UM LUGAR  DA COMUNIDADE E PARA COMUNIDADE
SOCIO-CULTURAL
Irmão de crenças e pouco mais


Tenho estórias, em versos bucólicos mas lacónicos, para contar
– soprado num fôlego e da minha maneira -
de um amigo
- feito pelo sangue e pouco mais –
que eu meramente conhecia,
apesar de juntos vivermos, desde os mais
antigos e relembrados tempos.

Nasceu algures; mero é o nome do lugar que não interessa,
rodeado de pedras vulcânicas; de valores que pouco importa.
Ele, porém, carregado de obrigações, cresceu astuto e sem pressa,
mas as suas façanhas, travessuras e proezas,
não chegaram ao nobiliário das ilhas
- isso teve tanta graça que,
até a afronta se se pendorou na praça -
mas rodeou-se de amigos que o mundo comporta.

Não obstante o passar dos anos
- sem conta, senão por um tempo –
eu, sem ver a sua alvura embrulhada num vento
- seco, forte e presistente, mas contente, soprando da infância-
não consegui divisar a sua candura
que era fustigada, mas com ternura,
pela maresia da nossa inocência esborrada
nas ilhargas da nossa ilha amada mas, desditosamente apátrida

Contudo, resistimos; agachados
sob a frondosa sombra de uma árvore que,
até ainda disputa, argutamente com a natura,
pela conquista do direito a sua vida
- pois, agora é a altura de pararmos com a fuga para erguer a labuta -
para a deslembrança daquela vida ingrata que,
agora, lhe rende o dever à curiosidade
de fazer perguntas ousadas em direcção ao trono da sapiência.

Aprendeu a lidar com a vida, que lhe foi madrasta,
mas ele lhe conquistou a estima
-  foi só o que bastou, viu-se logo, quejando encheu-se de astúcia -
para sufragar o sonho que teve desde a nascença,
e, assim, vestiu-se de esperança
-  foi só o que gastou para abrir as portas da razão-
que lhe deu o dom, divinamente lícito, de repôr a visão
na infinita plenitude     

Não sabia do seu ímpeto,
rumo as terras socráticas,
e nem preconizava a sua coragem,
para rimar com os deuses a Cândida-dôr da partida sem regresso
-  pois, a sua luz não se reverberava neste mundo imponderável-
que, no entanto, lhe tinha oferecido o entendimento, assim grátis,
- para crescer mas ficar inocente,
para aprender mas ficar míope
e para sofrer e ficar contente-
mas, entendeu manter este segredo
fechado a quatro chaves,
negando ao mundo o seu pronúncio

Um outro irmão meu, porém, alvissareiro,
o denunciou com versos silábicos à entrada da sua casa,
quando, ele empunhava no peito as doloridas notícias, mas veristas
- que levou eternidade aos sábios e muitas dores aos consternados -
para dedilhar as premissas batizadas pela criação que foram
ocultadas aos empáfios e aos vesgueiros das letras, ciências e dogmas;
as maravilhas deste mundo, em versos dialécticos
que é a paradigma da dualidade;
– germinação da morte no ressurgimento do nada; esta
argamassa do amor que mata, é a dôr que te sustenta-

Sim irmão de sangue e deste mundo de crenças,
o conhecimento, assim como os teus sentimentos, se encontram,  por vezes,  
- enxuto, vetusto, e de luto -
mas, no entanto, eles, às vezes também são,
- dinámicos, novos e jubilosos -
como festeiros
que trocam de tom e de som, rendilhando-se nas suas harmoniosas músicas
– ecos primordiais da existência que, humildemente os faço
os tenidos dos meus sentidos pêsames -


E agora, com a razão subjacente à dôr, sincronizas
as leis e a melancolia com as régies-últimas
protegendo as emoções das incertezas,
- que, para além da razão, estabelece o seu reino –
este enigma que atormenta o espírito belo, mas por ora triste
e o provoca com ambiguidades profusas,
- saudades que coroam o teu mundo -
de formas, de cores e de sons caleidoscópicos

Mas, mesmo assim,
- com este pélago da tristeza sentida no coração -
não te desanimes com as danças do paradoxo.
Não te deixes enfeitiçar pelas disgnosias
dos menos e dos mais entendidos sentimentalistas.
Continuas no teu caminho, rumo a gnose,
- terra que há de te libertar –
deste manto escuro e pesado da dôr
- da mãe falecida e da ignorância reflectida –

Deixe, sim, esta germe da curiosidade crescer,
este impulso de coragem nascer
para assim te elevares aos mais altos
-cumes da existência e do consolo-
que, com certeza, hão de te libertar e aliviar,
pelo menos por um tempo e muitos anos  

Não deixes esta ambição fugir dos recantos do teu ser, que
- é ainda frágil e ingénuo -
nestas andanças de desenvencilhar os segredos dos deuses cronistas,
criadores lendários do sofrimento e da incógnita que se tornaram
–  em espírito-matter da existência -

De saida, voltei e vi o teu ser sentado,
encolhido naquela cadeira de rodas - sózinho,
fitando algo invisível por entre os amigos que te rodeavam
– olhar pairado no nada-
Saudades da mãe que partira,
angústia deste mundo serpejante que ninguém te tira

Candin-di-Cando-di-Mamá-di-nhô-Cando
Junho, 2009
Nov 11, 2009


                                            25 de Novembro
                 A festa da Paróquia  dos “desparoquializados”

1. A chuva fria beliscava miudamente os meus ombros. Dei um curto “trote” – assim como dizem as pessoas da minha terra -
pulando sobre umas pequenas plantas, quase mortas pelo frio de Novembro, para depois chegar ao pórtico, ao lado da casa
funerária, aonde o meu sogro se encontrava a falar com um velho amigo meu dos tempos do Liceu. Eles estavam
acompanhados de algumas pessoas, maioritariamente homens, que se aproveitaram desta pequena galeria para, não só se
abrigarem da chuva e do frio, como, também para evitarem de emprenhar os seus sentimentos da melancolia, trazida pelos
melindrosos choros dos familiares do falecido. Isso era também a minha ideia – resguardar-me de emoções fortes. Todos se
encontravam vestidos a praxe – homens, de fatos e gravatas, e as poucas mulheres, vestidas de negro. A conversa, que por
vezes era acompanhada de gestos orchestrados com rispidez, não era para galardoar, como é o uso em momentos desses, o
malogrado, relembrando das suas boas façanhas feitas quando andava nos mundo dos vivos. Mas, era, sim, para dar acento,
tonalidade, e portanto côr à uma outra estória que se queria dar enfase, tentando influenciar a audiência desatenta – próprio
do enredo e costumes das nossas gentes emigradas em tempos da ociosidade. E essa estória, pelo drama teatrado e vestido
de gestos, parecia, à distância, muito importante e imbuida de muita emoção. Consequentemente, o meu escape emocional
falhou o alvo

O assunto, que me surpreendeu sobremaneira, biforcava-se em duas vertentes concomitantes.

2. Primeiro, a organização e os arranjos da festa de “nha Santa Catrina”  encontrava-se ou encontra-se, “ao Deus dará”,
segundo os interlocutores mais novos, apesar deste evento se encontrar “na solera porta”. A Câmara local não adiantava
dicas nenhuma sobre o assunto. E, para alguns rapazes ali presentes, tudo aquilo cheirava a malandrices. Coisas da política,
diziam. Mas, as suas explicações afrontava a razão com discrições languidas e um tanto ou quanto complexas para quem, tal
como o edíl que temos, não tem traquejo suficiente para tanto maquiavelismo espangido em poucos tempos. E portanto, como
defendia os mais velhos, já que o poder local não podia, ou não queria fazer nada, então cabia aos munícipes mais
responsáveis e os mais esclarecidos - a palavra esclarecidos fora usada com ligeireza – não se sabia se se referia ao poder
financeiro dos santacatarinenses ou, se se referia à savoir-fair dos mesmos -  pegar o boi pelos chifres – assim como dizia o
meu sogro que, com uma destreza pouco habitual, saltitou para rua – e pam, com o clicar dos dedos, resolver o assunto.

