundarizaram o homem em Cabo Verde.
Adriano Rodrigues Pires teve uma postura ousada, singular, nesta singela e magnifica obra ao abordar assuntos pertinentes e diversificados e que, muitas vezes, são considerados intocáveis, pois
na óptica de muitos, estes assuntos constituem “tabus” na sociedade cabo-verdiana. Abordou factos importantes que estão intimamente relacionados com o progresso e/ou atraso de Cabo Verde,
dependendo da perspectiva de analise. Daí que prognostico, através da experiência vivida, que para os acríticos, conformados e oportunistas, certamente, Adriano Pires será interpretado como um
pessimista, um frustrado, um cidadão que gostaria de chegar o topo das Forças Armadas, que no entanto, por motivos A ou B não conseguiu. Assim sendo, resolveu através deste livro manifestar
ou publicitar a sua frustração. Contudo, sabemos que em CaboVerde, cidadão do tipo de Adriano só é bem visto após a morte, a partir do momento que já não pode incomoda alguém. Aliás, Amílcar
Cabral, hoje venerado por tudo e por todos foi considerado terrorista na época da luta de libertação nacional. Por esta razão, pessoas do tipo de Adriano Pires não são bem vistas numa sociedade
do tipo cabo-verdiano onde o conformismo contagiou o homem quase na sua totalidade.
Da leitura deste livro depreende-se que Adriano constitui alvo a abater, pois incómoda e, sobretudo, põe em causa interesses pessoais e egoístas de alguns dirigentes desta terra. Mas, afinal, pode-
se falar em genuíno intelectual que não incomoda os corruptos, os violadores da lei, os que fazem das coisas públicas suas propriedades? Pode-se falar em genuíno intelectual, se este não se
disponibiliza para combater as injustiças e os males que afectam a sociedade? Pode-se falar em genuíno intelectual que não faça balançar o sistema montado sobre a égide da desigualdade,
perseguição, injúria, calunia e difamação? Por outro lado, prognostico, também, que para os críticos e inconformados com injustiça, perseguições, proteccionismo, calunia, difamação…
certamente, Adriano Pires será interpretado como um cidadão que exerce a sua cidadania com veemência e sem hipocrisia, como intelectual descomplexado que mesmo estando na periferia do
poder e da chefia contribui de forma crítica, altruísta e construtiva a bem de Cabo Verde e do seu povo.
Ao ler este livro, fui obrigado ou, se calhar, induzido várias vezes a parar, pensar e reflectir um pouco sobre o seu conteúdo e, ao mesmo tempo, estabelecer comparações com aquilo que vejo e vivo
todos os dias em Cabo Verde. Depois de pensar e reflectir sobre o seu conteúdo recuei ao passado para chegar à filosofia platónica sobre o mundo sensível e o mundo inteligível: concluí que o
mundo sensível de Platão aplica-se muito bem aos discursos feitos diariamente em Cabo Verde pelos políticos, líderes partidários e governantes, pois segundo Platão o mundo sensível é o mundo
das sobras, das inverdades, das irrealidades, das coisas falsas. Enquanto que, o mundo inteligível ligado à verdadeira realidade, ao objecto concreto, à imagem real se coaduna com o discurso feito
nesta obra por Adriano Pires.
Como se pode perceber não tive e nem tenho pretensão de analisar, resumir ou fazer resenha deste livro para os leitores; deixo tudo isso ao livre arbítrio dos leitores para que cada um segundo a
sua faculdade tirar as suas ilações e ver de que modo o mesmo pode ser útil para si e para Cabo Verde.
Entretanto, ao ler cuidadosamente este livro, pude perceber que se trata de um trabalho muito bem elaborado, fruto de uma observação e vivência crítica de um cidadão que quer dar seu contributo
à sociedade onde vive sem, por isso, esperar louros ou qualquer outra coisa em troca, como, infelizmente, tem sido prática em Cabo Verde.
O Livro, Ganância & Poder e Cidadania (de costas voltadas) espelha uma ousadia e uma ciragem tremenda face aos factos ocorridos no nosso país que muitos entendem e sabem, mas que,
entretanto, fingem não entender, fingem não saber para não se pronunciar, por causa de medo ou conveniência.
