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sempre. O objéctivo é informar ou criticar sem contudo esquecer os parámetros do civismo.
COLUNISTAS
                            Cabo Verde – Intrigas e Confusões Sobre Figuras e Aspectos Nobres

“A maior necessidade do mundo é a de homens – homens que não se comprem nem se vendam; (…) homens que não temam chamar
pecado pelo seu nome exato; (…) homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo”. Ellen G. White

Após a independência, Cabo Verde passa a comemorar de, entre outras datas, Cinco de Julho, Treze e Vinte de Janeiro. Cinco de Julho é
o dia da independência nacional, Treze de janeiro o da liberdade e da democracia e vinte o da morte de Cabral e dos heróis nacionais.
Essas datas passaram a ser históricas e, infelizmente, partidarizadas. Cinco de julho e Vinte de janeiro são datas, eminentemente,
ligadas à figura de Cabral e, sendo assim, em Cabo Verde são, infelizmente, vistas como do PAICV quando, na verdade, deviam ser
encaradas como de todos os cabo-verdianos. Treze de janeiro, Dia da Liberdade e da Democracia, marca, também, a realização das
primeiras eleições pluripartidárias que deram vitória ao MPD. É, também, visto, infelizmente, como data do MPD. Acompanhando as suas
comemorações nestes últimos anos, pensamos que ainda iremos conviver com intriga e confusão por alguns anos por culpa dos dois
partidos (situação e oposição) e também da sociedade civil que ainda não assume e tampouco desempenha o papel que lhe cabe.

Cinco de Julho e Vinte de Janeiro têm como maior referência Cabral. Um intelectual de renome no mundo e na África em particular;
promotor incansável da luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde; político, intelectual e idealizador de toda a luta da
independência nacional; combatente, não de gabinete, pois, esteve na linha de frente junto dos compatriotas; com arma na mão, pondo a
sua vida em risco por uma causa não pessoal/partidária, mas sim, justa e colectiva; co-fundador do PAIGC/CV; elaborou um programa
dentro do partido para salvaguardar os soberanos interesses da Guiné e Cabo Verde. E, por causa das independências desses países
perdeu a sua primeira conquista como homem – a vida. Obrigado Cabral por não ter poupado o que lhe era de mais importante a favor de
uma causa nobre. Considerado, por muitos, como maior intelectual africano, foi um homem altruísta, batalhador, determinante, com
idéias claras e objectivas sobre o futuro da Guiné e de Cabo Verde.

Assumiu uma postura clara e determinante contra o regime colonial e, sobretudo, contra o sistema instaurado por António de Oliveira
Salazar a partir da década de 30 do século XX. Nessa época, Portugal fazia passar em Cabo Verde, assim como, em outras latitudes que
o sistema colonial era o melhor. Salazar, através dos seus discursos, tentava convencer as pessoas que era um homem de bem. Dizia
que o negro não apresentava condições para autogovernar e que, não cedendo independência estaria a nos fazer um grande favor.
Neste contexto conturbado, confuso e, sobretudo, perigoso, Salazar legitimava o colonialismo e o seu sistema através de discurso
retórico e demagógico. É também, neste contexto que surgiu Cabral contrapondo todo o sistema colonial e o regime salazarista aliando-
se aos compatriotas da Guiné e Cabo Verde numa luta contra qualquer tipo de dominação, da injustiça… Cabral era um homem altruísta
e com visão do futuro. Pensava sempre nas crianças e no futuro delas. Por isso, arriscou e perdeu a vida por causa justa – a da
libertação da Guiné e Cabo Verde. Aliás, lutou não só para tornar esses territórios livres da metrópole, como também, visava, sobretudo,
a libertação desses povos de Portugal. Cinco de Julho marca, apenas, o fim do colonialismo português e o início da liberdade da pátria
cabo-verdiana. O fim do colonialismo português e o início da liberdade da pátria custaram a vida de Cabral e de muitos heróis nacionais.
Esse homem que perdeu a vida, deixando sua esposa viúva ainda cedo, deixando, também, filhos por criar, foi considerado por muitos
nessa época, de terrorista. As idéias de Cabral punham, evidentemente, em causa o conforto e a mordomia de muitos homens e por
esses e outros motivos era altamente odiado, criticado, vilipendiado, perseguido… pelos defensores do sistema. Hoje, hipocritamente,
muitos que se militam no partido fundado por Cabral falam desse génio intelectual, altruísta e defensor dos direitos humanos. Falam de
um homem que combateu a injustiça, que lutou contra qualquer tipo de discriminação, que lutou para pôr fim à exploração do homem
pelo homem etc. Mas esses falsos seguidores de Cabral combatem, sistematicamente, todos aqueles que hoje se identificam
realmente com Cabral.

Treze de Janeiro é, sem sombra para dúvidas, uma data complementar a Cinco de Julho. Com esses dois momentos, Cabo Verde é hoje
o que é. Se, por um lado, com os governos da Primeira e Segunda República, o país deu passos significativos rumo ao progresso e
acreditamos que o cabo-verdiano de bom-senso, imbuído de dados históricos se congratula com a independência em detrimento do
colonialismo como, também, deve ver no dia Treze de Janeiro um momento crucial que marca o início do novo rumo para o país. Com
Treze de Janeiro, Cabo Verde é, indubitavelmente, um país diferente. Apesar de muitas conquistas materiais e humanas alcançadas
nestas três décadas a sociedade cabo-verdiana produziu uma conduta e, ao mesmo tempo, implementou um sistema que, ao nosso ver,
não estavam na génese de libertação nacional como, também, na de instauração do regime pluripartidário. Hoje, não temos presos
políticos, não temos tortura física, não temos campo de concentração, não temos milícias, não temos tribunal de zonas, não temos
perseguição contra a Igreja Católica e nem contra os padres etc. Essas medidas e instituições coercivas da época colonial e do período
do partido único foram substituídas pela perseguição disfarçada, pela promoção da mediocridade em detrimento do mérito e
competência, pelo ódio, pela inveja, pela maldade, pela mentira, pela calúnia, pela difamação...

Muitos falam, hoje, de Jesus Cristo, de Sócrates, de Cabral, de Che Guevara, de Mandela, de Ghandi, de Obama... Outros até,
hipocritamente, usam objectos, marcas dessas figuras, esquecendo-se que esses homens nunca distribuíram cimento, nunca deram
verga, casa de banho, pensão social, envelope com dinheiro para comprarem consciência dos pobres; nunca intimidaram os pobres,
nunca perseguiram cidadãos pelo facto de pensarem diferente. Como citar ou usar essas figuras se, hoje, os que realmente se
identificam com elas são maltratados, odiados, invejados, vilipendiados, perseguidos, sonegados direitos, condenados e julgados
injustamente, como Jesus o foi pelo povo e Pôncio Pilatos e Cabral pelos, ainda, confusos, assassinos!? Cabo Verde alberga hoje, na
sua sociedade, povo e vários Pôncio Pilatos.
Acreditamos que enquanto as instituições de ensino, mormente as Universidades, continuarem a privilegiar conteúdos em detrimento
de pesquisa, análise, interpretação… continuaremos com intrigas e confusões sobre a nossa realidade. Não somos mais que um
simples e humilde cidadão a exercer seu direito da cidadania.

Cidade São Filipe, Janeiro de 2009
Alberto Nunes
Treze de Janeiro é, sem sombra para dúvidas, uma data complementar a Cinco de
Julho. Com esses dois momentos, Cabo Verde é hoje o que é. Se, por um lado, com
os governos da Primeira e Segunda República, o país deu passos significativos rumo
ao progresso e acreditamos que o cabo-verdiano de bom-senso, imbuído de dados
históricos se congratula com a independência em detrimento do colonialismo como,
também, deve ver no dia Treze de Janeiro um momento crucial que marca o início do
novo rumo para o país.
                                            Cabo Verde – Uma Visão Crítica
                                                                      e
                              Pedagógica Sobre as Práticas Sociais e Politicas

“Os homens precisam se unir para fazer renascer o gosto pelo questionamento, mesmo sabendo que é uma tarefa difícil e pouco
valorizada actualmente. Pois, vivemos numa sociedade satisfeita consigo mesma. Uma sociedade que já se convenceu que o material é
superior ao espiritual…” José João N. B. Vicente

Na aprendizagem, a sociedade é um livro aberto, ou se calhar, escola para os habitantes. Estes são leitores, estudantes e professores
permanentes. A sociedade é heterogénea. Nela encontramos crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos; Indivíduos, uns
irresponsáveis, outros responsáveis e com responsabilidades elevadas. Todavia, tomando a sociedade como livro ou escola, os sujeitos
que nela vivem, aprendem e ensinam muitas vezes, sem querer, como também, aprendem ou ensinam sem escolher o que aprender ou
ensinar. Há, como é lógico, nestas circunstâncias, perigos diversos. Pois, trata-se de uma aprendizagem diversificada a partir da
realidade e da experiência quotidiana, onde os indivíduos convivem com todas as castas de pessoas. Deste livro ou escola ninguém
escapa. Portanto, refletindo assim, podemos concluir que somos professores e alunos permanentes. Assim, o cidadão, por mais
comum que seja acaba por ter responsabilidade na sociedade. Os sucessos ou insucessos são consequências das nossas atitudes
como cidadãos. Nesta lógica, os professores não são apenas os que passaram pela escola de formação ou que estão em sala de aula,
mas sim, todos os cidadãos conscientes ou inconscientes. Os alunos não são, apenas, os que frequentam uma instituição escolar.
Assim sendo, podemos dizer que há dois tipos de professores e alunos: os professores que abraçam o professorado como profissão e
os que no quotidiano directa ou indirectamente, consciente ou inconscientemente ensinam; os alunos que frequentam as aulas e
aprendem nas escolas e os que aprendam com atitudes dos outros na sociedade. Assim sendo, todos os cidadãos são
professores/alunos e responsáveis pela e na sociedade.

Longe de igualarmos essas figuras, podemos tomar como exemplos paradigmáticos Jesus Cristo e Sócrates: Jesus era grande
professor, sobretudo um educador. Não preparava as aulas como também não tinha sala de aula específica. Ensinava em todos os
lugares: praias de mar, foz dos rios, desertos, praças públicas etc. Seus alunos eram indivíduos simples, humildes, honestos ….
Escolheu indivíduos que a priori Lhe exigiam enorme tarefa. Todavia, soube em pouco tempo transformá-los em grandes pescadores de
homens e condutores da humanidade. Seu ensino é, na verdade, transformador, significativo e, sobretudo útil no passado, presente e
futuro. Para materializar seus ensinamentos usou como material didáctico exemplos da sua própria vida.
Sócrates era, também, à semelhança de Jesus um excelente professor/educador. Não tinha sala de aula e tão pouco turmas
específicas. Direccionava seus ensinamentos para esclarecer a juventude grega. Trata-se de ensinamento útil à sociedade. Jesus e
Sócrates foram figuras pragmáticas, úteis, com ensinamentos significativos e que ajudam muito na construção de uma sociedade
sadia, harmoniosa e igualitária. Todavia, ambos foram julgados e condenados à morte por causa da verdade. Entre enganar, mentir e
defender a verdade, ambos preferiram a verdade e por ela morreram. É diveras uma convicção árdua! As sociedades modernas
precisam, urgentemente recuperar e produzir homens desse calibre. As escolas precisam ter professores reflexivos, brilhantes e,
sobretudo fascinantes (Augusto Cury, 2003) responsáveis e comprometidos com a profissão. As outras instituições devem instruir os
funcionários a prestarem serviços, sobretudo serviços de excelência como acto de dever. Afinal ensinamos às crianças a serem
amanhã maus cidadãos, maus profissionais e maus professores com o comportamento que temos hoje na sociedade, nas escolas e
noutras instituições.