Ora, assim como sempre acontece com os semi- intelectuais em regime de part-time, essa conversa não tardou em seguir a
lógica do costume -  enveredou-se para a política, ou será para as tagarelices de terra queimada?

Como os deméritos dado à actual Câmara não eram suficientes para colmatar a raiva dos queixosos, então, pantearam-se da
inteligência e arranjaram, repentinamente, um bode espiatório; uma desculpa remota para o descalabro em que o concelho se
encontra – esta era uma forma engenhosa de re-equilíbrar a síncope cognitiva em que se meteram, após terem deixado as
suas emoções desfraldarem-se, tornando-se dono das circunstâncias.

3. Nós? Culpado, de quê? Espantado e acabado de chegar da rua, meio molhado pela chuva e meio atordoado pela retórica
do grupo, perguntava, com os meus olhos a rolar de um lado para o outro, à procura do fio da meada deste convoluto debate
que se fervia no meio de tanto frio que se fazia sentir lá fora. Mas eles retorquiram – voçês, sim. Todos aqueles que deixaram
abandonados e despresados a terra, etc...etc, esquecendo das suas gentes e mostrando muito desleixo para com as
responsabilidades...etc...etc.

Mas que tarde vespertina!  Pelas ruas havia chuva de água fria, no entanto, cá dentro, chovia acusações despropósitadas,
pensei. A propensão do raciocínio deste pequeno grupo era, no mínimo, muita elástica. Rebocar do passado as emoções
mortas, para, depois justificar a afronta do presente. A lógica acabou de entrar de férias, conclui, resignadamente.  

Esses eram os remoques dos velhos tempos; o martelo de guerra que fora enterrado há mais de quatro décadas; esquecido
por muitos, mas que agora, por virtudes bisonhas, uns o quer desenterrar para o re-erguer, mais uma vez, tentando reformar,
ou talvez repor, algo -  ninguém sabe concretamente o quê – uma enigma? - que outrora fora descabido.

Entendia, sim, até certo ponto, as frustações que se derramavam em catadupas, e em cada palavra pronunciada
carregadamente das bocas santacatarinenses, ali presentes, especialmente numa época dessa, quando a nossa identidade
sócio-cultural é posta à prova.

4. As minhas raizes estão por lá enterradas - está certo. As minhas lembranças da meninice e os meus traços culturais são do
fenotipo foguense – isto é mais que clarividente. Mas, não me sinto assim tanto “paroquialista”- no sentido socio-politico do
termo - como os outros que lá costumam ir brindar a festa de Nha Santa Catrina. Outrossim, eles têm mais anos de lidas e de
experiências com as gentes da minha ilha e, por consiguinte, mais amizade, o que é natural. Mas não deixaria de afirmar que
os meus poucos e tenros anos da vivência naquela terra que amo, também me enchem o peito – a paridade do amor à terra,
entre nós, claro, não podia ter a tal ambivalência, não é? – e portanto, a bazófia do meu apego para com a ilha não é tanto
grande, (aprecio comedimento) tanto quanto como daqueles que lá viveram por muitos mais anos do que eu.

5. Mas, amigos, como esquecer dos meus primeiros anos de vida? Isso é uma aberração de tamanho do mundo; falar de
desprezo e da incúria? Isso então é o cúmulo de insensatez. Resmunguei injuriadamente, voltando para o velho amigo do
Liceu que, por espanto meu, concordava com a síntese da conversa – ou lamúria do grupo? - Aliás, ele até ia mais longe,
afirmando que não só o partido do actual governo tinha abandonado o Djarfogo. Nós, segundo ele, especialmente aqueles que
tinham saido há muito tempo da ilha, também tinham esquecido do ninho. Terminou, taxativamente, o reencontrado amigo.

Não tentei derrubar esse argumento que fora sufragado em meu desfavor, pois, sabia que essa opinião não tinha base
racional. As suas emoções falaram mais alto. E quando assim, não há explicações que chegue para repor a objectividade na
conversa. Aliás, o propalado efeito benéfico da “democracia”, em causas de cariz emocional é, no mínimo, nebuloso - tal como
diz o adágio – “a quantidade de opiniões não é o critério da verdade”

6. Não me é habitual estar a delinear prosas, mormente poesias, para serem publicadas na banda-larga – nessa praça pública
desguardada - uns, de libido denodado, diriam. Mas, apesar dessa apreensão factual, e portanto justificada, a intrepidez
causada pelo desafio lançado pelos amigos, me enche o peito dando me o brio necessário para compartilhar com os
santacatarineses os meus ensejos, desilusões – e porque não? - também as minhas saudades da terra natal.

Vale a pena – após desta troca de impressões, se assim o podesse caraterizar - vos dizer que, não despi as roupas que a ilha
me tinha dado quando ali nasci e cresci - esses hábitos, costumes e experiências que comungamos das nossas gentes, da
nossa terra - dos seus algerozes em tempos das azáguas; dos nossos passeios por entre o milharal; de “guarda corbo no som
de Tchapalate, dos gorjeios dos pássaros em Cabo Nhanduca e em Rotcha D’arco; dos voos rapantes de “passinho de mar”
na Ruberinha; dos mugidos dos animais no Matinho; da Canizade; dos Renados; dos “cudin bachons” da Néné de Arcanja; das
estrelas fugidias sobre o vulcão, nas tardinhas do cambar de sol; da procissão no dia de Nha Santa Catrina... e de tantas
outras lembranças do nosso Fogo e Cova Figueira que povoam tanto o meu, como os vossos eu(s).

7. Não amigos, não esqueci do meu  berço e nem esqueci daquele lugar ingreme onde nasci. Não somos os
“disparoquializados”  como alguns pensam. Carrego comigo o nosso Fogo. Ele fez de mim muito daquilo que hoje sou. Em cada
dia que passa uma lembrança que às vezes transcrevo, e outras vezes as guardo no peito. Elas são memórias, não só dos
lábios molhados pelo beijo da namorada, assim como cantam os poetas, mas ainda são rabiscadas de saudades, provocadas
pela recordação quando a inspiração ataca. Deixo convosco um desses filhos dessas tantas recordações(voltarei):