Adriano Pires soube muito bem escolher o título desta magnífica obra. Soube, ainda, de forma muito inteligente, fazer corresponder todo o conteúdo do livro com o título. Mérito muito pouco
conseguido hoje, pois vivemos num mundo com muitas produções intelectuais onde, muitas vezes, os títulos atribuídos ao trabalho têm pouco a ver com o conteúdo, mas não é o caso de Adriano
Pires. Por todo esse esforço intelectual, pela coragem, ousadia, modéstia, hombridade, aceite Sr. Adriano os meus parabéns e faço votos que nunca se deixe ser corrompido ou contagiado pelos
gananciosos e poderosos desta nossa terra que precisam de cidadãos da sua estirpe.
Este precioso livro deve ter um espaço especial na nossa Bibliotecal, pois, aborda questões pertinentes que despertam em cada um do seu leitor novos horizontes e novos caminhos para
abandonar o egoísmo, a perseguição, a injúria a calunia, a difamação a promoção da mediocridade, a deixar de fazer o outro tapete, a deixar de atingir o direito do outro, a evitar atingir fim
independentemente do meio. Por outro lado, convida-nos ao altruísmo, a escolher o caminho certo, a respeitar a inteligência do outro, a promover o mérito e a competência, a não ter medo da
verdade, a enfrentar a realidade de frente, a incomodar os gananciosos e poderosos, a ser cada vez mais cidadão, a colocar o homem no seu devido lugar, a eleger o homem como ser importante
na nossa sociedade, enfim a ver no homem um ser de direito e dever e que merece o seu devido respeito.
O livro e o seu autor merecem ser destacados no nosso meio pela imparcialidade, pois vivemos numa sociedade onde dificilmente o indivíduo consegue frear a si próprio ou a instituição onde ele
está inserido. Adriano Pires adoptou uma postura invejável, coerente durante toda a sua analise, pois, abordou temas de cariz nacionail e internacional sem, no entrando, deixar de reconhecer os
ganhos alcançados por Cabo Verde em todos os domínios, como também os aspectos fracos, propondo, ao mesmo tempo, caminhos a seguir. Postura de um cidadão digno e que merece respeito.
Adriano Pires, tenha coragem e sapiência e que seja sempre iluminado nos seus caminhos e que este livro seja mais um entre vários outros que poderá produzir nos próximos tempos. Conte
comigo, mesmo à distância na dignificação, humanização e consciencialização do homem cabo-verdiano e na construção de uma cidadania responsável embora saibamos que é uma tarefa difícil e
nunca impossível. Que continue a desempenhar a sua função de cidadão! Ânimo!
Muito Obrigado a todos e uma boa leitura.
Alberto Nunes

Educação e Cidadania – Uma Reflexão Necessária
“Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única
prática e o professor profissional não é o seu único praticante”. Carlos Rodrigues Brandão
A verdadeira educação é, sem dúvida, aquela que constiui a chave mais importante do crescimento, desenvolvimento e progresso de qualquer sociedade. Todavia, para que
ela atinja este objectivo terá de ser liderada/conduzida por recursos humanos preparados e capacitados em termos científico, técnico, pedagógico e humano.