Devemos ter sempre em mente que quando vemos ou ouvimos indivíduos assumidamente responsáveis a mentir na televisão, na rádio
ou a desvirtuar a verdade em função dos seus interesses ou interesses confusos, nada mais estarão a fazer do que ensinar uma
criança a mentir ou a desvirtuar uma verdade amanhã, em função dos seus interesses; sempre que vemos/ouvimos indivíduos com
responsabilidades acrescidas a fazerem promessas falsas estarão a ensinar as crianças a não cumprirem com as suas tarefas/
obrigações no futuro. Tomemos a consciência, sejamos responsáveis, freemos os nossos interesses a favor de uma sociedade justa,
fraterna, harmoniosa e equilibrada para que amanhã não venhamos a criticar e condenar a sociedade que hoje construímos! Jesus e
Sócrates são figuras importantes a seguir, mas para tal é preciso conhecê-Los através da Bíblia (Jesus) e livros de filosofia (Sócrates),
pois, o mundo precisa cada vez mais de cidadãos desse calibre; precisa de cidadãos com visão clara e objectiva; precisa de homens
reflexivos, transformadores, altruístas e práticos; precisa de ensino prático e fundamentado na vivência quotidiana… Como esperar uma
sociedade sadia, justa, harmoniosa, equilibrada… se hodiernamente o homem vive em função do presente, do imediato e dos seus
próprios interesses abdicando dos aspectos colectivos/comuns que constituem Pedras Basilares na construção da sociedade ideal
almejada pelos homens que ainda defendem valores!?
É o que pensamos de momento como simples e humilde cidadão.
Cidade São Filipe, Fevereiro de 2009
Alberto Nunes

                                                                                       SANTA CATARINA DO FOGO, HISTORICIDADE

“Estai, pois, vigilantes e recordai-vos de que durante três anos, de noite e de dia, não cessei de exortar (…) cada um de vós”. Actos dos
Apóstolos-  Cap- 20 V- 31
Documentos históricos rezam que Santa Catarina foi o último espaço a ser povoado na óptica de Freguesia/Concelho na ilha do Fogo.
Indicam também que, o micro-clima da regiao,  agricultura, pesca e  pecuária foram elementos incentivadores à fixação dos seus
primeiros habitantes na Orla marítima da planície das Praias Casinha e Bombardeiro. Entretanto, devido aos ataques de piratas e,
sobretudo, a partir do momento em que os habitantes procuravam regiões mais férteis e aráveis para a prática de agricultura passaram
a fixar-se nas arribas de Domingos Lobo e Maria da Cruz. Todavia, o povoamento de Cova Figueira, segundo os documentos, surgiu na
sequência da erupção vulcânica de 1799. Três anos mais tarde, 1802 o Feitor João de Araújo Gomes pediu de arrendamento a Fazenda
real de Cova Figueira com o compromisso de fazer o seu povoamento com 150 famílias vindas da Freguesia de Nossa Senhora de Ajuda,
vítimas da referida erupção. Trata-se de uma região eminentemente rural onde a agricultura, a criação de gado e a pesca prevaleceram
durante muitos anos como actividades predominantes. Em termos de agricultura cultivavam-se milho, feijão, vinha e algodão; no que
concerne à criação de animais priorizavam o burro e a cabra a nível da pesca praticavam-se pesca rudimentar. Seus habitantes viveram,
quase que exclusivo, à base dessas actividades pouco rentáveis durante vários anos, o que significa que a população foi habituada ao
sacrifício desde seu povoamento.

Durante todo o século XIX e início do século XX surgiram novos povoados na sequência da expansão de zonas agrícolas e pastoricias -
Estância Roque e Chã-das-Caldeiras são exemplos das regiões mais altas e na Orla marítima sugiram novas zonas piscatórias como
Tinteira e Monte Vermelho. Em Cova Figueira, seu povoado mais expressivo, emergiu uma elite económica que cedo se demarcou das
demais surgidas nos novos povoados e contribuiu para a criação de uma mentalidade que há muito entrou em declínio e que hoje muitos
se aproveitam para criar uma nova revanche política cujo objectivo é obscuro. Além das elites de Cova Figueira, verificam-se nos
povoados mais recentes alguns vestígios dos primeiros moradores que, segundo os dados recolhidos, eram homens e mulheres que
dentro desta esfera geopolítica possuíam grandes prestígios económicos e sociais.

O evoluir do tempo dita novas actividades aos seus moradores, sem, no entanto, deixarem de praticar as já existentes. O pequeno
comércio foi-se juntando às outras actividades, a emigração e, consequentemente, as remessas dos emigrantes deram um novo e
grande impulso à vida económica de Santa Catarina. A partir das décadas de 60 e 70 do século XX, Padre Antoninho (capuchinho
Italiano), José Joaquim Fernandes Lopes (Josezinho de Pepa) e José Henrique Veiga (Djédjé de Pedro) em Cova Figueira cederam
“crédito” para financiar passagem a muitos pais/chefes de famílias que, na altura, queriam encontrar novo rumo de vida em Portugal.
Hoje, graças a essas iniciativas, muitas famílias de Santa Catarina vivem das remessas de seus emigrantes radicados naquele país e
outras de pensão já adquirida. Também deve ser realçada a emigração para os EUA que, nestas últimas décadas, tem estado a resolver
os problemas económico/financeiros das famílias em Santa Catarina, através das remessas e pensão adquirida.

Entretanto, com a dinâmica da economia de mercado e a fomentação do turismo em Cabo Verde, a aldeia de Chã das Caldeiras, as
outras limítrofes e a Vila de Cova Figueira conheceram, embora poucos, alguns investimentos privados e públicos. Hoje, pode dizer-se, e
se bem aproveitados, que a agricultura, pesca, pastoricias, pequenas indústrias, turismo e as remessas dos emigrantes constituem a
base da sobrevivência/vivência, do progresso e desenvolvimento de Santa Catarina.

Os maiores investimentos começaram a ser feitos a partir da década de quarenta do século XX. A partir daí, Santa Catarina passa a
dispor de algumas infra estruturas e equipamentos de saúde, educação, Correios, Telecomunicações, Energia elétrica (1994 em Cova
Figueira a tempo parcial) e água, transportes rodoviários e estabelecimentos comerciais, religiosos e alberga alguns serviços públicos,
nomeadamente, Delegação Municipal, Posto Policial, Posto de Saúde, Matadouro Municipal e Delegação do Ministério do Ambiente,
Agricultura e Pesca (MAAP).
Cova Figueira, centro histórico da Freguesia, foi elevada à categoria da Vila pelo Decreto-Lei nº 101/97 de 22 de Dezembro. Pouca sorte
teve, principalmente por parte dos governantes locais e central após esse acontecimento histórico.

A luta pela elevação da Freguesia à categoria do Concelho remonta aos anos 90. Entretanto, na aurora desta década as motivações
aumentaram. Essa questão foi motivo de discórdia entre seus habitantes como também de gentes que não faziam parte da Freguesia.
Uns defendiam que ela não tinha mínimas condições para ser Concelho, outros defendiam que sua elevação à categoria de concelho
poder-se-ia servir para criar as condições. É de se realçar, também, que muitos santacatarinenses, foguenses e não só, não se
preocupavam com tal questão. Incrivelmente são estes últimos os seus primeiros governantes e assumem hoje hipocritamente como
maiores defensores de Santa Catarina e suas gentes. Enquanto homem de história este facto não é nos estranho, pois, conhecemos
tantos casos similares na história da humanidade.  
No final de 2004 e início de 2005, o Governo e os grupos com assento parlamentar conceberam, apresentaram, apreciaram e aprovaram
o projecto do Concelho de Santa Catarina. Assim, a Freguesia foi elevada à categoria de Concelho a 09 de Maio de 2005, pela Lei nº 66/ VI,
do mesmo ano, publicado no B.O. nº 19, I Série, da República de Cabo Verde. O Concelho é delimitado numa área de 125,9 Km2 e com
uma população de 5.500 habitantes.

Com a elevação da Freguesia ao Concelho, o Governo, através do então Ministro da Administração Interna, nomeou o presidente para
presidir a Comissão Instaladora. Cumprindo os preceitos legais, os dois partidos (PAICV e MPD) nomearam, também, cada um dois
vogais para formar a equipa. Ao todo, cinco elementos – um presidente quatro vogais. A 25 de Julho de 2005 a equipa tomou posse e, ao
mesmo tempo, recebeu o Projecto/programa da instalação do município. A Comissão tinha dois anos e dez meses para implementar o
Projecto/programa de instalação com um Orçamento de 386.500.000$00 (Trezentos e oitenta e seis milhões e quinhentos mil escudos)
para contemplar o seguinte: Construção de Paços do Concelho (1), construção de Residência Oficial (1), Construção de blocos de
residência para funcionários (1), construção de Unidade Sanitária de Base (2), Construção de Jardins infantis (2), Eletrificação rural,
construção de equipamentos colectivos (desportivos) (2), construção de sistema de abastecimento de água, construção do mercado
municipal, aquisições de terrenos, construção de centro de saúde (1), construção de estrada e caminhos vicinais, construção de blocos
de habitação social, instalação do Gabinete Técnico Municipal, elaboração de Plano Director Municipal, elaboração do Plano de
desenvolvimento urbano, elaboração do plano urbanístico detalhado, equipamentos informáticos, mobiliários de escritórios, veículos
ligeiros e equipamentos pesados (camião-sistema/recolha de lixo (2). Também a Comissão Instaladora em parceria com o Governo devia
enveredar os esforços para trazer os serviços desconcentrados do Estado para o novel Concelho.

O Governo assumiu a responsabilidade de fazer as transferências das verbas do Orçamento de instalação para a Comissão Instaladora.
Para o investimento no Município foram transferidos em 2006 o montante de 85.100.000$00 e 2007 127.407.000$00 e a Operação
Esperança transferiu o montante de 2000.000$00 perfazendo num total de 214.507.992$00.  Não temos os dados das transferências
efectuadas (se foram) do segundo semestre de 2005 e do primeiro semestre de 2008.