C. Henriques veiga
~~~~~
Hino de um Emigrante

Ando com um barco a remar
neste peito meu a chorar para o mar
a procura desta Terra minha
que a muito tempo esquecido tinha.
É Cabo Verde, aqui, no meu leito a chorar
~
Ando com um barco a navegar
neste peito meu salpicado de saudades
deste Baluarte que não consigo olvidar
deste amor que tenho para lhe dar
~
Ando com um barco a velar
neste peito meu sangrento, sem lar
nesta angústia de separação, sem par
para quem escrevo estes versos, a clamar?
É Djarfogo para além de ultramar
~
Se um dia a sorte me abençoar
com o meu barco um novo rumo vou tomar,
que o destino seja aonde o coração me levar
e que Deus me guia até eu lá chegar
ao porto de Alcatraz com meu bote a remar
~
Cova Figueira
de mim não esqueces
Mãe que tanto te padeces
das ausências dos filhos que muito carecem
das tuas queridas e esperadas preces

Cândin di Crizanta di Quina-Carolina-Nha Guida
(Férias no Fogo - Verão de 96)
Nov 17, 2009
                                                                          
POEMA AOS SANTACATARINENSES  

Aproveito esta oportunidade para dedicar este poema aos Santacatrinenses, mais em particular, aos Figueirenses
que, de uma forma ou de outra, se encontram no processo de celebração da festa de Nha Santa Catrina. Sei que,
como eu, eles sentem as picadas de saudades em momentos solenes tal com este - 25 de Novembro.


Cova Figueira
~
Este vale, por entre mar e céu, repletas de figueiras,
plantadas no meu peito, aqui, à minha beira,
povoas as minhas memórias, de que maneira,
como só tu sabes fazer, ô mãe matreira
~
Berço meu! Berço meu!
acantonado por este emblemático monte;
nosso clemente castelo,
que ergue ao céu e passa por aquela Ponte,
para onde correm as tuas lágrimas, à caminho da fonte,
que é o repositório das mágoas dos teus filhos,
para além dos teus horizontes
~
Cova Figueira!
Lugar ingreme de infantes e almadinas memórias.
No meu peito gravado as tuas indeléveis histórias,
no meu ser brotado as tuas mais inesquesíveis Jóias;
plantadas por ti, nos tempos das nossas glórias;
agora são estóicos faróis,
nas brumas noites das inglórias   
~
Cova Figueira!
Tu és a minha legítima herdade.
Como dói e aperta as minhas saudades;
essas mágoas que entristecem sem piedade,
a face pura e singela da minha predileta cidade;
esculpida nas entranhas nuas e osseas,
mas sem maldade,
naquela ilha de fulgor, ninho da minha natalidade.
~
Terra minha,
que ingrata e inexaurível é essa distância!
Mas, na minha mente repousa os ensinos da infância,
que semeastes, com a  profecia da tua ânsia,
de guarderes por perto, o tesouro e a  lembrança,
destes teus filhos que, com a remível consolança,
hão de voltar para abraçar num gesto, de infinito elegância,
o teu corpo sensual; beijando a tua alma, alvacenta e mansa

Cândin di Crizanta de Chalé di Mámá di Nhô N’tonim
(Férias no Fogo - Verão de 2000))
Nov 23, 2009


EM HONRA DE NHA SANTA CATARINA FOGO

Baluarte!

Como minha derradeira oblação (dádiva) à terra natal, nesta quadra festiva de Santa Catarina, não quería deixar de prestar
uma homenagem poética à terra que mais marcou a minha meninice: Baluarte - a terra do meu querido pai.
~
Baluarte Visitou-me

Chilreios de uma manhã, clara e ríspida de domingo, quando, o sol;
esfolhando os seus raios, se poisou mansamente nos meus olhos,
apoquentando o meu manso sono, com a fresca brisa do Abril.
Ele, de mansinho, forçou, as volúveis grades do meu eu,
libertando as tuas benditas e efemérides recordações,
até que, a própria beleza, cerimonialmente, se encolheu.
~
Pelos primeiros rasgos de memória, sobias lentamente,
com esta mansidão de um eterno amor fraternal que enalteçe
o meu sonho e acorda as tuas afáveis lembranças.
As imagens, espalham-se por esta fértile e mental planície –
somos assim tantos, ó veigas! - deste baluarte imerso nas saudades
e preso aos olhos, encharcados de clamorosas lágrimas de separação
~
Baluarte!
Ês tu? ó velho amor meu, batendo à porta da letargia,
acordando amores guardados, por entre as incertezas do sono.
Este sono (ausência) que fora indusido pelo falso e ingrato destino;
separando as águas dísparas para roubar da virgem mãe
dos baluartenses, os rebentos barões, agora assina, nos confins do mundo,
contratos com deuses amorfos, para fazer guerra à progénie.
E, lampejando sem parar, a memória saltita, festejando a lembrança.
~
Acordei, e, no primeiro fôlego saiu o teu sagrado nome: Baluarte!  
Ecoando por entre os lençois e o raspar das folhas do carvalho,
no meu quintal plantado, coberto deste teu puro azul marinho,
que atormeta o meu peito e engoda a saudade;
o som do teu nome ressoava, fazendo-me lembrar
do teu  baloiço que me ensinou a sonhar, com o teu bonito céu
~
Sózinho alí deitado, sabendo que esta realidade matinal
não era mais do que um sonho, donde as tuas angélicas vozes
da profundeza chamam me para este encontro há muito adiado.
E, pela enfadonha distância do tempo que não passou,
e pela tua  presença, por entre as folhas com orvalho, que não secou;
as tuas imagens ficaram retidas nas fecundas almas dos teus fagueiros filhos  



~
O vento, a murmurejar, fazendo ranger as tuas janelas,
corria suavemente sobre as lavas negras dos meus pêlos,
pulando o cheiro do teu pó, pelas curtinas do meu quarto,
trazendo o sabor do teu corpo, para saciar as saudades da infância.
Porque me atormentas ó saudades,
se bem sabes que esta recordação me alimenta
- este Baluarte, minha Dulcineia, é um amor que não abdico -
~
O cantarolar das aves do monti Lela, aqui ao meu lado,
neste passeio virtual, pelo Cabo-Nhanduca, no meu quintal.
Separação feita, sim, mas, esta é uma ilusão que nunca mais será desfeita,
apesar desta imagen ser apenas presente guardado
na mente do meu eu; filho legítimo deste berço de beleza sem igual
~
Esta brisa mansa que acalenta e anima a tua singela face,
pela janela sobe,  bofeja e limpa a alma inquilina de Deus;
originário de monti Pelado e ruivo como o teu ser,
que fez o meu eu, e alberga no teu, a minha essência, será
o quinhão deste menino mimado, criado e moldado,
pelas tuas santas mãos que, algum dia
hão de te careciar e beijar,
num infinito gesto de um amor filhal

Cândin di Cândo di Pedro Nhá Sacorro
Tempestade na Praça da Desgraça

Uma leve ansiedade pairava nos mares turvidos
quando a história suspirou, folegando a raiva sem vénia,
deixando escapulir da garganta seca os sons atrevidos
que alertaram os veleiros da porcelosa ventania
que soprava dos tempos, há muitos séculos idos
e, com a âncora à popa,  
a desgraça aponta para os capitães vendidos  
~  
A solene, grave e omnipresente crispação
resolveu, na sua enorme constância, manter tensa a corrente
para socorrer das lamúrias e das falsas exuberâncias
as sizígias dos homens, que se imbuiram em actos consuetudinários
cortando resvés os mastaréus para calar os marinheiros arguentes  
~
Rumores seguiram a pegada do hábito que se perimiu
fazendo do pobre, um nobre, cobrindo-lhe de cobre
fincando-o, depois, como espeque, na altura que se caiu
pois, a embófia foi espezinhada pela argúcia  
que se virou podre
de tanta usura fraturada que se ruiu  
~
Choros – prantos de dores em casas sem tetos
quando descobriu-se que os avós ficaram sem netos
pois, estes foram hipotecados nos balcões da farta algibeira
que abriu a bolsa engolindo, a prazo, a roubalheira
obnubilando os seguidores de caminhos e linhos rectos   
~
Coros – prantos de alegria em casas de vetos
quando descobriu-se que os aqueloutros avôs ficaram com os restos
que sobraram das pilhagens feitas em manobras eleitas
pelas sondagens das leis nos lugares das urnas, feitas.