Tendo como dados adquiridos que ninguém se escapa da educação, na medida em que ela é praticada na família, na sociedade, na rua, nas escolas etc. deve-se primar para
que ela seja de qualidade para poder constituir um factor de crescimento, progresso e desenvolvimento. Na sequência desta premícia conclui-se que o educador é um
cidadão de excelência e constitui, por sua vez, um elemento imprescindível na organização harmónica e saudável de qualquer sociedade. Mas, o educador que constitui
elemento imprescindível para o progresso, crescimento e desenvolvimento da sociedade é o preparado, capacitado científico, pedagógico e humano e que está
comprometido com os desafios da sociedade; é o que tem a consciência da cidadania activa e que aje em função do interesse comum. Tomando estes dois preceitos (
verdadeira educação e educador) como baluarte de crescimento, desenvolvimento e progresso de qualquer sociedade, pensamos que, tudo se deve primar pelo realismo,
pelo concreto, objectivo e prático. Entretanto, sabemos que na nossa sociedade os que primam pela realidade, objectividade e práxe são apelidados de teóricos. Pois, assim
pensam muitos que já se convenceram que a teoria nunca poderá corresponder a prática, que a lei não foi feita para cumprir, mas sim, para estar no papel, que a verdadeira
realidade e objectividade não existem… Aliás, muitos já se conformaram com o possível, o facil, o de lucro fácil. Todavia, a verdadeira educação e o verdadeiro educador não
podem/devem compactuar com esses devaneios que caracterizam a sociedade actual. Pois, a educação é um sector de excelência e o educador é, também, um cidadão de
excelência. A educação e o educador são incompatíveis com tudo aquilo que deixa transparecer mediocridade.
Nesta linha de reflexão devemos dizer e, sobretudo alertar que no sector da educação a escolha para a composição dos orgãos centrais deve recair sobre cidadãos com
competência e mérito comprovados na área e nunca, nunca mesmo sobre indivíduos que espelhem confiança ideologica de quem está no poder. Tendo os orgãos centrais
compostos na base de mérito e competência comprovados na area, estes devem primar pelo rigor prático e redobrar a atenção às mudanças e transformações efectuadas
nas estruturas de bases no sentido de evitarem o descompasso entre o centro e as bases da educação espalhadas nos diversos centros do país. As competências
educativas já estão definidas. Aliás, estão bem claras: quais as competências dos orgãos centrais e quais as dos diversos subsectores espalhados pelo territorio nacional.
No entanto, vê-se interferência de certas instituições em competências educativas reservadas aos orgãos centrais. Neste momento, percebe-se com nitidez a tentativa de
muito poder local transcender o âmbito da sua competência, tomando decisões no sector da educação de acordo com interesses meramente confusos. Muitas decisões
que devem ser tomadas pelos órgãos competentes credenciados para tal são tomadas pelo poder local não em função das necessidades locais. É perigoso quando na
educação as decisões são influenciadas por interesses omissos! Quando assim é, o professor/educador, a sociedade civil, as famílias, as outras instituições públicas e
privadas têm um papel importante na fiscalização de todo o processo que prima para a qualidade da educação no país. Afinal, a fiscalização do processo de crescimento,
desenvolvimento e progresso da sociedade constitui um dever inalienável de todo e qualquer cidadão independentemente de estar ou não inserido nesta ou naquela
instituição ideologica. O cidadão deve adoptar uma postura crítica em relação a tudo que não é justo, que não é transparente, que não abona a sociedade; a tudo que visa
resolver capricho de indivíduos gananciosos que nunca tiveram iniciativa de se prepararem para assumir determinada responsabilidade. O sector da educação não deve ser
visto como lugar de “ganha pão” ou de promoção pessoal e nem o educador/professor deve procurar o professorado como profissão. Educador/professor é vocação. Pois,
quando assim é entendido e praticado, há sempre trabalho e trabalho eficaz, há responsabilidade, há competência e não há mediocridade. Muitas vezes, em conversas
informais com colegas já dissemos, em função da postura de certas instituições que já começamos a perder confiança em algumas instituições e que no entanto, temos
forte fé e convicção na igreja e Universidade, instituições que por essência devem ser imparciais e justas. Pois, no dia em que estas duas instituições entrarem na
corrupção e mediocridade devemos, também, como cidadão desistir da crítica e de lutar, pois será o fim de tudo – (caos.)