Do Orçamento Geral dos cinco Municípios criados em Maio de 2005 que era de 1.821.500.000$00, Santa Catarina do Fogo ficou com
386.500.000$00, Ribeira Grande Santiago com 353.500.000$00, São Lourenço dos Órgãos com 368.500.000$00, São Salvador do Mundo
com 361.500.000$00 e Tarrafal de São Nicolau 351.500.000$00 para a materialização dos programas de instalação. No caso de Santa
Catarina, esse Orçamento e os programas deviam ser implementados a partir de 25 de julho de 2005 (tomada de posse) até 18 de Maio
de 2008 – Inicio e fim da missão da Comissão Instaladora. Como se pode perceber essa Comissão recebeu, de acordo com os dados,
algumas verbas do Governo. Na ausência de uma infra estrutura pública adequada para instalar o serviço da Comissão, a equipa
nomeada foi obrigada a arrendar um espaço privado para criar as condições de arranque. Muitos investimentos foram feitos na criação
dos departamentos e aquisição dos mobiliários. Que a verdade seja dita, a equipa ficou muito bem instalada e com condições de
trabalhar. Durante a “vida” da Comissão Instaladora a equipa deu início aos trabalhos de instalação. Houve eletrificação de alguns meios
rurais, construções de algumas habitações sociais (questiona-se o critério usado na atribuição dessas habitações aos necessitados),
algumas zonas beneficiaram de rede de água (questiona-se o momento e objectivo da instalação da rede de água no domicílio), alguns
instrumentos municipais foram concebidos, construíram algumas estradas e caminhos vicinais em algumas localidades, construção de
um jardim infantil e um outro em andamento, ultimaram e concluíram alguns polivalentes que se encontravam em construção e em
parceria com o governo realizaram algumas obras como foi o caso da Esquadra da Polícia Nacional na vila de Cova figueira; já foram
adquiridos alguns veículos ligeiros, equipamentos pesados (camião-sestema/recolha de lixo) etc. Muitos projectos/programas ficaram
apenas no papel. Muitos ainda não arrancaram e outros estão em andamento após o prazo estabelecido. Isso significa que a Comissão e
o próprio Governo não cumpriram o papel de instalação, facto inquestionável. Entendemos que a Câmara saída de 18 de Maio é que irá
implementar os projectos da Comissão. Pois, nenhum serviço desconcentrado do Estado, à excepção do (MAAP) existe no Concelho.
Não foram construídos Paços de Concelho, residências oficiais, Blocos de residências para os funcionários, Unidade Sanitária de Base,
Mercado Municipal, Centro de Saúde…; não existe ainda no concelho nenhuma agência bancária. O Concelho continua ainda a depender
do Concelho de origem-São Filipe.

Santa Cataria é, deveras, um Concelho pobre, o mais pobre do país. Segundo os dados do Instituo Nacional de Estatística (INE) este
Concelho alberga 59% de pobres. Entretanto, é um concelho com muitas potencialidades naturais, materiais, humanas... Estas
potencialidades existentes do/no e fora do concelho devem ser conhecidas, estudadas, aproveitadas e, sobretudo, equacionadas para
resolver os constrangimentos existentes a favor do Município e dos munícipes para garantir o crescimento, progresso e
desenvolvimento harmonioso, justo e sustentável. Todavia, é necessário combater afincadamente os males que já afectam o município
desde o primeiro momento da sua existência e que está à vista de todos. Tudo isso é possível desde que abdiquemos dos interesses
pessoais e partidários e lutemos juntos “Gregos e Troianos” para que haja boa vontade, abertura e, sobretudo humildade para que os
interesses de Santa Catarina sejam colocados como prioridades.

Os governantes locais, os munícipes (não só, militantes, amigos e simpatizantes) precisam sentar-se para diagnosticar, identificar os
problemas, estabelecer metodologia, definir prioridades, estabelecer critérios claros e objectivos que servem ao município e aos
munícipes como um todo. Deve haver espaço para debater idéias e projectos com quadros de Santa Catarina residentes e na diáspora.
Basta, mas basta mesmo de confundir os santacatanrinenses de que o concelho não tem quadro! Deve haver diálogo e negociações,
vezes necessários, entre os governantes e os proprietários dos terrenos, principalmente na Vila de Cova Figueira. Pois, analisando a
situação da Vila de Cova Figueira hoje, se percebe com clareza que a postura dos governantes locais e dos proprietários dos terrenos
constitui sérios problemas que podem mudar o rumo, adiar ou estagnar o progresso e o desenvolvimento da Vila e do município como
todo. Pois, a partir de 1992, com o municipalismo em Cabo Verde o terreno passa a ser uma questão de difícil consenso. No caso
específico de Santa Catarina, os governantes devem assumir uma postura responsável e credível para transmitir confiança aos
proprietários que adquirindo terrenos (comprando-os nos proprietários), a Câmara fará o seu uso para o bem do Município e dos
munícipes. Pois, nestes últimos anos muitas denúncias foram feitas, a nível nacional, de governantes locais que distribuíram/venderam
lotes de terrenos do município nas vésperas de campanhas/eleições aos apoiantes como forma de angariar votos. Por outro lado, os
proprietários terão de se mostrar abertos às negociações de terrenos com os poderes locais como forma de desbloquear o progresso e
desenvolvimento. Na vila de Cova Figueira, os proprietários dos prédios em ruínas devem sentar-se à mesa de negociação com a
Câmara Municipal ou vice-versa a fim de chegarem a um consenso para remodelarem os que devem ser remodelados e demolir os que
devem ser demolidos para puderem dar lugar à construção de edifícios modernos. Pois, Santa Catarina acarreta, neste momento, um
ónus pesado que comprometerá fortemente o seu futuro. Interesse pessoal, imediato e partidário, intrigas e confusões estão a bloquear
seu progresso, crescimento e desenvolvimento. Trata-se do Concelho mais pobre do país e paradoxalmente paga-se o arrendamento
mais caro de Cabo Verde para instalar a Câmara Municipal. Os melhores salários são das pessoas que não estão e nem vão,
certamente, investir aqui. Aproximadamente 1.000.000$00 são destinados a pagar salários às pessoas que nem se quer tomam um
sumo em Santa Catarina. Vive-se aqui, a partir de 2005, um autêntico colonialismo, isto é, os nativos, principalmente os quadros sentem-
se estrangeiros em sua casa.
Em Santa Catarina, o poder local e não só tem de mudar urgentemente o conceito de forças vivas e da população. Elas devem ser
entendidas não como simples apoiantes de quem está no poder e que no momento de aprovação de quaisquer documentos importantes
para o futuro do município são chamadas para darem um aval positivo às idéias preconcebidas dos governantes, mas devem ser
entendidas como sujeitos pensantes e reflexivos dentro de um quadro teorico-prático, sustentado na imparcialidade das decisões
importantes que servem o Município, os munícipes e o país como um todo.

Ao circular em Santa Catarina ouvem-se queixas provenientes de pessoas que reclamam que no ano transacto havia trabalho, dinheiro e
artigos diversos a circularem no Concelho e desde 30 de Maio de 2008 muitos chefes de família não sabem o que é ter um salário,
porque simplesmente o trabalho não existe. Os jovens, à excepção de um grupo que se encontra preste a concluir a formação
profissional, estão a perambular no concelho sem saber o que fazer. Foram deixados ao Deus dará. Ouvem-se expressões do tipo: “es
homi engananu”, es homi engana tudo argúem”, “ Hoje tinha discussan na Cambra”,  “ninguém sta ta trabadja”, “antes de eleição tinha
trabadju pa tudo argúem, gosim Ca tem pa ninguém”. “Du benden Santa Catarina na um stranho”... Os realmente pobres e sem
alternativa sofrem calado, agüentando a dor e fingem que tudo está bem.  Triste, mas é realidade. Entretanto, apesar desta realidade
estampada à vista de todos, muitos, dentro e fora do concelho, com muita táctica e manobra pintam-na de colorido e tentam, sobretudo
desviar a nossa atenção destes reais e sérios problemas que afectam o município e os munícipes.
Vila de Cova Figueira, Março de 2009
Alberto Nunes
OBS: Este texto é resumo de um trabalho maior em curso.
BIBLIOGRAFIA/FONTES
Programa de Instalação do Município de Santa Catarina- Elaborado pelo Ministério da Administração Interna, através da Direcção Geral
de Administração Local.
BARCELOS, José Christiano de Sena, Subsídios Para História de Cabo Verde e Guiné, Vol II, Parte III, 2ª Edição
Boletim Oficial. Nº 19, I Série, da República de Cabo Verde.
Decreto-Lei Nº 101/97 de 22 de Dezembro
REVISTA, Ilhas Série 02 nº 01 Abril/Maio de 2008
RIBEIRO, Orlando, A Ilha do Fogo e as Suas Erupções, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses,
LISBOA, 1997

                                                                                          HOMEM DA CULTURA
                                          Sr.  VALDEMIRO DIAS
                                                                                                 Introdução

Há pessoas que pelo contributo dado à sociedade permanecem eternamente na memória colectiva das sucessivas gerações. Destarte,
as figuras ligadas à cultura, mormente tradicional, só desaparecem fisicamente do nosso meio. Pois, as suas experiências, vivências e
práticas da vida transformam-nas em quase imortais. Na ilha do Fogo, a história tem resgistado as práticas (contribuições) de muitas
figuras simples e humildes na produção, preservação e enriquecimento da Cultura Tradicional. Assim, penso não estar a exagerar
afirmando que, aqui, não se pode falar das festas de Romaria sem se falar dos Senhores, Sangolé, Nhonho Corcobada, Alexandre
Andrade (TCHITCHITI), Pedro de Amélia e Vlademiro Dias. Os quatro primeiros já não fazem parte deste mundo. Todavia, pelas suas
contribuições, na produção, preservação e enriquecimento da nossa Cultura Tradicional, persistem no nosso meio, através da memória
colectiva. O último, o Sr. Vlademiro Dias (conhecido entre nós como homem da Cultura Tradicional) que ainda labuta e vive entre nós,
contínua a nos brilhantar nas Festas de Romaria e com muita ênfase nas de São Filipe. É sobre Vlademiro Dias e suas contribuições na
Cultura Tradicional do Fogo que vou Falar.
Vida
Vlademiro Dias nasceu a 10 de Novembro de 1937, na Cidade de São Filipe, ilha do Fogo; filho de António Dias e de Ana Lopes Dias; casou-
se em 1960 com Isabel Souto Barbosa Dias; pai de sete filhos; avô de dez netos e bisavô de dois bisnetos. Vlademiro revelou-se muito
cedo como pai, homem, chefe de família e profissional exemplar
Católico, Vlademiro apaixonou-se, muito cedo, pelo tambor e pelas festas de Romaria. Aliás, aos 14 anos já praticava os toques de
tambor.
Nos anos cinquenta, Vlademiro jogava futebol. Foi colega do Sr. Zuca e Tuné de Comazinha; Foi também braçal durante 11 anos (1957-
1968) no Porto de Fonte Vila, onde transportou sacos às costas para carregar e descarregar os barcos que entravam e saíam desse
porto.
Em 1970 trabalhou como magarefe na cidade de São Filipe. Abatia os animais como cabra, vaca, porco para a venda na cidade e no
interior da ilha.
Com a criação do porto de Vale dos Cavaleiros em 1968, Vlademiro, tendo como chefe Nhô Nelinho de Bia, na qualidade de estivador,
passou a trabalhar ali. Foi, tal como muitos outros braçais, também pescador em pequenas embarcações de boca aberta na orla
marítima desde porto de Vale dos Cavaleiros até Baia do Corvo, no Concelho dos Mosteiros.
Em 2006, a morte arrebatou-lhe a esposa Isabel Souto Barbosa Dias, após 46 anos de vivência matrimonial. Hoje, Vlademiro é um homem
viúvo. E assim, nos garante que irá morrer.
Vlademiro, Homem da Cultura Tradicional do Fogo
Como homem da Cultura Tradicional ligado às festas de Romaria na ilha, com incidência nas de São Filipe, Vlademiro iniciou a sua
carreira como tamboreiro aos 19 anos como aluno e admirador do tamboreiro mestre - Alexandre Andrade (1906-1984). Hoje, apesar de
introduzir novos toques e estilos próprios, Vlademiro continua a praticar os toques criados e desenvolvidos pelo seu mestre, Tchitchiti,
que são conhecidos, genericamente, por “briais” (“brial”, no singular): o “brial” do almoço dos cavaleiros, o “brial” das corridas de
perícia, o “brial” das cavalhadas, da tomada de bandeira etc. Apesar do sucesso conseguido na sua carreira como tamboreiro ele
continua a nutrir forte respeito pelo o seu mestre (Tchitchiti). Vlademiro Dias é, hoje em termos de tamboreiro, fruto de uma vivência
intensiva junto de tamboreiros experimentados da ilha como mestre Tchitchiti e Pedro de Amélia, seus antecessores directos.
Com o desenterro da Bandeira de São Filipe pelo Grupo de sete Estrelo em 1917, Alexandre Andrade (NHO TCHITCHITI) passou a ser o
chefe principal dos tamboreiros nas festividades de Romarias em São Filipe. Nho Tchitchiti permaneceu como chefe principal até 27 de
Junho de 1984, altura em que faleceu, na noite do canizade de São Pedro. Tendo desfalecido cerca das 9 da noite enquanto tocava,
Tchitchiti foi transportado ao hospital onde faleceu horas depois. Após a morte desse mestre, Pedro de Pina, mais conhecido por Pedro
de Amélia passou a ser o novo chefe dos tamboreiros nas festividades de Romaria em São Filipe até 1996, altura da sua morte. A partir
daí, Vlademiro Dias assumiu a chefia principal dos Tamboreiros até a actualidade. Com a mediatização das Festas, Vlademiro Dias e a
Cultura Tradicional do Fogo conheceram uma nova dinâmica. Na qualidade de tamboreiro principal, tem levado as festas das Bandeiras
da ilha para outros cantos do arquipélago nomeadamente, São Vicente, Cidade Velha, Assomada e Praia, como também no estrangeiro,
em particular, Holanda e Bélgica em parceria com a Câmara Municipal de São Filipe e com o grupo PBS, através do Sr. João Rodrigues
Pires.
Vlademiro Dias tem enveredado esforços no sentido de fazer com que os jovens de hoje também comecem a aprender a tocar o tambor.
Diz-nos sempre: “Minó di Mámá moreu e a gaita ficou guardada no Fogo, mas quando Vlademiro Dias morrer alguém irá continuar a tocar
tambor na ilha do Fogo”. Ele defende que a nossa cultura tem de ser cultivada, tem de ter continuidade.  
Como homem da cultura e chefe nº 1 do grupo Estrelas do Fogo tem já, para o próximo mês de julho, um convite do Sr. Markus Leukel,
percussionista e investigador dos ritmos de África e do Brasil (alemão) para efectuar uma digressão à Alemanha e Áustria onde o grupo
irá divulgar e promover as festas das Bandeiras ligadas à cultura tradicional do Fogo.
Actualidade
Além de exercer as actividades ligadas à Cultura Tradicional da ilha do Fogo, Vlademiro Dias desempenha a função de contínuo na Escola
Secundária Dr. Teixeira de Sousa desde 25 de Fevereiro de 1995. Trabalhador exemplar que respeita os funcionários e que assim
conquista o seu respeito. Reconhecido pelas sucessivas Direcções, professores, alunos, auxiliares administrativos e colegas como
homem assíduo, pontual e cumpridor de horário e de seus deveres. Como contínuo, exige sempre que os professores sejam pontuais e
assíduos. Exerce e faz os outros exercerem suas funções com responsabilidade, honestidade e competência.  