e assim se consagra a oblação  
que fora remida em tempos de votos  
~
A tempestade da riqueza amansa-se para além dos íris arcos
enquanto a âncora, preguiçosamente, se encolhe sobre o cais.
a sua bravura chora, copiosamente, da morte dos pais
que deixaram o barco, desgraçadamente, à deriva nas baias
ao mercê dos ventos e das querenças vadias
dos salavancos e das marés tardias;
esse enchente das águas que não levanta todos os barcos
29 Nov. 2013
                                              
                                                           Por Entre a Poeira e a Puerícia

1.      Entrei. E sub-repticiamente engolfou-me o surreal, o inesperado. Era como se o ténue véu que separa o passado do presente; se esse tal
vespertino enigma existe, tivesse sido levantado, suspendendo as irrefragáveis malhas do tempo, para transportar-me ao país d’ontem, à república da
meninice.

2.     No limiar,  rostos e olhares que uma vez tão bem conhecera, me receberam dubiamente – ao que parece não me tinham reconhecido a priori.
Mais além, nos recantos do quarto, encostados à tristeza, dois homens. Dois impérios do tempo que fora. Poderiam eles – agora tão fransinos e
enchidos de dias - suster o peso da noite povoada de emoções e de questões levantadas pelos presentes ávidos pelas respostas?

3.     À minha direita o espavantoso vaticínio da remota meninice. Lembro-me que da sua boca sempre sairam sílabas negras. As noites da minha
terra, quando dele dependiam, foram sempre pesadas. Mas agora, após décadas a publicar lendas e mitos, vem ele estear-se em prenomes. Jactar-
se a cognomes que em tempos idos, desleixadamente abandonara. Um gabarito à moda antiga. Lembro-me que a sua tétrica reputação fora tão
enorme, como o breu desta noite leve não é.

4.    O fato, que malmente assentava-lhe no corpo, e por isso mesmo abanava-se lentamente, era preto. Os seus passos, d’outrora certeza e
causadores de pandimónios muitos no meio da meninada, viraram-se vagarosos, flácidos e incertos. O seu corpo, que outrora pensavamos ser de
enxofre, rangia-se, como se fosse um pesado fardo d’ossos, ao deambular-se de um lado da sala ao outro.  Olhares curiosos fitavam esse homem
de cabelos cãs, no seu vaivém. Olhares que, em idos tempos, moravam em contubérnios com a trepidez quando nele se poisavam.

5.    Deu uma meia volta vacilante apoiando-se nos meus arrepiados ombros. As abas da casaca abanavam-se, como as velas d’um navio errante à
mercê dos safanões do alto mar. Lá ia ele, o artífice de titónias, a navegar as circunstâncias que enchiam o quarto  – conversas e controversas d’então
front page news. Com a destria que lhe tinha dado tamanha fama, lá ia o tomo de Djarfogo pondo de lado os desaforos e as suas oblíquas relíquias
de então. Teria ele esquecido das marés, dos arquejos e dos pelejos das vivências dos homens da sua banda? Não, claro que não. Pois ele sempre
fora um homem de muitas argutas madrugadas.

5.    Recusou sentar-se, apesar de muitas insistência das pessoas ali presentes. Tinha muito p’ra dizer. Apontou o dedo à cabeça.  E pouco p’ra
contar. Poisou a mão direita sobre o peito, para acalmar leves frémitos de antigos pleitos – facilmente detectáveis para os oriundos de Djarfogo.

6.    Enchiam-lhe a mente tamanhas reminisciências quando, em momentos raros, como aquele, via rostos que conhecia da sua mocidade. Pessoas
da sua cidade. Imagens, sons, e nomes do seu passado. Sua espinha dorsal fremia-se e emoções explodiam-se a sua frente, como se fossem
foguetes e “bombonas” em tempos de festas de nha Santacatrina. Dizia ele ao passar a costa da mão direita sobre os lábios.
O seu corpo cambaleante foi deveras corcoveado pelo tempo. Mas a sua mente, e as lembranças que ali guardava a sete chaves, não foram
castigadas pelas lamúrias das carestias que passara, e nem foram maltratadas pelas sivícias que a longura do espírito por vez nos impõe.

7.     Ao seu lado oposto um outro homem, porém de cabeça calva e encostado a um divã. Também velho mas de corpo erecto. Não tinha línguas para
pronunciar sílabas que fossem, fará as negras fonias d’outrora que compadres seus gostavam de espargir em noites pretas como aquela. Faltavam-
lhe forças para arredar os corvídeos impulsos que do seu amigo brotavam. O arfar das emoções lembravam-lhe das contendas que muitas vezes
perdera com as pressurosas vontades do seu tempo. Tempo em que tudo era feito no escuro. Tempo em que valor era dado a quem o pudor e o
poder de o possuir não tinha. Tempo em que deuses eram erguidos em vez de Deus era seguido. Tempos em que lesmas eram lemas e os reais
virtuosos eram esquecidos. A poesia do seu tempo era como se fosse uma elegia a falsidade. Uma heresia à probidade.

8.     O branco fato que lhe vestia o corpo magro parecia perfeitamente engomado. Era da luz a sua estatura, tal qual o dia que sempre reluzira as
ribanceiras das glebas de Tchada Rama. Nunca vestira de preto, e nem seria agora, em terras de luz, que tamanha desgraça lhe ia acontecer.
Retorquiu a doblez que espargia pela sala. Mas que fazer com o seu compadre que é tão ostentoso que nem “tchintchiroti na figuera”.

9.     Ambos foram dos poucos alicerces d’infância que até ainda a erosão da modernidade não dilapidou. O do fato negro, tão negro como sempre
fora a sua visão, era a fronteira das terras d’ageometria para além da qual muitas almas navegavam. Da sua boca fuzilantes sílabas prenhe de
pressurosos desejos, orlados de túrbidos ensejos. Da sua presença saiam todas as aves de sufriguidão que soerguiam as tardes de quebrantos.

10.  O de fato branco; de alva intencão que sempre fora a sua simetria, era a fronteira das epifanias. Para além das aclives horizontes de Djarfogo
guiava ele a imaginacão da meninada, e, em titónias muitas, plantara também sua magia. No seu punho – lembro – estavam presos todos os estios
de Agosto. E sobre a garupa de Setembro, lá ia ele a galopear as esperanças das simenteiras no fio do seu alvião. Era deveras o escarnador da
verdade que poucos viam

11.  Não tombaram nos sarcófagos de esquecimento as suas proesas, as suas influências e, também, porque não, as suas falácias. Suas estaturas
fisionómicas, d’outrora ostentosa opulência, como os solitários acrólitos que alastravam as ribanceiras de Spigon, agora pareciam diminutas e
insignificantes.

12.   Lá estavam os abnícios das dualidades  d’outrora.  Lá iam eles opostando em probalildades que agora não têm poderes para controlar. Nunca
fora deles a sina do tempo que for a. Mas, mesmo assim lá iam eles tecendo a noite com o cinzel do almudeiro. Qual deles iriam vencer o pelejo?
Qual deles iriam suster o peso da noite? A emocão ou a razão?

13.   Pilares que foram e que sempre erguiam o cêu da meninice certamente já não os são. Mas os seus conhecidos maneirismos, e as suas
detalhadas estórias tradicionais que das suas bocas sairam, descreveram substantivamente e, com muita fidelidade aquele tempo que uma vez fora
minha e da da minha geracão. Pensei, melancolicamente, enquanto estendia o braço para, mais uma vez, despedir do país d’infância.

                                                                        Por: Claudino Henriques Veiga
13 Agosto 2014
                                                                                          
O Silêncio dos “acadirés ”  

Tem sido uma mantra constante a ideia de que a democracia em África é destituída da cultura de “rule of law”, e de “checks and balances” – uma
democracia controlada pelas grelhas do poder, silenciada pelos medias, portanto, subjugada pela cultura de burocracia administrativa, mas