A história da educação mostra-nos que no passado, alguns países, como, por exemplo, o Japão, adoptaram a educação como estratégia de desenvolvimento e foi um
sucesso. Na verdade, Japão é, hoje, um país bem sucedido económico e tecnicamente. Promoveu, desde final do século XIX, uma educação baseada no mérito e na
competência, capacitando seus recursos humanos internos e, ao mesmo tempo, pô-los ao serviço do crescimento, progresso e desenvolvimento do país. Convêm realçar
que Japão só conseguiu tal sucesso devido ao uso racional dos recursos naturais que eram escassos e dos recursos humanos internos bem preparados. Só assim, a
educação pode, como frisamos no início, promover crescimento, desenvolvimento e progresso. Mas, a educação que promove crescimento, progresso e desenvolvimento é
a verdadeira e sofisticada; inovadora, inventora, ousada, criativa … conduzida por recursos humanos preparados em termos cintificos, tecnicos, pedagógicos e humanos.
Relativamente ao nosso país, apesar de laicização da educação, ela não surtiu os efeitos esperados porque, nestes últimos anos, tudo fica bipolarizado, tudo funciona em
função de interesse ideológico de quem tem mais poder e, assim, o cidadão não preparado que quer algo que o leve ao destaque aproxima-se ao poder, pondo de lado
princípios que norteiam o equilíbrio social e consegue ser destacado independentemente de requisitos, resolvendo, deste modo, seu capricho e passa, por faltas de
requisitos necessários, a atropelar o crescimento, progresso e o desenvolvimento do país. Os orgãos competentes do sector da educação, cidadãos, as instituições
públicas e privadas, as famílias etc. devem assumir uma nova atitude em relação à educação tornando-a um factor chave de progresso, crescimento e desenvovimento da
sociedade. Devem ainda, orientá-la no sentido de incomptabilizá-la com tudo que é mediocre, estupido e violento. Ela é cautelosa, humilde e dialógica. Por conseguinte, o
educador/professor não deve agir em função da violência, estupidez ou insensatez.
Na educação não deve haver espaço para impor seja lá o que for. Nela tudo deve ser decidido a base do diálogo. Nela, a responsabilidade deve ser assumida pelo cidadão de
forma democratica. Esta responsabilidade não pode ser de confiança partidária. Pois, a educação é, por essência, um espaço de mérito e compentência. Nela, o mérito e a
competência devem sobrepor toda e qualquer tipo de confiança e subterfúgio dos gananciosos. Ninguém, deve assumir responsabilidade na educação na base de troca de
favores ou de intimidação com uso de violência. A verdadeira educação e o verdadeiro cidadão educador devem ser sensatos .
Por estas razões e a bem de uma sociedade sádia, harmónica, desenvolvida, progressiva e justa, defendemos que na Educação as decisões devem ser ponderadas,
estudadas antes de serem tomadas pelas entidades competentes, pois, uma escolha, uma decisão errada, pode afectar grandemente uma geração e quiçá comprometer o
futuro de uma sociedade. A não ser que almejamos uma sociedade perversa à aquela que publicamente manifestamos.
Cidade de São Filipe, Novembro de 2009
Alberto Nunes
Feb 5, 2010
Cabo Verde – Partidos Políticos, Sociedade Civil e Dignidade Humana
A pobreza oprime milhares de pessoas no mundo “ Bento XVI
O homem é, por natureza, um ser livre. Em Cabo Verde, não obstante, ele precisa empenhar-se para enfrentar e ultrapassar a pobreza, a ganância e o desconhecimento, pois estes três
males têm estado a condicionar fortemente a liberdade humana. Deste modo, ele precisa conquistar a sua independência económica, imbuir-se de valores éticos e morais e, ainda,
conhecer as normas que regulam a vida na sociedade, de forma a evitar a lesão á sua liberdade, direitos e garantias. A independência económica, a aquisição dos valores, o
conhecimento (saber) e o cultivo dessas normas são condições sine qua non para que ele possa desfrutar da verdadeira liberdade. Como é sabido, nesta sociedade nem todos têm
autonomia financeira, cultivam valores e possuem conhecimento dos seus direitos, liberdades e garantias. Por causa da pobreza, ganância e desconhecimento, muitos não usufruem da
liberdade. Em síntese, pode concluir que estes três males constituem, por um lado, impedimentos para muitos cidadãos viverem na verdadeira liberdade e, por outro lado, constituem
meios para muitos conseguirem ser e ter alguma coisa.