Composição do Grupo Estrelas do Fogo 2009
1.        Vlademiro Dias (1º Taboreiro Chefe)
2.        Roosevelt Lopes Correia (2º Taboreiro Chefe)
3.        Nilson Lopes (3º Tamboreiro e Colecheiro)
4.        Lici Sequeira (4º Tamboreiro e Colecheiro)
5.        João Pedro Rodrigues (5º Tamboreiro e Colecheiro)
Coladores
1.        Américo Sequeira (Natanael)
2.        Daniel Alves (Nho Sopa)
3.        José de Maria (residente em Velho Manuel)
Coladeiras
1.        Catarina de Pina Brandão (Idalina)
2.        Maria Lopes (Maria Tchuneta)
3.        Joaquina Dias (Budjodja)
4.        Maria Socorro Teixeira (Domingas)
5.        Lucinda Mendes (Mama de Rompe)
6.        Manuel Pina Cabral (Mané Bispo)
Vlademiro, que tenha vida longa e muita saúde!
O professor
Alberto Nunes

“Como podia um discurso corajoso influenciar homens cuja mente está predisposta e profundamente imbuída de objectivos contrários”.
Thomas More
A autarquia local foi instituída em Cabo Verde em 1992, logo após a mudança do regime monopartidário para o pluripartidário. Nessa
data, chegou ao fim o sistema de Delegado de Governo nos concelhos, sendo que esta  estrutura em pouco diferia da que tinha sido
implementada desde época colonial ( os regedores e cabos-na altura, era um concelho. Nessas, que foram as primeiras eleições
autárquicas, a ilha teve dois candidatos - João do Rosário (MPD) e Eugénio Miranda Veiga (PAICV). Os resultados eleitorais deram vitória
ao Eugénio Veiga. Com vitória alcançada instalou-se, no Fogo, “o paternalismo político” e, em simultâneo, a “política de
assistencialismo”. O “paternalismo político” e “política de assistencialismo” foram formas/estratégias encontradas e montadas pela
equipa no pódio para empobrecer e, sobretudo, dominar politica e economicamente os desempregados. Entretanto, alguns
assalariados, proximos dos vencedores, perceberam a estratégia montada e aproveitaram-se dela para ascender politica, económica e
socialmente. A partir de 1992, no Fogo, o presidente da Câmara passou a ser visto, pelos desempregados, como a única solução dos  
seus problemas económicos. Estes desempregados foram colocados, propositadamente, em situação de extrema pobreza, por forma a
serem dominados e usados em função do interesse de quem estava e ainda está no poder. Entretanto, os referidos homens
assalariados, conscientes desta real situação vivida por esses pobres, lutaram e ainda continuam a lutar em prol da manutenção de tal
poder e “status quo”, em troca de alguns privilégios e/ou mordomias, pondo assim de lado, os princípios, valores morais e éticos que
sempre nortearam/norteiam os homens na sociedade e caindo, deste modo, no individualismo,  na satisfação pessoal e no despudor.

Após as primeiras eleições autárquicas, a equipa vencedora passou a identificar, “a pente fino”, seus apoiantes e oponentes, usando
pessoas afectas ao partido e ao poder local (um tipo de PIDE). Esses individuos trabalham afincadamente na identificação das pessoas
residentes e de outras que entram na ilha para saberem se apoiam ou se são “contra” a equipa no poder. Feita esta segregação,
comunicam aos homens do poder que passam a praticar em relação aos “contras” a “discriminação negativa”. Os apoiantes passam a
ter tratamento e oportunidade especiais, por quanto, os oponentes são ignorados e, muitas vezes, atropelados seus direitos
consagrados na Constituição da República e noutros documentos normativos.  

A prática vivida leva-nos a entender que para os pobres, o emprego no seu verdadeiro sentido deixou de existir, pois, esta camada só
passa a ter um “trabalho” alguns meses antes das eleições. Esta estratégia/situação montada pelos homens do poder, coloca esses
pobres em situação vulnerável, frágil e dependente de quem está no poder. Os homens do poder ao coloca-los em situação difícil
aparecem sempre às vésperas das eleições como salvadores, com a solução milagrosa para os seus problemas. É por isso que, na
altura das campanhas eleitorais, ouve-se expressões do tipo: “el é pápá; sima el ca tem; ali é el é que ta manda ba um bés; el é
insusbstituivel, quenha qui du ta pô na se lugar?…” Como se pode perceber, a situação imposta aos pobres pelo poder, obriga-os a ver a
câmara municipal e o próprio presidente como únicas entidades empregadoras e de apoio. Sem surpresa, pois pertencem á mesma
escola ideológica, as outras câmaras, criadas 1992 (Mosteiros) e 2005 (Santa Catarina), tem seguido a mesma cartilha da câmara- mãe.

Observando o comportamento de cidadãos de outras ilhas ou de outros países, percebe-se, com clareza, que as pessoas labutam para
criar o auto-emprego libertando-se das teias partidárias e do poder local. Presencia-se homens e mulheres a trabalhar,
incansavelmente, em diversos sectores da sociedade para garantir o auto-sustento com dignidade. Esta luta para conseguir o emprego
e auto-emprego contribui para que essas pessoas sejam livres e independentes das teias politico-partidárias. Entretanto, no Fogo, ao
amanhecer é possível encontrar, nas portas das câmaras municipais, dezenas de pessoas carenciadas à espera de apoio, esquecendo-
se, quer o povo quer o poder local, que sem o trabalho de todos nós, cada um na sua área, não podemos crescer e tão-pouco
desenvolver. Há que combater afincadamente e com muita urgência esta atitude de empobrecer o povo e de torná-lo dependente,
pedinte e ocioso, pois com este tipo de comportamento e mentalidade, o discurso é vazio e, visa, sobretudo, manipular consciência dos
inocentes e dos incautos/interesseiros.
No Fogo é preciso a união dos diversos sectores, dos partidos e, sobretudo da sociedade civil para dizer um basta ao “paternalismo
político” e à “política de assistencialismo”, pois esta prática tem contribuido fortemente para a manipulação/coacção e compra de
consciência de muitos pobres e de muitos outros que se aproveitam desta situação/estratégia implantada no Fogo após a mudança
política.

Houve, sem dúvida, uma mudança política, a partir de 1991, mas no Fogo, a lógica e a prática continuam sendo, as do partido único. A ilha
ganharia muito, independentemente do partido A, B ou C, se houvesse sempre concertação e diálogo entre os homens no poder e a
sociedade civil (não nos referimos ás reuniões de militantes, amigos e simpatizantes do partido e do grupo no poder, como tem sido
pratica).

Reconhecemos, com apreço, as obras estruturantes em curso, as primeiras pedras lançadas e outras que irão ser lançadas em breve;
entendemos que contribuem significativamente para a modernização e, sobretudo transformação das infraestruturas na ilha;  
entretanto, voltamos a sublinhar que essa modernização e transformação devem atingir a mentalidade dos governantes locais, dos
partidos políticos e da própria sociedade civil para que o cidadão foguense possa viver livremente e em pé de igualdade como os demais
cabo-verdianos.
Cidade de São Filipe, Junho de 2009
Alberto Nunes
Apresentação do Livro “ Ganância & Poder e Cidadania “ (de costas voltadas) da autoria de Adriano
Gonçalves Rodrigues Pires
Data: - Sexta-feira 18 de Setembro de 2009
Local: – Casa das Bandeiras – Cidade São Filipe – Fogo

Apresentador - Alberto Nunes
Esboço de Apresentação
Boa tarde
Sr. Adriano Rodrigues Pires  
Chefes dos serviços desconcentrados do Estado
Ilustres convidados

Antes de falar sobre o livro, permitam-me, em primeiro lugar, agradecer o Sr. Adriano Gonçalves Rodrigues Pires, pelo privilégio que me
concedeu para estar aqui na qualidade de apresentador desta que considero ousada, magnífica e singela obra.