malandramente revivada nos tempo das eleições. Quando as urnas são fechadas, com elas dormem os pilares do estado de direito. Isso é uma
grande verdade.

Mas eu vou mais longe para dizer que “rule of law“, e o “checks and balances“ advêm da cidadania – never ao contrário. Isto é, a cidadania é a força
criadora, a promotora, e a defensora, par exelence, destas pedras basilares do liberalismo. Essas qualidades são a personalidade nata da
cidadania que constrói, no quotidiano, a democracia. Portanto a cidadania faz aquilo que a cidadania é. Será que temos esse tipo de
cidadania/liderança em Santa Catarina do Fogo?

Com a óptica, assim desnudada e despoluida, qualquer um pode ver que a efectivação da democracia tem de ser feita pela cidadania, que por seu
turno se transforma em a volição da “rule of law” e do “checks and balances”. Toda essa conversa vem a propósito de uma visita que eu fiz, hoje, ao
site do primo Quimquim, aonde pude sentir na pele o ribombar dos “acadirés“ - provocados pelo poder instalado - vindo das gargantas do A. Nunes
e, agora, do D. Fontes. A coisa pegou-me no peito, pois o meu umbigo por estas terras ficou.

Tinha, not long ago, pisado este trilho, essa conversa. Enquanto a mim, o diagnostico dos problemas de Santa Catarina está, há muito tempo, feito.
Todo mundo sabe das precariedades - a vários níveis; tanto humano como material - desse município, que se encontra, de há muito tempo a esta
parte, em um espécie de um permanente estado de sitio. No entanto a oposição ainda não conseguiu encontrar estratégias e tácticas mais
apropriadas para a resolução, eficaz, destes problemas que se bifurcam. Por um lado temos a ideia que devemos depender do acto voluntário, e da
maturidade participativa da cidadania - coisa que nunca aconteceu - e, por outro lado, temos a ideia mais contundente que preconiza  actos
continuam, pro-activos de uma liderança aguerrida e engajada, com os desígnios defendidos pela constituição da república.

Depender de tácticas anteriormente utilizadas; acreditar na compreensão e na fidelidade interpretativa de uma cidadania ainda embrionária, para o
resgate político é, para todos os efeitos, um suicídio – temos provas disso. Ou não? Pois a cidadania actual do nosso município encontra-se, como
sabemos, no estado de estupor e, ainda mais, desfalcada pela emigração, portanto, ela encontra-se incapaz de mover as alavancas do estado de
direito. Repetir os mesmos erros e esperar resultados diferentes?  – alguém tinha dito que isso é uma maluquice. Face a tamanho dilemma o que
vão fazer as lideranças da oposição? Quais serão as ulteriores tácticas? Só berrar o “aqui el rei“ nos megafones de cyberspace?

Os esforços, que outrora foram feitos pelas lideranças da oposição, e que foram meritórios, diga-se de passagem, agora não irão ser suficientes .
O estado de gravidade e de fragilidade política, económica e social do município, e da sua cidadania, é de tal natureza nefasta, que o poder de
engajamento das lideranças da oposição terão que repensar o embate, inovar suas abordagens, inculcar outras dinâmicas nos espiritos dos
eleitores. Há que criar maior entrosamento, maior coragem, maior tenacidade e, sobretudo, maior espirito de sacrifício a vários níveis. Pois, quando
a consciência da cidadania se encontre no estado de slumber, e os poderes, tanto político como judicial, se encontrem corrompidas, o pelejo
requer uma liderança iluminada, consciente do arduo trabalho que tem de ser feito para revivar a consciência da cidadania. Exemplos disso temos
aos pontapés … de Gandi, a Cabral. De Mandela a L. King. Dos pequenos-grandes heróis da greve de fome, de muitos homens e mulheres
expatriados por razões de principio, de valores e de moral humanistas. A correcção política requer uma liderança que a cidadania americana
chama, “ don’t talk the talk, but walk the walk”. Sei que isto é muito difícil, mas quando se quer um impacto capaz de virar o rumo das coisas, it takes
strong hands...

Escrever artigos nos jornais, ou outra forma passiva de oposição é bom, mas não vão ser suficientes para galvanizar as consciências deturpadas
pela miséria e pela cultura de nivelar por baixo, que o partido único instaurou em Cabo-Verde – e chamam isso de re-Africanização do espirito
(assuntos para depois).

É isso. A vossa liderança tem que se pautar pelos exemplos de princípios e de valores do liberalismo evoluido, de moral e sacrificio pela verdade,
que os antigos homens dessa freguesia – hoje um municipio – esposavam. Os homens dessa região serão cidadãos quando são obrigados  a
relembrar os seus antigos pergaminhos e vos seguirão se, por ventura, delinearem tácticas que requer demonstração efectiva da cidadania - não
tenham medo de perder sono, ou trabalho se as vossas dignidades são postas em causa. Na resistência pela causa justa encontra-se a
valorização da cidadania. Implementam a todos níveis – na zona, no Fogo e na Praia, actividades de consciencialização dos problemas do
conselho. O vosso objectivo deve ser a implacável vontade de trazer ao palco nacional os desmandos do poder instalado. Fazer com que as praticas
políticas do edil Santacatrinense - do Fogo se tornem um dos pratos fortes nos debates nacionais - tanto político como judicial - nos circuitos de talk
shows, jornais, periódicos online etc.  E repetir, at nauseum, as falcatruas da câmara, respeitando, é claro, as regras do civismo.

Se trabalharem dessa forma organizada, consistente, com perseverança, dedicação, e sobretudo com sacrifício; porque querem elevar a
consciência dos munícipes, então terão, com certeza, resultados condizentes com as reais aspirações dos munícipes.

O silêncio não é um escolha… é, antes de demais, uma imposição … vão baixar a nuca?


E para terminar esse desabafo cá vai uma inspiração quando por ali passei em 96:

                                                           ~~~~~~~~~
Da minha terra lembro de vozes silentes
De abraços semeados em corações sem nódoas
De pedras a enraizarem-se nas mentes dos homens
E a increparem este silêncio - as vugívagas utopias

Mas de mim e de ti
figuras somente no teu eterno catálogo

E a fremir esse chão, meus pés e esperanças escondidas  
minha clangorosas inocência…perdida
És terra de alcantiladas emoções
És montes de “acadirés” e de convulções

No entanto o teu albatroz não é o teu silêncio
Nem tam pouco o teu altibaixo relevo é o teu complexo.
O enrevesar da minha terra – veramente versado em mim
Encontra-se em necrotérios dos acediosos

Agora quem, de entre nós, tem
Todas as coragens de Agosto para,
Com trovoadas e “tchapaláti” arredar os corvos
E exumar os alaridos da indigência para catalogar
este intemporal silêncio

Claudino Henriques Veiga
Emigram-se Políticas
Por : Claudino Henriques Veiga
Aug. 20, 2014

Queria tirar uma licença para pintar os mausoléus dos avós - $300 escudos. Preencheu o formulário. Entrou numa saleta de paredes quase
nuas. Somente um relógio pendurado, assimetricamente na parede frontal, a soliloquiar com  o 10:30 da manhã. Por detrás de um balcãozito um
jovem, visivelmente perturbado pela visita do forasteiro, brincava, ociosamente, com uma caneta bic. O resto do quarto encontrava-se
completamente vazio. O funcionário levantou, vagarosamente, após momentos de hesitação. Olhou para o papel, que precisava de ser assinado
pela autoridade.  Deu meia volta e entrou no escritório do mayor. Momentos depois regressou dizendo que, o cidadão teria que regressar mais
tarde – possivelmente à tardinha – já que o “chefe” não tinha tempo para rubricar as duas, ou trés palavrinhas no rodapé da licença. Saiu pela