A liberdade é, aqui, entendida como um valor inerente e, sobretudo, inalienável ao homem. Trata-se da combinação e interacção entre as normas jurídicas, morais, éticas, sociais e
religiosas e destas com a consciência sã do próproio. A consciência sã significa que o homem está em condições cognitivas de distinguir o bem, o bem comum e o mal. Tendo
conhecimento da sua liberdade, o homem deve nortear e viver a vida em função de interesses comuns superiores e deve distanciar-se de tudo que privilegie o egoísmo ou interesse
mesquinho do “grupinho”. Assim procedendo, de certeza, fará corresponder liberdade com as demais regras que norteiam a sociedade. Liberdade, normas que regulam a vivência na
sociedade e consciência sã constituem, por um lado, pedra basilar de um Estado de Direito Democrático e, por outro, a condição necessária para uma vivência sadia entre os homens.
Entendemos que a liberdade, moral e ética têm em comum, entre outros pilares, a transparência. Nelas não deve haver espaços para obscurantismo. Assim, num país, como nosso, onde
constitucionalmente é consagrado o Estado de Direito Democrático, o governo, os partidos políticos, a sociedade civil, as instituições públicas e privadas devem trabalhar
incansavelmente na edificação e manutenção de um Estado liberal, democrático, ético e moral. Os ingredientes, característicos de um Estado de Direito democrático, devem ser vividos e
saboreados pelos cidadãos. Vividos e saboreados na prática e não ditos através de discursos líricos e poéticos como tem sido prática neste país.
É muito perceptível em Cabo Verde que os partidos políticos e a sociedade civil estão aquém das vivencias, das práticas, dos valores e normas que regulam ou, pelo menos, devem
regular, a sociedade. Entendemos que, os partidos políticos devem assumir uma postura clara e objectiva que visa, exclusivamente, resolver os reais problemas do país e dos cabo-
verdianos. É necessário e, sobretudo, urgente para o bem do país que os partidos políticos façam coincidir os objectivos e estratégias anunciados nos meios de comunicação social com
os objectivos e estratégias traçados no seio do partido evitando, o quanto possível, a manipulação da consciência daqueles que não tiveram sorte e oportunidade de cultivar o seu
intelecto ou daqueles que uma determinada circunstância da vida (pobreza, por exemplo) os obriga a concordar e, sobretudo praticar algo que os inquietará pelo resto da vida. Em Cabo
Verde, muitos vêem o poder como meio e não como fim. Meio para muitos serem e terem algo. Algo que fora do quadro partidário seria quase impossível. Nesta tentativa de ser e de ter
algo, dentro do quadro partidário, muitos acabam colocando de lado os valores supramencionados, a Constituição da República e as normas que regulam o Estado de Direito Democrático.
Quantas famílias já foram destruídas porque o partido ou candidato teria de chegar ou manter-se no poder? Quantas famílias estão de relações cortadas porque o partido ou candidato
teria de manter-se ou chegar ao poder? Quantas boas amizades já foram destruídas porque partido ou candidato teria de manter-se ou chegar ao poder? Quantos crimes comprovados já
foram cometidos porque o partido ou candidato teria de manter-se ou chegar ao poder…? Preocupante é que os partidos ou candidatos beneficiados com estas práticas não têm o peso
na consciência, pelo menos não o demonstram, que estão no poder devido à destruição ou tentativa de destruição de muitas famílias, de uma boa relação de amizade, de um bom nome e,
consequentemente, dos valores e principios já mencionados… É muito perceptível que muitos não se incomodam com práticas erradas para chegar, manter-se ou pôr o
partido/candidato no poder. Aliás, percebe-se aqui que a desonestidade, falta de carácter, imoralidade, indignidade, crime… passam a ser vistos, dentro do quadro partidário, como
coisas normais. Por isso, vê-se muitos cidadãos que cultivam valores a afastar-se dos partidos políticos e, por outro lado, vê-se muitos que não foram educados dentro de um quadro de
valores a aproximarem-se dos partidos políticos para conseguir ser e ter. Em síntese, os partidos políticos devem adoptar uma postura mais séria, responsável e, sobretudo uma atitude
que coadune com o Estado de Direito Democrático consagrado na Lei Máxima do país.