Na minha modésta opinião, o presente livro constitui uma obra-prima e uma fonte histórica que doravante pode ser usada pelos
historiadores e outros estudiosos para melhor compreensão dos aspectos sócio-politico-militares cabo-verdianos. A meu ver, constitui
ainda, um desafio aliciante aos cabo-verdianos não contagiados pelo conformismo e que se querem demarcar dos discursos oficiais,
tradicionais, rígidos e dogmáticos. Em Cabo Verde, fomos habituados a um discurso oficial, tradicional, rígido e dogmático. Este tipo de
discurso induz-nos a acreditar que não há outro diferente, na medida em que, são poucos os cabo-verdianos que têm acesso à
televisão ou outros meios de comunicação social para apresentarem seus estudos, seus trabalhos académicos ou ideias sobre
quaisquer aspectos da nossa sociedade. Normalmente, a televisão e outros meios de comunicação social são diariamente invadidos
com discursos propagandísticos dos membros do governo, presidentes e vereadores das Câmaras Municipais, chefes de instituições
e organizações, sobretudo públicas. Efectivamente, neste tipo de discurso tudo é rosa sem espinho, tudo foi cumprido com rigor a
100%, nada ficou por fazer, o balanço é sempre positivo. Habitualmente, aparecem indivíduos ligados a este tipo de cidadão e de
discurso para bater palmas e aplaudir, independentemente do conteúdo ou da credibilidade do discurso. Fomos habituados a discursos
de líderes partidários, de chefes do Governo, de membros do Governo, de chefes das instituições públicas e de certas organizações.
Discurso, muitas vezes parcial, desarticulado da realidade, discurso produzido, na maioria das vezes para ludibriar mentes
desprevenidas.

Todavia, para os que ainda não tiveram oportunidade de ler este livro devo dizer-lhes que não vão encontrar este tipo de discurso, pois,
Adriano Rodrigues Pires de forma corajosa, descomplexada, inteligente e “sem papas na lingua” fez um levantamento de factos
ocorridos no nosso dia-a-dia em Cabo Verde, em diversos sectores e em algumas organizações como, por exemplo, nas Forças
Armadas, nos partidos políticos e no Governo; com análise desapaixonada (ferisse a quem ferisse) publica-o com recursos próprios a
fim de proporcionar aos cabo-verdianos dados e factos substanciais de modo a que possam reflectir sobre uma realidade bem
diferente da produzida e reproduzida pelos líderes partidários, membros do Governo e chefes dos serviços. Todo este esforço e
trabalho empreendido visa, no meu entender, ajudar os cabo-verdianos a tomar consciência da verdadeira realidade e, ao mesmo
tempo, agir em conformidade, no sentido de, provocar mudança no status quo da nossa sociedade.

Com estilo académico, sobretudo intelectual, Adriano Rodrigues Pires apoiou-se em dados e factos observados, como também em
consultas documentais credíveis para, em seguida, reconhecer os avanços e ganhos conseguidos por Cabo Verde durante os 34 anos
da independência. Reconhece, ainda, através do mesmo procedimento, as fragilidades e pontos fracos de Cabo Verde. Procurou, no
entanto, identificar as causas dessas fragilidades e, ao mesmo tempo, propor as possíveis soluções como forma de solucionar estas
fragilidades e aspectos menos bons. Um posicionamento que, a meu ver, é louvável, na medida em que o autor trabalha com dados
objectivos, sobre factos que ele conhece muito bem. Penso que com esta atitude, Adriano Pires está a cumprir o seu direito e dever
como cidadão. Pois, segundo ele a maior crise que afecta Cabo Verde reside na crise da cidadania. O homem, segundo ele, foi relegado
para o segundo plano no sistema político cabo-verdiano. O egoísmo, interesse pessoal, oportunismo, ganância no poder e no bem-estar
promovidos pelos homens do poder secundarizaram o homem em Cabo Verde.

Adriano Rodrigues Pires teve uma postura ousada, singular, nesta singela e magnifica obra ao abordar assuntos pertinentes e
diversificados e que, muitas vezes, são considerados intocáveis, pois na óptica de muitos, estes assuntos constituem “tabus” na
sociedade cabo-verdiana. Abordou factos importantes que estão intimamente relacionados com o progresso e/ou atraso de Cabo
Verde, dependendo da perspectiva de analise. Daí que prognostico, através da experiência vivida, que para os acríticos, conformados e
oportunistas, certamente, Adriano Pires será interpretado como um pessimista, um frustrado, um cidadão que gostaria de chegar o
topo das Forças Armadas, que no entanto, por motivos A ou B não conseguiu. Assim sendo, resolveu através deste livro manifestar ou
publicitar a sua frustração. Contudo, sabemos que em CaboVerde, cidadão do tipo de Adriano só é bem visto após a morte, a partir do
momento que já não pode incomoda alguém. Aliás, Amílcar Cabral, hoje venerado por tudo e por todos foi considerado terrorista na
época da luta de libertação nacional. Por esta razão, pessoas do tipo de Adriano Pires não são bem vistas numa sociedade do tipo cabo-
verdiano onde o conformismo contagiou o homem quase na sua totalidade.

Da leitura deste livro depreende-se que Adriano constitui alvo a abater, pois incómoda e, sobretudo, põe em causa interesses pessoais
e egoístas de alguns dirigentes desta terra. Mas, afinal, pode-se falar em genuíno intelectual que não incomoda os corruptos, os
violadores da lei, os que fazem das coisas públicas suas propriedades? Pode-se falar em genuíno intelectual, se este não se
disponibiliza para combater as injustiças e os males que afectam a sociedade? Pode-se falar em genuíno intelectual que não faça
balançar o sistema montado sobre a égide da desigualdade, perseguição, injúria, calunia e difamação? Por outro lado, prognostico,
também, que para os críticos e inconformados com injustiça, perseguições, proteccionismo, calunia, difamação… certamente, Adriano
Pires será interpretado como um cidadão que exerce a sua cidadania com veemência e sem hipocrisia, como intelectual
descomplexado que mesmo estando na periferia do poder e da chefia contribui de forma crítica, altruísta e construtiva a bem de Cabo
Verde e do seu povo.
Ao ler este livro, fui obrigado ou, se calhar, induzido várias vezes a parar, pensar e reflectir um pouco sobre o seu conteúdo e, ao
mesmo tempo, estabelecer comparações com aquilo que vejo e vivo todos os dias em Cabo Verde. Depois de pensar e reflectir sobre o
seu conteúdo recuei ao passado para chegar à filosofia platónica sobre o mundo sensível e o mundo inteligível: concluí que o mundo
sensível de Platão aplica-se muito bem aos discursos feitos diariamente em Cabo Verde pelos políticos, líderes partidários e
governantes, pois segundo Platão o mundo sensível é o mundo das sobras, das inverdades, das irrealidades, das coisas falsas.
Enquanto que, o mundo inteligível ligado à verdadeira realidade, ao objecto concreto, à imagem real se coaduna com o discurso feito
nesta obra por Adriano Pires.

Como se pode perceber não tive e nem tenho pretensão de analisar, resumir ou fazer resenha deste livro para os leitores; deixo tudo
isso ao livre arbítrio dos leitores para que cada um segundo a sua faculdade tirar as suas ilações e ver de que modo o mesmo pode ser
útil para si e para Cabo Verde.  
Entretanto, ao ler cuidadosamente este livro, pude perceber que se trata de um trabalho muito bem elaborado, fruto de uma observação
e vivência crítica de um cidadão que quer dar seu contributo à sociedade onde vive sem, por isso, esperar louros ou qualquer outra
coisa em troca, como, infelizmente, tem sido prática em Cabo Verde.

O Livro, Ganância & Poder e Cidadania (de costas voltadas) espelha uma ousadia e uma ciragem tremenda face aos factos ocorridos
no nosso país que muitos entendem e sabem, mas que, entretanto, fingem não entender, fingem não saber para não se pronunciar, por
causa de medo ou conveniência.
Adriano Pires soube muito bem escolher o título desta magnífica obra. Soube, ainda, de forma muito inteligente, fazer corresponder
todo o conteúdo do livro com o título. Mérito muito pouco conseguido hoje, pois vivemos num mundo com muitas produções intelectuais
onde, muitas vezes, os títulos atribuídos ao trabalho têm pouco a ver com o conteúdo, mas não é o caso de Adriano Pires. Por todo esse
esforço intelectual, pela coragem, ousadia, modéstia, hombridade, aceite Sr. Adriano os meus parabéns e faço votos que nunca se
deixe ser corrompido ou contagiado pelos gananciosos e poderosos desta nossa terra que precisam de cidadãos da sua estirpe.  

Este precioso livro deve ter um espaço especial na nossa Bibliotecal, pois, aborda questões pertinentes que despertam em cada um do
seu leitor novos horizontes e novos caminhos para abandonar o egoísmo, a perseguição, a injúria a calunia, a difamação a promoção da
mediocridade, a deixar de fazer o outro tapete, a deixar de atingir o direito do outro, a evitar atingir fim independentemente do meio. Por
outro lado, convida-nos ao altruísmo, a escolher o caminho certo, a respeitar a inteligência do outro, a promover o mérito e a
competência, a não ter medo da verdade, a enfrentar a realidade de frente, a incomodar os gananciosos e poderosos, a ser cada vez
mais cidadão, a colocar o homem no seu devido lugar, a eleger o homem como ser importante na nossa sociedade, enfim a ver no
homem um ser de direito e dever e que merece o seu devido respeito.

O livro e o seu autor merecem ser destacados no nosso meio pela imparcialidade, pois vivemos numa sociedade onde dificilmente o
indivíduo consegue frear a si próprio ou a instituição onde ele está inserido. Adriano Pires adoptou uma postura invejável, coerente
durante toda a sua analise, pois, abordou temas de cariz nacionail e internacional sem, no entrando, deixar de reconhecer os ganhos
alcançados por Cabo Verde em todos os domínios, como também os aspectos fracos, propondo, ao mesmo tempo, caminhos a seguir.
Postura de um cidadão digno e que merece respeito. Adriano Pires, tenha coragem e sapiência e que seja sempre iluminado nos seus
caminhos e que este livro seja mais um entre vários outros que poderá produzir nos próximos tempos. Conte comigo, mesmo à
distância na dignificação, humanização e consciencialização do homem cabo-verdiano e na construção de uma cidadania responsável
embora saibamos que é uma tarefa difícil e nunca impossível. Que continue a desempenhar a sua função de cidadão! Ânimo!
Muito Obrigado a todos e uma boa leitura.
Alberto Nunes

                    Educação e Cidadania – Uma Reflexão Necessária

“Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o
melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante”. Carlos Rodrigues Brandão

A verdadeira educação é, sem dúvida, aquela que constiui a chave mais importante do crescimento, desenvolvimento e progresso de
qualquer sociedade. Todavia, para que ela atinja este objectivo terá de ser liderada/conduzida por recursos humanos preparados e
capacitados em termos científico, técnico, pedagógico e humano.

Tendo como dados adquiridos que ninguém se escapa da educação, na medida em que ela é praticada na família, na sociedade, na
rua, nas escolas etc. deve-se primar para que ela seja de qualidade para poder constituir um factor de crescimento, progresso e
desenvolvimento. Na sequência desta premícia conclui-se que o educador é um cidadão de excelência e constitui, por sua vez, um
elemento imprescindível na organização harmónica e saudável de qualquer sociedade. Mas, o educador que constitui elemento
imprescindível para o progresso, crescimento e desenvolvimento da sociedade é o preparado, capacitado científico, pedagógico e
humano e que está comprometido com os desafios da sociedade; é o que tem a consciência da cidadania activa e que aje em função
do interesse comum. Tomando estes dois preceitos ( verdadeira educação e educador) como baluarte de crescimento,
desenvolvimento e progresso de qualquer sociedade, pensamos que, tudo se deve primar pelo realismo, pelo concreto, objectivo e
prático. Entretanto, sabemos que na nossa sociedade os que primam pela realidade, objectividade e práxe são apelidados de teóricos.
Pois, assim pensam muitos que já se convenceram que a teoria nunca poderá corresponder a prática, que a lei não foi feita para
cumprir, mas sim, para estar no papel, que a verdadeira realidade e objectividade não existem… Aliás, muitos já se conformaram com
o possível, o facil, o de lucro fácil. Todavia, a verdadeira educação e o verdadeiro educador não podem/devem compactuar com esses
devaneios que caracterizam a sociedade actual. Pois, a educação é um sector de excelência e o educador é, também, um cidadão de
excelência. A educação e o educador são incompatíveis com tudo aquilo que deixa transparecer mediocridade.