porta fora.  O latejar dos cães vadios, os cacarejares das galinhas, sobrepondo a vozes, arrastadas pela aragem do mar, que subia a encosta da
Casinha, enchiam as ruas. A quietude povoava, como sempre fizera, a palmanhã pachorenta da vila, mas agora cidade. Um déjà vue de tempos
outros … Nada mudou. Tudo é ainda feito à câmara lenta. Como antes. Aliás, para os encarregados de serviços públicos da zona, a preguiça fora
sempre uma virtude.

Regressou à tardinha. Passou à frente da casa do mayor, que já se encontrava no office. Deu uma olhadela pelas redondezas. A pasmaceira
aumentou. Até as alimárias resguardavam do sol abrasador, dormindo à sombra das acácias, das basálticas paredes, e das centenárias
figueiras.  Malmente ele tinha entrado na saleta, quando ele fora, uncermonially, informado que o seu pedido só seria atendido no dia seguinte.
Que fazer? Só lhe restava umas horas, antes da partida para Praia.

“ Mas, arre que chatice, não havia ali ninguém para ser atendido. Não havia bicha alguma – ele era o único freguês. E além de mais só precisava
de um simples e rápido John Hanckock.”  Reclamava o incrédulo cidadão, agarrando-me pelos ombros. Arregalava os olhos, como quem dizia –
como é possível tamanha falta de profissionalismo, ética, respeito … do common sense. Ele ia enumerando os defeitos, e os desfeitos que
sofreu nas mãos do poder local, no seu município.

Surpreendido? Claro que não fiquei. Esta lastimável e verídica ocorrência é uma das miríades de show cases que exemplifica a cultura política
displicente e arrogante, que parece reinar a nossa ol’country. Aliás, o laxismo e a prepotência saltam, claramente, à vista de qualquer visitante
oriundo do ocidente. Ali, nada mudou, desde do tempo do fascismo  – pesariam emigrantes que departaram do Fogo há quase 50 anos, como
eu.  Apesar de andarem a publicitar a democracia, mas praticam o revanchismo. Os emigrantes, principalmente aqueles que vivem nos states,
são constantementes electrocutados pela “political-culture-shock” quando por lá passam. Existe, claramente, um disconnect entre a realidade
vivida em Cabo-Verde, e o seu ranking na índice de desenvolvimento – tanto humano, como material.

Suponhamos que o homem Cabo-verdiano não se apercebeu do seu novel estatudo de cidadão. It takes time – explicariam os crooks. A nossa
postura, perante o poder, ainda continua a ser condicionado pelas culturas de tempos outros – colonialismo e ditadura. Os lideres continuam a
ser “um despota”. E a cidadania continua a manter o seu toutiço ao relento. Surpresas não deviam existir. Mas existem. Uma veleidade da
cidadania? Pois, pensamos, erroneamente, que votar implica a aplicabilidade voluntária do liberalismo democrático – podem, esses homens de
verdugo, vergar essa tamanha verdade?

Também sabemos que os actos dos homens dependem, ou são consequências exclusivas do raciocínio – “pensar é antes de fazer”. Quão sabia
ditame, que torna esta premissa irrefragável. Se tomarmos este silogismo em conta, logo seria impossivel pensarmos que, os nossos  homens-
políticos de “pensar adulto”, com personalidades intelectuais e políticas maduras - enraizadas e consubstanciadas pelas suas experiências de
várias décadas na tríade, partido/governo/poder – tinham/têm cometidos todas as atrocidades, que hoje conhecemos, sem pensar. Têm, estes
homens, algum álibi? Mãos limpas?

Sempre foram homens de consciência. Disso, ninguém duvida. Mas ter consciência não implica sobriedade moral, ou ética humanista. Aliás, a
máquina de ditadura/repressão/tortura, que criaram, foi uma obra prima destes homens de consciências - nefastas. Consciências com
propósitos bem delineados – consciência tão firme, que até foi celebrizada em mornas e coladeiras. Tudo foi, maquiavelicamente pensado,
sovieticamente planeado, e Paicvianamente executado. Ali não houve erros, lapsos, ou ignorância da cultura liberal que existia/existe. Sabiam ler.
Eles sabiam - porque conviviam com o mundo da política - que a cultura do estado de direito e da democracia punham o cidadão e a propriedade
privada no centro do poder. Sabiam das liberdades da cidadania. Mas, eles chamavam isso de “ideia reaccionária do capitalismo”. Lembrem?
Tinham escolhas. Mas optaram, conscientemente, pelas políticas de repressão - carbon copy dos soviets.

É essa cultura de mentiras, aldrabice e mesquinhez que até ainda cultiva, em instâncias várias do partido/estado, os capatazes do regime – é de
lamentar que o ex-presidente da república mandou criar, à moda antiga, um instituto de liderança, ou coisa parecida.
Não há, e nem poderá haver, margens para dúvidas. Os laivos deste tempo continua a dar frutos, como na ilha do Fogo. Por revisões que houver,
por prosas, repetidas at nauseum, que houver, nada mudará os factos, como aqueles acima ilustrados, para toda a gente ver.

Agora, que temos na cúpula da cidadania?  Deviamos ter instâncias de honestidade aonde, homens esclarecidos, debateriam estas e outras
malezas da democracia. Deviamos ter, nos medias, debates sérios - open forums, tipo town hall meetings - para trazer casos específicos da
barbaridade, como essa, ao palco nacional. Deviamos ter, sim, um meio aonde a cidadania pode expressar-se no entremente das eleições.

Arrependimentos? Reformar o eu-político, alicerçado na luta e na labuta é, tremendamente, difícel. A genética ideological dessa gente – uma
esquerda retrogada -  encontra-se encravada no tecido duro da subconsciência. O modelo de pensar dessa gente é, por hábito, aquilo que é – o
partido/estado é o corpo gravítico, à volta do qual o cidadão gira. O modelo e a sua cultura – hand in hand. E, como o hábito é, neste caso, um
terrível conselheiro, o estado irá ser, para esta gente, a panaceia de desenvolvimento. É por isso que eles sabotam as suas próprias ideias e
comportamentos, mesmo quando eles querem, com toda a ansia deste mundo, liberaliza-las. Portanto, a ditadura do partido único e suas
atrocidades não aconteceram por um mero acaso. Uma coincidência histórica? It never was

Conviver com a realidade, aquém das suas matrizes ideológicas, requer muita atenção e muita abilidade de adaptação em momentos cruciais.
Para isso eles evoluiram-se. Transformaram-se em autênticos shape shifters. De manhã congratulam-se pelos sucessos de então e, logo à
tardinha, fogem, como o diabo foge da cruz, das atrocidades que cometeram; e os medias nem sequer os questionam sobre esta dicotomia.
Suas razões e as suas raízes são profundas. Galgam instituições.

São uma espécie de políticos híbridos - ditadores com ticks liberais de última hora. Defendem um estado necessário, mas uma cidadania
submissa - “subjects of state”. Defendem a democracia, mas só nas urnas. Aliás, a democracia é, para eles, uma cosa nostra – interpretada à luz
do padrão da famigerada democracia revolucionária. Convivem no pressure point, no entremente das placas tectónicas do liberalismo e dos
impulsos da ditadura. Uma camuflagem, como vemos na estória sobredita.

Pos scriptum:  Não se percebe a falta de pudor, ou, talvez a pura ingenuidade desses políticos do partido único. A doblez ideological caracteriza-
os em todos as suas intervenções. Li, num anuncio mandado pelos mayors da Bila, do Mostero e da CoFiguera – publicado aqui, neste site,
topicos 123 - que querem fazer um consórcio de câmaras  foguenses to empower a cidadania.

Eles querem que a cidadania emigrada participe no desenvolvimento dos seus respectivos municípios. Isso é bom. Uma ideia brilhante, que os
outros autarcas devem seguir. Essa iniciativa irá longe, muito longe, se ela for executada, professionalmente, e regida conforme as regras de