É muito perceptível que Cabo Verde não possui, ainda, uma sociedade civil organizada, forte e consciente dos seus direitos e deveres. Temos ainda, “grosso modo”, uma sociedade que
funciona a reboque dos partidos políticos e estes, por sua vez, aproveitam-se, como estratégia de silenciar os cidadãos, esta fragilidade para camuflar os críticos/activos no partido A ou
B consoante o posicionamento individual de cada um.
Os cidadãos conscientes devem estar atentos às estratégias e atitudes dos partidos políticos. Devem ter a capacidade e prudência necessárias para congratular-se com tudo que é bom
e que beneficie Cabo Verde e os cabo-verdianos, mas também, devem ter a mesma postura para repudiar tudo aquilo cujo fim devia ser de todos mas que é usado para o interesse
meramente pessoal ou partidário.
A sociedade civil cabo-verdiana precisa organizar-se, não em função dos partidos políticos, mas em torno dos reais problemas que afectam Cabo Verde e os cabo-verdianos e, ao mesmo
tempo, ser parte da solução desses problemas. É imperiosa a necessidade da criação e cultivo, em Cabo Verde, de uma consciência fora do âmbito partidário que possa contribuir para
contrabalançar o sistema pernicioso, bipartidário, já montado. Esta sociedade tem de ser forte, competente e, sobretudo altruísta. Deve primar não para resolver a ganância de quem
quer se eternizar no poder ou de quem quer chegar lá a todo custo. Ela deve ser prudente, inteligente, interessada para o bem comum e desinteressada em relação a tudo que vise
resolver caprichos pessoais e partidários.
Entendemos, entretanto, que não será fácil ter uma sociedade civil organizada, competente, altruísta e conhecedora dos seus direitos e deveres; uma sociedade civil em que os cidadãos
têm uma certa independência económica, conhecimento sistematizado e dispostos a servir Cabo Verde e os cabo-verdianos dentro de um quadro legal e imbuído dos valores já
mencionados; uma sociedade que prima para labutar no intuito de resolver os reais problemas que afectam o país. Acreditamos, no entanto, que se cada cidadão individualmente, as
famílias, as instituições públicas e privadas, as igrejas, as universidades… começarem a trabalhar seriamente cumprindo escrupulosamente as suas funções, tê-la-emos, de certeza.
Dizia que não será fácil porque, como é sabido, vivemos numa sociedade onde impera o imediatismo, o lucro fácil, o enriquecimento rápido, o oportunismo, o parasitismo; onde tudo é
quase visto como meio e não como fim; onde muitos querem ter sem trabalhar; onde muitos querem ser sem se prepararem; onde quase tudo que é errado é visto como certo.
Impera, deste modo, a necessidade do surgimento de cidadãos conscientes, corajosos e determinados a frearem ganância de alguns homens e lutar incansavelmente a favor da
dignificação humana. É claro que, estes cidadãos defendidos aqui têm de ter em mente que não se trata de uma tarefa fácil, mas, entretanto, possível, mas para tal devem peregrinar um
caminho espinhoso. O pensador brasileiro Milton Santos que experimentou e venceu esta caminhada afirmou que “ um homem que pensa, e que por isso mesmo frequentemente se
encontra isolado no seu pensar, deve saber que os chamados obstáculos e derrotas são a única rota para as possíveis vitórias, porque as ideias, quando genuínas, unicamente triunfam
após um caminho espinhoso”. Entendemos que, o cidadão cabo-verdiano precisa interiorizar e praticar essa experiência desse pensador a bem de um Cabo Verde de todos e para todos.
Caminhamos para o ano das eleições em Cabo Verde: que vença o candidato/partido que a maioria escolher num quadro da verdadeira democracia e não o imposto à maioria pela fraude
ou pela manipulação e compra de consciência! Motivados pelo futuro, estamos aqui.
Cidade de São Filipe, Janeiro de 2010
Alberto Nunes