Nesta linha de reflexão devemos dizer e, sobretudo alertar que no sector da educação a escolha para a composição dos orgãos
centrais deve recair sobre cidadãos com competência e mérito comprovados na área e nunca, nunca mesmo sobre indivíduos que
espelhem confiança ideologica de quem está no poder. Tendo os orgãos centrais compostos na base de mérito e competência
comprovados na area, estes devem primar pelo rigor prático e redobrar a atenção às mudanças e transformações efectuadas nas
estruturas de bases no sentido de evitarem o descompasso entre o centro e as bases da educação espalhadas nos diversos centros
do país. As competências educativas já estão definidas. Aliás, estão bem claras: quais as competências dos orgãos centrais e quais
as dos diversos subsectores espalhados pelo territorio nacional. No entanto, vê-se interferência de certas instituições em
competências educativas reservadas aos orgãos centrais. Neste momento, percebe-se com nitidez a tentativa de muito poder local
transcender o âmbito da sua competência, tomando decisões no sector da educação de acordo com interesses meramente
confusos. Muitas decisões que devem ser tomadas pelos órgãos competentes credenciados para tal são tomadas pelo poder local
não em função das necessidades locais. É perigoso quando na educação as decisões são influenciadas por interesses omissos!
Quando assim é, o professor/educador, a sociedade civil, as famílias, as outras instituições públicas e privadas têm um papel
importante na fiscalização de todo o processo que prima para a qualidade da educação no país. Afinal, a fiscalização do processo de
crescimento, desenvolvimento e progresso da sociedade constitui um dever inalienável de todo e qualquer cidadão
independentemente de estar ou não inserido nesta ou naquela instituição ideologica. O cidadão deve adoptar uma postura crítica em
relação a tudo que não é justo, que não é transparente, que não abona a sociedade; a tudo que visa resolver capricho de indivíduos
gananciosos que nunca tiveram iniciativa de se prepararem para assumir determinada responsabilidade. O sector da educação não
deve ser visto como lugar de “ganha pão” ou de promoção pessoal e nem o educador/professor deve procurar o professorado como
profissão. Educador/professor é vocação. Pois, quando assim é entendido e praticado, há sempre trabalho e trabalho eficaz, há
responsabilidade, há competência e não há mediocridade. Muitas vezes, em conversas informais com colegas já dissemos, em
função da postura de certas instituições que já começamos a perder confiança em algumas instituições e que no entanto, temos forte
fé e convicção na igreja e Universidade, instituições que por essência devem ser imparciais e justas. Pois, no dia em que estas duas
instituições entrarem na corrupção e mediocridade devemos, também, como cidadão desistir da crítica e de lutar, pois será o fim de
tudo – (caos.)

A história da educação mostra-nos que no passado, alguns países, como, por exemplo, o Japão, adoptaram a educação como
estratégia de desenvolvimento e foi um sucesso. Na verdade, Japão é, hoje, um país bem sucedido económico e tecnicamente.
Promoveu, desde final do século XIX, uma educação baseada no mérito e na competência, capacitando seus recursos humanos
internos e, ao mesmo tempo, pô-los ao serviço do crescimento, progresso e desenvolvimento do país. Convêm realçar que Japão só
conseguiu tal sucesso devido ao uso racional dos recursos naturais que eram escassos e dos recursos humanos internos bem
preparados. Só assim, a educação pode, como frisamos no início, promover crescimento, desenvolvimento e progresso. Mas, a
educação que promove crescimento, progresso e desenvolvimento é a verdadeira e sofisticada; inovadora, inventora, ousada, criativa
… conduzida por recursos humanos preparados em termos cintificos, tecnicos, pedagógicos e humanos.
Relativamente ao nosso país, apesar de laicização da educação, ela não surtiu os efeitos esperados porque, nestes últimos anos,
tudo fica bipolarizado, tudo funciona em função de interesse ideológico de quem tem mais poder e, assim, o cidadão não preparado
que quer algo que o leve ao destaque aproxima-se ao poder, pondo de lado princípios que norteiam o equilíbrio social e consegue ser
destacado independentemente de requisitos, resolvendo, deste modo, seu capricho e passa, por faltas de requisitos necessários, a
atropelar o crescimento, progresso e o desenvolvimento do país. Os orgãos competentes do sector da educação, cidadãos, as
instituições públicas e privadas, as famílias etc. devem assumir uma nova atitude em relação à educação tornando-a um factor chave
de progresso, crescimento e desenvovimento da sociedade. Devem ainda, orientá-la no sentido de incomptabilizá-la com tudo que é
mediocre, estupido e violento. Ela é cautelosa, humilde e dialógica. Por conseguinte, o educador/professor não deve agir em função da
violência, estupidez ou insensatez.

Na educação não deve haver espaço para impor seja lá o que for. Nela tudo deve ser decidido a base do diálogo. Nela, a
responsabilidade deve ser assumida pelo cidadão de forma democratica. Esta responsabilidade não pode ser de confiança partidária.
Pois, a educação é, por essência, um espaço de mérito e compentência. Nela, o mérito e a competência devem sobrepor toda e
qualquer tipo de confiança e subterfúgio dos gananciosos. Ninguém, deve assumir responsabilidade na educação na base de troca de
favores ou de intimidação com uso de violência. A verdadeira educação e o verdadeiro cidadão educador devem ser sensatos .

Por estas razões e a bem de uma sociedade sádia, harmónica, desenvolvida, progressiva e justa, defendemos que na Educação as
decisões devem ser ponderadas, estudadas antes de serem tomadas pelas entidades competentes, pois, uma escolha, uma decisão
errada, pode afectar grandemente uma geração e quiçá comprometer o futuro de uma sociedade. A não ser que almejamos uma
sociedade perversa à aquela que publicamente manifestamos.

Cidade de São Filipe, Novembro de 2009
Alberto Nunes
Feb 5, 2010
     Cabo Verde – Partidos Políticos, Sociedade Civil e Dignidade Humana

                                   A pobreza oprime milhares de pessoas no mundo “ Bento XVI


O homem é, por natureza, um ser livre. Em Cabo Verde, não obstante, ele precisa empenhar-se para enfrentar e ultrapassar a pobreza, a
ganância e o desconhecimento, pois estes três males têm estado a condicionar fortemente a liberdade humana. Deste modo, ele precisa
conquistar a sua independência económica, imbuir-se de valores éticos e morais e, ainda, conhecer as normas que regulam a vida na
sociedade, de forma a evitar a lesão á sua liberdade, direitos e garantias. A independência económica, a aquisição dos valores, o
conhecimento (saber) e o cultivo dessas normas são condições sine qua non para que ele possa desfrutar da verdadeira liberdade. Como
é sabido, nesta sociedade nem todos têm autonomia financeira, cultivam valores e possuem conhecimento dos seus direitos, liberdades e
garantias. Por causa da pobreza, ganância e desconhecimento, muitos não usufruem da liberdade. Em síntese, pode concluir que estes
três males constituem, por um lado, impedimentos para muitos cidadãos viverem na verdadeira liberdade e, por outro lado, constituem
meios para muitos conseguirem ser e ter alguma coisa.

A liberdade é, aqui, entendida como um valor inerente e, sobretudo, inalienável ao homem. Trata-se da combinação e interacção entre as
normas jurídicas, morais, éticas, sociais e religiosas e destas com a consciência sã do próproio. A consciência sã significa que o homem
está em condições cognitivas de distinguir o bem, o bem comum e o mal. Tendo conhecimento da sua liberdade, o homem deve nortear e
viver a vida em função de interesses comuns superiores e deve distanciar-se de tudo que privilegie o egoísmo ou interesse mesquinho do
“grupinho”. Assim procedendo, de certeza, fará corresponder liberdade com as demais regras que norteiam a sociedade. Liberdade,
normas que regulam a vivência na sociedade e consciência sã constituem, por um lado, pedra basilar de um Estado de Direito Democrático
e, por outro, a condição necessária para uma vivência sadia entre os homens.

Entendemos que a liberdade, moral e ética têm em comum, entre outros pilares, a transparência. Nelas não deve haver espaços para
obscurantismo. Assim, num país, como nosso, onde constitucionalmente é consagrado o Estado de Direito Democrático, o governo, os
partidos políticos, a sociedade civil, as instituições públicas e privadas devem trabalhar incansavelmente na edificação e manutenção de
um Estado liberal, democrático, ético e moral. Os ingredientes, característicos de um Estado de Direito democrático, devem ser vividos e
saboreados pelos cidadãos. Vividos e saboreados na prática e não ditos através de discursos líricos e poéticos como tem sido prática
neste país.

É muito perceptível em Cabo Verde que os partidos políticos e a sociedade civil estão aquém das vivencias, das práticas, dos valores e
normas que regulam ou, pelo menos,  devem regular, a sociedade. Entendemos que, os partidos políticos devem assumir uma postura
clara e objectiva que visa, exclusivamente, resolver os reais problemas do país e dos cabo-verdianos. É necessário e, sobretudo, urgente
para o bem do país que os partidos políticos façam coincidir os objectivos e estratégias anunciados nos meios de comunicação social
com os objectivos e estratégias traçados no seio do partido evitando, o quanto possível, a manipulação da consciência daqueles que não
tiveram sorte e oportunidade de cultivar o seu intelecto ou daqueles que uma determinada circunstância da vida (pobreza, por exemplo) os
obriga a concordar e, sobretudo praticar algo que os inquietará pelo resto da vida. Em Cabo Verde, muitos vêem o poder como meio e não
como fim. Meio para muitos serem e terem algo. Algo que fora do quadro partidário seria quase impossível. Nesta tentativa de ser e de ter
algo, dentro do quadro partidário, muitos acabam colocando de lado os valores supramencionados, a Constituição da República e as
normas que regulam o Estado de Direito Democrático.

Quantas famílias já foram destruídas porque o partido ou candidato teria de chegar ou manter-se no poder? Quantas famílias estão de
relações cortadas porque o partido ou candidato teria de manter-se ou chegar ao poder? Quantas boas amizades já foram destruídas
porque partido ou candidato teria de manter-se ou chegar ao poder? Quantos crimes comprovados já foram cometidos porque o partido ou
candidato teria de manter-se ou chegar ao poder…? Preocupante é que os partidos ou candidatos beneficiados com estas práticas não
têm o peso na consciência, pelo menos não o demonstram, que estão no poder devido à destruição ou tentativa de destruição de muitas
famílias, de uma boa relação de amizade, de um bom nome e, consequentemente, dos valores e  principios já mencionados… É muito
perceptível que muitos não se incomodam com práticas erradas para chegar, manter-se ou pôr o partido/candidato no poder. Aliás,
percebe-se  aqui que a desonestidade, falta de carácter, imoralidade, indignidade, crime… passam a ser vistos, dentro do quadro
partidário, como coisas normais. Por isso, vê-se muitos cidadãos que cultivam valores a afastar-se dos partidos políticos e, por outro lado,
vê-se muitos que não foram educados dentro de um quadro de valores a aproximarem-se dos partidos políticos para conseguir ser e ter.
Em síntese, os partidos políticos devem adoptar uma postura mais séria, responsável e, sobretudo uma atitude que coadune com o Estado
de Direito Democrático consagrado na Lei Máxima do país.