estado de direito. Pensei. Mas, os últimos parágrafos do anuncio deitou tudo a perder. Estes mayors delegaram os seus deveres a um grupo de
pessoas que, apesar de serem humanistas – para alguns que conheço - não se encontram minimamente preparados e nem sequer têm a
idoneidade politico/professional necessária para levarem a um bom porto as iniciativas desse tipo.

Verdade seja dita, o núcleo dessa iniciativa, assim como ele é rotulado neste anuncio, é formado pelos
amigos/militantes/simpatizantes/apoiantes do status quo no Fogo. Nessa guisa, essa iniciativa, guiada pelos capatazes politicos de tempos
outros, só poderá repetir as mesmas proezas de tantas outras iniciativas que por cá passaram … um piquenique à la carte do partido no poder  

Como vêem, não lhes passam pela cabeça que, um evento dessa evergadura devia, como é óbvio, ser tratado delicadamente, engajando a
cidadania foguense a tout court – em vez de partidarizarem, paroquialmente, o desenvolvimento do Fogo.  Sequazes desses mayors, dificilmente,  
irá galvanizar a cidadania emigrada, que devia ser a rainha desse evento. Mas, a ver vamos.

Merca na Djarfogo. Diz o anuncio. Mas, ah, essa desejada caravana, sem o Lincoln e o Thomas Payne; para escolher just a couple giants do
liberalismo, não teria piada alguma. Pois não!? Percebem, os leitores, dessa ironia? Ou talvez os mayors querem, tão somente, dólares dos
embarcadiços? Encontro sui generis entre o Jefferson e o Pedro Pires. Vejam lá a ironia do destino! Pontos mais antipódicos nao existem.
Querem os dólares Mercano, mas não a obra prima dos pilgrims … hipocrisia to the nth degree.

Mas que tamanha ingenuidade política desses mayors. Ainda não deram conta que Merca é a antítese daquilo que eles representam? Merca só
ira ao Djarfogo, se todo o seu farnel, incluindo uma potente auditoria, são convidados. Aqui a democracia é praticada 24/7. Portanto, don’t
wish/ask, what you can’t handle. Ou querem fazer emigrar politicas … fazer da Merca, dos Caboverdianos, uma Parvónia?

Djarfogo na Merca? Qual Djarfogo? Aquele Djarfogo que é composto só por militantes/apoiantes seus? Sequazes da cultura de ditadura, amantes
de tribunal popular, favorecidos e cronies da reforma agrária, executadores da polícia politica, exuberantes seguidores e praticantes da cultura de
tortura? Desculpem lá se esqueci que existem arrependimentos. Reformadores. Inovadores, Defensores do estado de direito…mas dos seus
direitos, dos seus estados, e dos seus benesses.
27 Agosto 2014

A Propósito da Regionalização
em Cabo-Verde

Claudino Henriques Veiga
25 Agosto 2014


O tempo sara e a experiência ensina, mas para muitos políticos, governantes, lideres da coisa pública e privada, e intelectuais da minha terra esse
ditame não existe. A racionalidade; benchmark de evolução e de desenvolvimento, é sempre relegado a backburner, ao segundo plano. Nossa
cultura, pejada, como ela é de emoção e trocadilhos de temposoutros, sempre vem ao de cima. Temos já quase quarenta anos de experiência no
alicercamento da nação Caboverdeana… anos e anos seguidos, sem parar em debates, em reuniões, em elaborar planos, e projectos, em
estudos e em propostas ad eternum, mas ainda continuamos, infelizmente, a cometer os mesmos erros dos principiantes. Malmente um
problema aponta a cabeça, a solução aparece, logo no piscar de uma conversa feita num café qualquer. E cadê o rigor da metodologia científica?
O estudo aprimorado das questões? A escolha apropriada das modalidades de investigação? Dos parâmetros a seguir. Das variáveis a ter em
conta? Da subjectividade dos investigadores? Da cross-contaminação de agentes extra curricular etc, etc …

A resolução correcta e eficaz de qualquer problema requer, como é obvio, a exacta identificação e definição- socraticamente feita - da sua DNA. Isto
é, saber esquadrar o problema requer uma identificação, in loco, dos parâmetros da sua origem – temos que saber soletrar, descodificar o codex
da enigma. Com essa identificação correcta remédios e terapias, ajustadas com a realidade do problema, aparecerão. Pois, os anticorpos, como
sabemos, vêem da própria estrutura genética do vírus, ou da bactéria.

A regionalização é, neste caso, o tal remédio e a tal terapia, a serem utilizados para regredir a virilidade da doença – estrangulamento, isolamento,
abandono de muitas ilhas em Cabo Verde - que ninguém, to this date, ainda indentificou a sua origem – seu codex(DNA)

O problema de subdesenvolvimento de muitas ilhas em Cabo-Verde, assim como muitos países na Europa, - donde Cabo Verde copiou tudo -
advem, claramente, dos modelos de governação e das lideranças/lutas partidárias que temos. Senão vejamos.

Temos, assim como na europa, um sistema político que preconiza um sistema de grande centralização politico/governativa. Uma democracia
desenhada top-down em vez de andaimada bottom up, como aqui nos states. Isto é, em Cabo Verde a cidadania acata tudo aquilo que vem dos
gabinentes dos partidos políticos. Os deputados, como é logico, representam os partidos porque foram escolhidos - numa lista vinda da secretaria
- pelos partidos. Logo, temos em Cabo-Verde, assim como na europa, uma democracia partidária. Sufragam-se listas, em vez da cidadania. Uma
democracia de representatividade indirecta. Os deputados são uns sevandijas dos partidos. Uma democracia praticada em gabinetes. Os eleitos
não têm contactos directos com a cidadania – nem sequer tem escritórios na região que eles, supostamente, representam. Eles dependem das
agendas eleitoralistas dos partidos, em vez de serem guidas pelas politicas regionais dos seus municípios. Os deputados não fazem,
directamente, campanhas politicas … não apresentam ideias próprias - do seu eleitorado - que deviam sair das regiões donde eles,
supostamente, representam. Eles, portanto, não sufragam directamente, as inspirações da população, porque eles não foram escolhidos
directamente pelo povo – aliás temos, em Cabo Verde, casos caricatos, onde os deputados escolhidos nem sequer conhecem as regiões que
representam.

Mas numa democracia descentralizada, como temos cá nos states, “all politic is local”. A democracia acontece, diariamente, from bottom up, nos
pátios, nas escadas, nas notícias televisivas/radiofónicos/web, e em encontros permanentes com os seus constituintes. Isto é, os deputados
(senadores e congressmen) escolhem os partidos – never ao contrário, como acontece em Cabo-Verde, Portugal, e por aí fora. Eles vivem,
permanentemente nos distritos que eles representam. São eles os responsáveis pelas suas campanhas, ideias, e propostas políticas no
plenarium. Os partidos politicos servem como um suporte, never como a alavanca de tudo. Em suma, numa democracia, que tem a coragem de
valorizar “all politic is local”, a cidadania sente-se soberana, senhora da constituição, dono das ocasiões e das oportunidades que ela própria cria.
Aqui, o modelo requer que os partidos políticos obedecem os impulsos da cidadania, as suas opiniões e directivas, porque é o dever e direito da
cidadania de reger a democracia.. sao esas a s primeira alinhas da contituicao Americana

É isso. A democracia que temos – valorizador de “all politic comes from the parties’ boardroom” - tem a stoop down mentalidade de que one size
fits all cidadania. A nossa cultura e pratica politica são demasiadamente centralizantes – isto aconteceu by design. Os eleitos sentem-se como uns
faraós, separados do directo escrutínio dos eleitores, porque eles respondem somente aos partidos políticos. Pois, eles são por esses criados e