É muito perceptível que Cabo Verde não possui, ainda, uma sociedade civil organizada, forte e consciente dos seus direitos e deveres.
Temos ainda, “grosso modo”, uma sociedade que funciona a reboque dos partidos políticos e estes, por sua vez, aproveitam-se, como
estratégia de silenciar os cidadãos, esta fragilidade para camuflar os críticos/activos no partido A ou B consoante o posicionamento
individual de cada um.

Os cidadãos conscientes devem estar atentos às estratégias e atitudes dos partidos políticos. Devem ter a capacidade e prudência
necessárias para congratular-se com tudo que é bom e que beneficie Cabo Verde e os cabo-verdianos, mas também, devem ter a mesma
postura para repudiar tudo aquilo cujo fim devia ser de todos mas que é usado para o interesse meramente pessoal ou partidário.

A sociedade civil cabo-verdiana precisa organizar-se, não em função dos partidos políticos, mas em torno dos reais problemas que
afectam Cabo Verde e os cabo-verdianos e, ao mesmo tempo, ser parte da solução desses problemas. É imperiosa a necessidade da
criação e cultivo, em Cabo Verde, de uma consciência fora do âmbito partidário que possa contribuir para contrabalançar o sistema
pernicioso, bipartidário, já montado. Esta sociedade tem de ser forte, competente e, sobretudo altruísta. Deve primar não para resolver a
ganância de quem quer se eternizar no poder ou de quem quer chegar lá a todo custo. Ela deve ser prudente, inteligente, interessada para
o bem comum e desinteressada em relação a tudo que vise resolver caprichos pessoais e partidários.

Entendemos, entretanto, que não será fácil ter uma sociedade civil organizada, competente, altruísta e conhecedora dos seus direitos e
deveres; uma sociedade civil em que os cidadãos têm uma certa independência económica, conhecimento sistematizado e dispostos a
servir Cabo Verde e os cabo-verdianos dentro de um quadro legal e imbuído dos valores já mencionados; uma sociedade que prima para
labutar no intuito de resolver os reais problemas que afectam o país. Acreditamos, no entanto, que se cada cidadão individualmente, as
famílias, as instituições públicas e privadas, as igrejas, as universidades… começarem a trabalhar seriamente cumprindo
escrupulosamente as suas funções, tê-la-emos, de certeza. Dizia que não será fácil porque, como é sabido, vivemos numa sociedade onde
impera o imediatismo, o lucro fácil, o enriquecimento rápido, o oportunismo, o parasitismo; onde tudo é quase visto como meio e não como
fim; onde muitos querem ter sem trabalhar; onde muitos querem ser sem se prepararem; onde quase tudo que é errado é visto como certo.

Impera, deste modo, a necessidade do surgimento de cidadãos conscientes, corajosos e determinados a frearem ganância de alguns
homens e lutar incansavelmente a favor da dignificação humana. É claro que, estes cidadãos defendidos aqui têm de ter em mente que não
se trata de uma tarefa fácil, mas, entretanto, possível, mas para tal devem peregrinar um caminho espinhoso. O pensador brasileiro Milton
Santos que experimentou e venceu esta caminhada afirmou que “ um homem que pensa, e que por isso mesmo frequentemente se
encontra isolado no seu pensar, deve saber que os chamados obstáculos e derrotas são a única rota para as possíveis vitórias, porque as
ideias, quando genuínas, unicamente triunfam após um caminho espinhoso”. Entendemos que, o cidadão cabo-verdiano precisa
interiorizar e praticar essa experiência desse pensador a bem de um Cabo Verde de todos e para todos.

Caminhamos para o ano das eleições em Cabo Verde: que vença o candidato/partido que a maioria escolher num quadro da verdadeira
democracia e não o imposto à maioria pela fraude ou pela manipulação e compra de consciência! Motivados pelo futuro, estamos aqui.
Cidade de São Filipe, Janeiro de 2010
Alberto Nunes
Set 29, 2010
                                                             
Ilha do Fogo: Conquistas e Desafios

É escandaloso o modo como assistimos à morte do mérito e da competitividade de igual para igual entre candidatos a concursos e postos
públicos. Abraão Vicente

A partir de Dezembro de 1999, decidi dedicar-me ao estudo da História de Cabo Verde e do Fogo em particular. Decidi, desde então, incidir
os meus estudos sobre os problemas políticos, económicos e sociais. Está a ser, para mim, uma experiência agradável. Depois de alguns
anos a vasculhar algumas fontes, a ler alguns documentos/livros e acompanhar, minuciosamente, algumas práticas relacionadas a esta
problemática, resolvi, a partir de 2004, produzir alguns artigos resultantes desse exercício intelectual empreendido desde 1999.

Neste exercício intelectual baseado em documentos pude enquadrar a ilha do Fogo no contexto nacional e conclui, a partir de dados fiáveis
que, até o final do século XVIII ela ocupava o segundo lugar em termos de desenvolvimento a nível nacional. Nessa altura, a ilha de São
Vicente já estava a receber os seus primeiros habitantes, a do Sal teve, ainda, de esperar alguns anos para que, no início do século XIX,
passasse a receber também os seus primeiros habitantes. A partir do final do século XVIII e o início do século XIX com o povoamento,
principalmente de São Vicente a ilha do Fogo começou a conhecer o seu declínio em termos de progresso. Vários factores estiveram e
estão na sua origem entre os quais o conformismo.

O desenvolvimento do Fogo a partir de então passa a ser natural e explica com o andar do tempo, isto é, o tempo passa algumas coisas
foram feitas – gestão corrente. Os pequenos investimentos que explicam, de certa forma, algum crescimento não foram provocados,
aconteceram no desenrolar dos tempos.

No pós-independência, enquanto muitas ilhas conheceram alguns investimentos a do Fogo foi abandonada e esquecida pelos sucessivos
governos, embora na década de 90 viesse a receber três infra-estruturas – Um Liceu, um Aeródromo e um pequeno Cais.  

Ao estudar critica e desapaixonadamente a situação política, social e económica do Fogo preocupei-me muito principalmente com várias
práticas que têm contribuído significativamente para o seu atraso e estagnação durante vários anos e resolvi como disse produzir alguns
artigos dando à estampa a situação aqui vivida e, ao mesmo tempo, reivindicar o direito que o cidadão do Fogo tem no contexto nacional.
Reivindiquei também a nível do Fogo a JUSTIÇA SOCIAL.

Chamei atenção aos partidos políticos, à sociedade civil e a alguns dirigentes relativamente aos direitos, deveres e responsabilidade que
cada um tem na construção de uma sociedade fraterna e justa onde cada cidadão independentemente do seu credo, ideologia, raça e
origem possa usufruir do seu direito, baseando no mérito e na competência de acordo com a Constituição da República e Declaração
Universal dos Direitos Humanos.
Depois de ter escrito vários artigos relacionados com o atraso e abandono da ilha, em Dezembro de 2008, na sequência de concretização
de algumas obras, do lançamento de algumas pedras para o arranque de novas obras e do arranque de outras obras escrevi um artigo e
mandei publicá-lo no semanário A Semana com o seguinte título “ Fogo: O Prelúdio De Uma Nova Era”. Na altura, referia-me ao hospital dos
Mosteiros, Gare marítima, obra de remodelação e ampliação do Aeródromo de São Filipe, Liceus de Cova Figueira e de Ponta Verde, Centro
de Formação Profissional para a região do Fogo e Brava, início de asfaltagem da estrada Salto à entrada do Parque Natural, arranque do
Anel Rodoviário, remodelação e ampliação do Posto Sanitário na então Vila de Cova Figueira, electrificação rural nos três concelhos etc.
Naquele artigo falei de alguns postos de trabalhos criados pelas empresas; falei de forma apartidária de aquisição dos trabalhadores por
parte das empresas; falei da movimentação que a realização dessas obras provocava na ilha dando a sensação do arranque do
desenvolvimento e crescimento de uma ilha que há séculos andava abandonada e adormecida e por último falei dos benefícios que as
obras podiriam trazer para ilha. Hoje, no Fogo relativamente a estes aspectos ouvem-se comentários diferentes dos que têm sido antes de
2008.

Eu, da minha parte, nestes dias, relativamente à electrificação rural fiquei satisfeito com a chegada de energia eléctrica aos povoados de
Baluarte Cima, Monte Preto, Mãe Joana (minha aldeia natal) e Estância Roque. Dou os meus parabéns ao Governo de Cabo Verde, à
Câmara Municipal de Santa Catarina e aos parceiros envolvidos no financiamento e na execução do trabalho. Hoje, estes bairros são
diferentes e proporcionam novas oportunidades aos seus habitantes. Hoje, no bairro que me viu nascer já posso usar meu portátil e
escrever, já posso dormir noites necessárias sem medo ou receio de perder o telejornal, sem medo ou receio de assistir um bom
programa televisivo etc. Sinceramente, tudo isso é para mim, uma sensação agradável. Já não tenho mais pressa de sair do meu bairro
natal. Penso também que os outros conterrâneos que habitam lá ainda têm o mesmo sentimento. Este sentimento e esta minha atitude de
reconhecer publicamente estas iniciativas provam, de certo modo que, quando as coisas funcionam e bem, os cidadãos de bom senso que
acompanham a dinâmica e o progresso sentem e reconhecem esses feitos.

Se nestes sectores houve ganhos significativos à vista de todos, noutros ainda precisam de uma intervenção profunda, revolucionária de
modo que possamos edificar uma sociedade sobre o alicerce da Justiça, do mérito, da competência, em suma, uma sociedade alicerçada
na Constituição da República e noutros documentos normativos do nosso país e não só.  

A Constituição da Republica de Cabo Verde no seu art. 23º diz que “Todos os cidadãos têm igual dignidade social e são iguais perante a lei,
ninguém podendo ser privilegiado, beneficiado ou prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de raça,
sexo, ascendência, língua, origem, religião, condições sociais e económicas ou convicções políticas ou ideológicas”. O texto é realmente
lindo e rico de conteúdo. Entretanto, sabemos que na prática não funciona assim. Quantas vezes já assistimos os governantes a não
respeitarem a opção política e partidária de um cidadão? Quantas vezes assistimos, na nossa sociedade, cidadão perseguido, excluído,
ignorado por motivo da sua opção? Vejam o que passou com David Lima Gomes, candidato do MpD às últimas eleições autárquicas na ilha
Brava…

A ilha do Fogo podia estar num patamar bem diferente do que se encontra neste momento: se houvesse mais respeito pelas opções de
cada cidadão; se houvesse menos injúria às pessoas que pensam de forma diferente daquelas que estão no poder; se houvesse
democracia; se houvesse promoção de mérito, competência e excelência; se houvesse mais…

Como cidadão cabo-verdiano e foguense, fico orgulhoso com a construção do centro de saúde dos Mosteiros; com o arranque do anel
rodoviário; com o arranque da construção do Liceu em Cova Figueira; com a construção do Centro de Formação Profissional para a Região
do Fogo e Brava; com asfaltagem da estrada Salto a entrada do Parque Natural…

Todavia, como cidadão cabo-verdiano e foguense não me orgulho ao ver estudantes reprovados com subsídios para estudarem dentro e
fora do país; ao ver apoios canalizados numa só família, porque os pais são do partido no poder e ver bons estudantes sem subsídios e
excluídos porque os pais têm uma opção política diferente; não me orgulho ver indivíduos sem competências técnicas e sem requisitos a
ocuparem cargos de alta responsabilidade e com salário exorbitante (superior a de um técnico superior) sem ter passado pelo menos
pelo Liceu só porque é militante; não me orgulho ver indivíduos ocupando determinados postos sabendo de antemão que nada vai fazer a
não ser ganhar um óptimo salário só porque é militante ou os pais o são; não me orgulho ver jovens “play boy” trabalhando em empresa e
outros funcionários de instituições públicas com pensão social; não me orgulho ver e ouvir esses jovens a “bazofiar” na rua da minha ilha
dizendo aos velhos e vulneráveis sem pensão social que estes não a têm porque votaram “torto” etc.

É lamentável, é injurioso, é um atentado à intelectualidade ver os nossos governantes descarados e propositados a distribuírem trabalhos
públicos, sem concursos e sem fiscalização aos amigos e militantes contribuindo para enriquecer determinados indivíduos, em curto
prazo com recursos públicos, deixando bons e honestos trabalhadores de fora conduzindo-os à miséria extrema só porque estes últimos
têm opção política diferente de quem está no poder ou na linguagem de muitos porque votaram “torto”. É Triste!  Aos prejudicados/vítimas
deste sistema vergonhoso, arcaico… peço-lhes coragem, paciência e determinação, pois Jesus Cristo e Nelson Mandela são exemplos a
seguir com o espírito de perdão. Jesus no alto do madeiro da Cruz pediu ao Pai para perdoar aqueles que O crucificaram injustamente e
Nelson Mandela depois de cumprir vinte sete anos de prisão injustamente ao sair da prisão concedeu perdão aos que o condenavam e
proclamou uma África do Sul livre e sem vingança. Assim governou durante um mandato.

Não me orgulho com a injustiça
.
Cidade de São Filipe, Setembro de 2010
Alberto Nunes
7 Maio 2011
Historial da Ilha do Fogo – Cabo Verde - Por Alberto Nunes - Historiador

Aspectos Gerais

A ilha do Fogo é a quarta maior ilha de Cabo Verde com uma superfície de 476 km2. Segundo o modelo da administração adoptado da
época colonial a ilha foi dividida religiosamente em quatro freguesias e ou Paróquias: Nossa Senhora da Conceição, São Lourenço, Nossa
Senhora de Ajuda e Santa Catarina. Em termos políticos e administrativos, mais recentemente, foi dividida, em três concelhos: São Filipe,
Mosteiros e Santa Catarina. E, actualmente, a ilha possui três cidades: cidade de São Filipe - em S. Filipe, cidade da Vila de Igreja - nos
Mosteiros e cidade de Cova Figueira - em Santa Catarina.

Trata-se de uma ilha circular, localizada no Sudoeste do arquipélago, com uma topografia que apresenta formas de relevo saliente,
diferente das demais ilhas que compõem o arquipélago. Na região central da ilha existe um vulcão ainda activo, com 2.829m de altitude.
Pode dizer-se que o vulcão constitui o seu cartão postal.

Aspectos Históricos

A ilha do Fogo foi “achada” no dia 1 de Maio de 1460, juntamente com a de Santiago pelos navegadores António de Noli, italiano, ao serviço
do rei de Portugal, e Diogo Gomes, português, no reinado do Infante D. Henrique. Alguns documentos mostram indícios de que Cabo Verde
já havia sido visitado por povos da costa ocidental africana, mormente os jalofos. Mostram também que o arquipélago já teria sido
conhecido por outros povos antes dos portugueses. Todavia, o que prevalece oficialmente, - e que é possível provar - é que foram os
portugueses, os primeiros a descobrirem-no (achamento - 1460) e os primeiros a ai fixarem (povoamento - a partir de 1461/62).
Relativamente à ilha do Fogo o documento mais antigo que se conhece é o de 03 de Dezembro de 1460 em que o então rei de Portugal D.
Afonso V doou ao Infante D. Fernando as ilhas do Atlântico, identificadas na altura, onde estava incluída a de Sam Felipe, o primeiro nome
da ilha do Fogo. Mais tarde, mesmo no início do século XVI, devido à erupção vulcânica, a ilha passou a ser chamada de ilha do Fogo
(Valentim Fernandes, 1508).

O povoamento do arquipélago começou pela ilha de Santiago. De acordo com a Carta Régia datada de 12 de Junho de 1466, o povoamento
de Santiago iniciou-se a partir de 1461/62 com povos vindos da Europa e da Costa Ocidental africana. A ilha do Fogo foi a segunda a ser
povoada e o seu povoamento situa-se entre 1480 a 1493. Aceitamos essa data tendo em conta que em 1480 o mercador francês Eustache
de la Fosse tinha passado por Cabo Verde e diz-nos que as ilhas são dez e apenas uma era habitada, referindo-se obviamente à de
Santiago. Já em 1493 foram enviados objectos do culto divino e uma parte era destinada à Igreja de São Filipe na ilha do Fogo. De acordo
com Ilídio Cabral Baleno “a iniciativa do povoamento do Fogo parte livremente dos moradores de Santiago”. O povoamento da ilha do Fogo
processou-se em quatro etapas: 1ª São Filipe, hoje cidade de São Filipe, no final do século XV e inicio do século XVI; 2ª São Lourenço do
Pico, actual freguesia de São Lourenço, no inicio do século XVI; 3ª Mosteiros, a partir do século XVII e 4ª Santa Catarina, século XIX. De
acrescentar que, no povoamento da ilha participaram povos vindos de Santiago, da Costa Ocidental Africana e da Europa. Seu povoamento
iniciou-se pela região de São Filipe e acredita-se que as primeiras construções edificadas no Fogo sugiram no espaço onde foi construído
o cemitério denominado “cemitério de baixo”, ao lado da ribeira de Nhô Jerónimo, na sobrancelha da praia de Fonte-vila (1º porto da Cidade
de São Filipe). Hoje, para se encontrar as ruínas das primeiras construções exige-se dos interessados um trabalho redobrado. Todavia, há
que destacar o meritório trabalho da investigadora Gilda Barbosa que tem batalhado incansavelmente com objectivo de colocar à
disposição dos estudiosos documentos e dados que nos permitem trabalhar com mais segurança e desmitificar mitos e inverdades
construídos no e sobre Fogo ao longo da história. O primeiro núcleo foi se expandindo, atravessando a Ribeira de Nhô Jerónimo chegando
ao Fortim Maria Carlota, à pracinha da actual Igreja Matriz, dedicada à Nossa Senhora de Conceição, alargando até ao espaço hoje
denominado praça do presídio. Com o andar do tempo, criou-se um espaço populacional denominado “Bila Baixo”, ou centro histórico da
Cidade de São Filipe.” Bila Baixo” é uma expressão usada, porque com a expansão do povoamento dentro de São Filipe criou-se um novo
espaço com características diferentes das do centro histórico denominado “Bila Riba”, separados por um paredão no Alto São Pedro.

No início do século XVI com o desenvolvimento do comércio entre Portugal, ilha de Santiago e Costa Ocidental da África e, no intuito de
incrementar a actividade agrícola começou a ocupação das regiões agrícolas em São Lourenço do Pico, o primeiro espaço agro-pecuário
da ilha do Fogo. As regiões de Monte Tabor, As-hortas, Pico Pires, Serrados, Pico Gomes… começaram a receber os primeiros cultivos de
algodão, urzela, vinha etc. Ainda no início do século XVI, de acordo com os apontamentos de Monique Widmer, a ilha do Fogo “apresentava-
se como grande produtora de algodão, com fabrico artesanal de panos, produção agrícola, gado, criação de cavalos… muitos navios
estrangeiros por ali passavam… comércio activo, sobretudo com a Costa da Guiné, onde, em troca, adquiria-se mão-de-obra escrava para
as lavouras”.

Depreende-se que, a partir do século XVI, a ilha do Fogo passou a ter dois espaços bem definidos: São Filipe, encarado como espaço
político-administrativo e São Lourenço do Pico como espaço agro-pecuário. Graças aos produtos agro-pecuários produzidos na região de
São Lourenço do Pico, a ilha do Fogo manteve uma forte relação comercial com a ilha de Santiago, Costa Ocidental da África e Portugal.
Nessa relação comercial Fogo, Santiago Costa Ocidental Africana e Portugal a ilha do Fogo não teve a mesma sorte que a sua vizinha ilha
de Santiago. Se não Vejamos: Enquanto para Santiago os lucros dessa rede comercial era investido na ilha, no Fogo o lucro revertia-se a
favor de Santiago e da Coroa portuguesa. Essa medida afectou grandemente o progresso da ilha nos seus primeiros momentos de
povoamento. Entretanto, apesar desse constrangimento verificado, a ilha do Fogo deu passos significativos ao estabelecer relações
comerciais com Santiago e Costa Africana, utilizando como mercadoria principal algodão, e com o Brasil embora, em menor escala, o
comércio do vinho. Até meados do século XVIII o vinho do Fogo era exportado para o Brasil. Foi também nesse século que Marquês de
Pombal, com objectivo de proteger as vinhas do Alto Douro, mandou ordenar, primeiro, a proibição de exportação do vinho para o Brasil e,
no geral, para o estrangeiro, e depois, a pura e simples destruição de todas as cepas na ilha.

Escusado dizer que essa medida brusca mexeu, sobremaneira com a dinâmicada economia do Fogo e de Cabo Verde. A situação sócio-
económica do Fogo complicou-se ainda mais nesse período com o povoamento das ilhas de São Vicente e do Sal. Pois, o povoamento de
São Vicente e a forte dinâmica do Porto Grande atraíram a atenção do então governo e a ilha do Fogo foi, simplesmente, abandonada.
Com a introdução do café no final do século XVIII, na região do Monte Queimado, no Concelho dos Mosteiros e com o restabelecimento do
comércio de vinho com o Brasil nos meados do século XIX a ilha começou a ressurgir em temos económicos. Entretanto, a primeira
metade do século XX foi marcada por vários períodos de fomes e seca como por exemplos: 1903-1904; 1941-1943 e 1947-1948 etc.

Trata-se de uma ilha com forte tradição cultural ligada às festas de romaria tais como as de: São Sebastião (20 de Janeiro); São João (24
de Junho); São Pedro e São Paulo (29 de Junho); São Filipe (1 de Maio) entre outras. Reconhecida também como ilha dos sobrados a partir
de 1910.

BIBLIGRAFIA

ALVES, Miguel, Cabo Verde, Ilha do Fogo, São Filipe, Sua evolução até à categoria de Cidade, Sobrado que sobrou, Edição do Autor, 1992
PEREIRA, Daniel A., Apontamentos Históricos da Ilha do Fogo,@ Alfa-Comunicações Lda. Praia Cabo Verde
SEMEDO, José Maria & TURANO, Maria R., Cabo Verde: O Ritual das Festas das Bandeiras da ilha do Fogo,IIPC,2007
VÁRIOS Autores, História Geral de Cabo Verde, Volume I 2ª Edição, Lisboa 2001
WIDMER, Monique, Apontamentos Casa da Memória
Ilha do Fogo em Cabo Verde esta em cima do vulcao os seja tem origem vulcanica