destruídos. Estão, por conseguinte, permanentementes escudados/protegidos, até à nuca, pelas armaduras de aço dos partidos. Têm privilégios
não aquém dos faraós. O governo não é eleito directamente pelo povo. E, logo, o governo não é do povo, pelo povo e para o povo, mas o governo
assume o poder por intermédio do partido, pelo partido, e para o partido.

A democracia que praticamos, meus amigos, não tem a face do povo. A cidadania encontra-se refém do anonimato de uma democracia,
puramente, partidária. A cidadania depende das prebendas de um estado de direito, que se encontra preso às querenças dos partidos politicos,
que, por seu turno, sustenta o estado. A cidadania é, neste ambiente constitucional, um mendigo. Ela não é a dona da constituição. O
partido/estado usurpa a carta magna logo após o sufrágio. Não existe recursos...impeachment, como cá nos states. Ela se sente debased,
abandonada. As regras do jogo político, escolhido by design, diminui, e de que maneira, a sua importância, o seu papel regulador, na democracia.
Portando, amigos, é tudo isso e mais alguma coisa a origem do problema da passividade e da miséria em muitas ilhas em Cabo-Verde.

A regionalização não vai ser o remédio, como já devem calcular. Pois regionalizar one size fits all mentality, só exacerbara o status quo.
Regionalizar a morosidade? Regionalizar aldrabices de gabinetes, displicência, desleixo e incompetências não reformará o top down democracy.

                                              Franquear as urnas de Santacatrina

Transformar-se em um ticoon, um negociante em romarias, ou um desvairado à procura da cidadania que se perdeu. E agora, quem dá mais por
uma gente que se medrou? Que posfácio o descreveria melhor?

Pressuponho que a cidadania faz aquilo que a cidadania é.  E, pelos factos já transactos e sobejamente ilustrados pelas crónicas de muitos
conterrâneos nossos ali residentes; de entre os quais sobressalta as do senhor Nunes, sabemos que a fronteira da cidadania de muitos dos
nossos munícipes é tão curto quão longo é o braço que recebe a parca quantia que lhes coíbem de participarem nas urnas.

Já que a volição da cidadania foguense encontra-se refém ao maquiavélico sistema de financiamento da corrupção eleitoral - venda temporária de
consciências - então proponho uma bombástica, mas todavia realizável solução de, ao que parece a perene problema de “compra de votos”.  
Porque não criar já uma frente cidadã para resgatar a cidadania da sua auto-prostituição política?  Muitos perguntarão; mas como? Simples

Esta frente deve, doravante, preocupar-se em angariar fundos para financiar o resgate da cidadania de Santacatrina. Mas resgatar quem?
Perguntam  

É clarividente quem são os reféns à liberdade. A
propensão desse tipo de comportamento manifesta-se a olho nu diariamente. Não precisamos de estudos algum. Pois, oferecem, inocentemente,
suas veleidades a quem quiser interpreta-lá.
O problema reside em como resgatar estas pessoas desse buraco. Diriam muitos.

Já que a volição da cidadania tornou-se uma comodidade para ser negociada no mercado negro, então porque não tornar-se um investidor?
Vamos comprar valores da cidadania até termos a maioria das acções. E, quando dono soberano da cidadania, então iremos repor o “rule of law“,
o real estado de direito democrático.

Então vamos fazer a mesmíssima coisa que fizeram e fazem os degenerados politicos/corruptos? Perguntam, acusadoramente, o populous.
Continuam a ler.

Não. Não. Eis o plano: Comprar a liberdade de votar que o cidadão perderia caso tivesse que o vender a um corrupto qualquer. Isto, em outras
palavras, significa que pagariamos ao votante a mesma quantia que receberia se ele tivesse que vender a sua consciência no mercado negro da
politica.  

Eis o caviat: Para receber o incentivo o cidadão tem que ir votar. Votar em quem ele quiser. Mas tem de provar que votou. Neste plano não existe
coação alguma, para além de comprovar que votou. Aliás, é essa a intenção...deixar  o verbo da democracia exercer livremente o seu direito
democrático

O mercado da cidadania é franco e aberto. A comodidade é a restauração de “rule of law.”

Isto é uma medida drástica, eu sei. Mas a cidadania, quando em estado de estupor, precisa ser resgatada – seja a que preço for.

Muitos irão dizer que estou a brincar. Mas não.

Cadê investidores para  o resgate à cidadania foguense e, em particular, de Santacatrina do Fogo?
                                                  Pretenders - Fazedores de conta

Fazer de conta que a nossa afronta, que transmonta os princípios do século dezanove e que reside na ponta do nosso bivaque, não conta.
Imaginar que a probabilidade da nossa impossível existência reside, manhosamente, na nossa sofrível, todavia exequível contabilidade daquilo
que é, para nós, a nossa única possível realidade – viabilizar uma autarquia no ziguezague de uma caneta. Pretender que no entender da nossa
realidade, o verbo fatalidade, que é tão nosso como a morabeza, é um ancião, uma dolência e também uma paciência … uma ciência de
dependência.
E nessa salada russa, que faz de nós uma fusca barafusta, existe o condimento, uma pausa de sofrido entendimento, uma saida … vender a
nossa cultura/tradição para resgatar uma paróquia. Quem dá mais?
Mas o poder político não é o doador e nunca foi o concessor da liberdade. Pois, ele é, por inerência, distituido dessa função, e logo, não pode,
apesar de tê-lo escrito numa constituição, oferecê-lo a ninguém, mesmo que ele demonstrasse a sua boa intenção de o fazer - a não ser que ele
se encontra imbuido da congruidade, o que não é, e nunca será o caso.

Ele é, no mínimo, um gestor; escolhido ou não(pois há ditaduras!) - às vezes brando(quando na maioria simples). E ele é, também, um defensor;
por vezes tímido(principalmente em tempos de campanha), desta comodidade política.

E nós, a cidadania, como genuinos proprietários desse quinhão, praticamos de livre arbítrio e de quatro em quatro anos, o lícito liberticídio ao
referendarmos, gratuitamente, essa condição nativista. Entregamos aos partidos/estado o poder da cidadania que, depois, com o expresso
consentimento dos representantes, que foram escolhidos por eles, o limita nos parlamentos/assembleias.
Mas o cidadão não é somente um simples consumidor da liberdade. Mas ele é, como é obvio, o proprio fazedor e o exímio regulador do mesmo.
Das suas entranhas sai a moralidade do “rule of law”, assim como disse o Chomsky  “...states are not moral agents, people are, and can impose
moral standards on powerful institutions...”. Até quando esse ditame?
E é assim, também, com o poder local – um mini-governo central.  A cidadania investe a sua liberdade numa câmara que, surrateiramente, se
transforma em um demófilo à espera do sufrágio para, depois de ganhar, dar aos detentores das rédeas do partido no poder as alavancas de
empecilhar e corromper os mais vulneráveis de acordo com os transientes interesses do elitismo político (donos e traficantes de interesses
obscuros – uma oligarquia local.  
Como sabemos o nosso homem Santacatrinese ; no limiar da sua precariedade é, no seu perfil psicológico, terrivelmente dependente de vectores
socio/economicos preestabelecidos. Ele torna-se, assim, facilmente influenciável pela política de assistencialismo, oferecida pelo poder local com
o quid pro quo de gerar a dependência no poder.

Em nossa terra o poder político tornou-se o fazedor de uma moralidade decadente com a virtude, que sempre nivela por baixo. Mas como é
possivel acreditarmos que somos livre, um país democrata se “…a country cannot subsist well without liberty, nor liberty without virtue…” (Daniel
Webster)