| SOCIO-CULTURAL |
| Irmão de crenças e pouco mais Tenho estórias, em versos bucólicos mas lacónicos, para contar – soprado num fôlego e da minha maneira - de um amigo - feito pelo sangue e pouco mais – que eu meramente conhecia, apesar de juntos vivermos, desde os mais antigos e relembrados tempos. Nasceu algures; mero é o nome do lugar que não interessa, rodeado de pedras vulcânicas; de valores que pouco importa. Ele, porém, carregado de obrigações, cresceu astuto e sem pressa, mas as suas façanhas, travessuras e proezas, não chegaram ao nobiliário das ilhas - isso teve tanta graça que, até a afronta se se pendorou na praça - mas rodeou-se de amigos que o mundo comporta. Não obstante o passar dos anos - sem conta, senão por um tempo – eu, sem ver a sua alvura embrulhada num vento - seco, forte e presistente, mas contente, soprando da infância- não consegui divisar a sua candura que era fustigada, mas com ternura, pela maresia da nossa inocência esborrada nas ilhargas da nossa ilha amada mas, desditosamente apátrida Contudo, resistimos; agachados sob a frondosa sombra de uma árvore que, até ainda disputa, argutamente com a natura, pela conquista do direito a sua vida - pois, agora é a altura de pararmos com a fuga para erguer a labuta - para a deslembrança daquela vida ingrata que, agora, lhe rende o dever à curiosidade de fazer perguntas ousadas em direcção ao trono da sapiência. Aprendeu a lidar com a vida, que lhe foi madrasta, mas ele lhe conquistou a estima - foi só o que bastou, viu-se logo, quejando encheu-se de astúcia - para sufragar o sonho que teve desde a nascença, e, assim, vestiu-se de esperança - foi só o que gastou para abrir as portas da razão- que lhe deu o dom, divinamente lícito, de repôr a visão na infinita plenitude Não sabia do seu ímpeto, rumo as terras socráticas, e nem preconizava a sua coragem, para rimar com os deuses a Cândida-dôr da partida sem regresso - pois, a sua luz não se reverberava neste mundo imponderável- que, no entanto, lhe tinha oferecido o entendimento, assim grátis, - para crescer mas ficar inocente, para aprender mas ficar míope e para sofrer e ficar contente- mas, entendeu manter este segredo fechado a quatro chaves, negando ao mundo o seu pronúncio Um outro irmão meu, porém, alvissareiro, o denunciou com versos silábicos à entrada da sua casa, quando, ele empunhava no peito as doloridas notícias, mas veristas - que levou eternidade aos sábios e muitas dores aos consternados - para dedilhar as premissas batizadas pela criação que foram ocultadas aos empáfios e aos vesgueiros das letras, ciências e dogmas; as maravilhas deste mundo, em versos dialécticos que é a paradigma da dualidade; – germinação da morte no ressurgimento do nada; esta argamassa do amor que mata, é a dôr que te sustenta- Sim irmão de sangue e deste mundo de crenças, o conhecimento, assim como os teus sentimentos, se encontram, por vezes, - enxuto, vetusto, e de luto - mas, no entanto, eles, às vezes também são, - dinámicos, novos e jubilosos - como festeiros que trocam de tom e de som, rendilhando-se nas suas harmoniosas músicas – ecos primordiais da existência que, humildemente os faço os tenidos dos meus sentidos pêsames - E agora, com a razão subjacente à dôr, sincronizas as leis e a melancolia com as régies-últimas protegendo as emoções das incertezas, - que, para além da razão, estabelece o seu reino – este enigma que atormenta o espírito belo, mas por ora triste e o provoca com ambiguidades profusas, - saudades que coroam o teu mundo - de formas, de cores e de sons caleidoscópicos Mas, mesmo assim, - com este pélago da tristeza sentida no coração - não te desanimes com as danças do paradoxo. Não te deixes enfeitiçar pelas disgnosias dos menos e dos mais entendidos sentimentalistas. Continuas no teu caminho, rumo a gnose, - terra que há de te libertar – deste manto escuro e pesado da dôr - da mãe falecida e da ignorância reflectida – Deixe, sim, esta germe da curiosidade crescer, este impulso de coragem nascer para assim te elevares aos mais altos -cumes da existência e do consolo- que, com certeza, hão de te libertar e aliviar, pelo menos por um tempo e muitos anos Não deixes esta ambição fugir dos recantos do teu ser, que - é ainda frágil e ingénuo - nestas andanças de desenvencilhar os segredos dos deuses cronistas, criadores lendários do sofrimento e da incógnita que se tornaram – em espírito-matter da existência - De saida, voltei e vi o teu ser sentado, encolhido naquela cadeira de rodas - sózinho, fitando algo invisível por entre os amigos que te rodeavam – olhar pairado no nada- Saudades da mãe que partira, angústia deste mundo serpejante que ninguém te tira Candin-di-Cando-di-Mamá-di-nhô-Cando Junho, 2009 |
| Nov 11, 2009 25 de Novembro A festa da Paróquia dos “desparoquializados” 1. A chuva fria beliscava miudamente os meus ombros. Dei um curto “trote” – assim como dizem as pessoas da minha terra - pulando sobre umas pequenas plantas, quase mortas pelo frio de Novembro, para depois chegar ao pórtico, ao lado da casa funerária, aonde o meu sogro se encontrava a falar com um velho amigo meu dos tempos do Liceu. Eles estavam acompanhados de algumas pessoas, maioritariamente homens, que se aproveitaram desta pequena galeria para, não só se abrigarem da chuva e do frio, como, também para evitarem de emprenhar os seus sentimentos da melancolia, trazida pelos melindrosos choros dos familiares do falecido. Isso era também a minha ideia – resguardar-me de emoções fortes. Todos se encontravam vestidos a praxe – homens, de fatos e gravatas, e as poucas mulheres, vestidas de negro. A conversa, que por vezes era acompanhada de gestos orchestrados com rispidez, não era para galardoar, como é o uso em momentos desses, o malogrado, relembrando das suas boas façanhas feitas quando andava nos mundo dos vivos. Mas, era, sim, para dar acento, tonalidade, e portanto côr à uma outra estória que se queria dar enfase, tentando influenciar a audiência desatenta – próprio do enredo e costumes das nossas gentes emigradas em tempos da ociosidade. E essa estória, pelo drama teatrado e vestido de gestos, parecia, à distância, muito importante e imbuida de muita emoção. Consequentemente, o meu escape emocional falhou o alvo O assunto, que me surpreendeu sobremaneira, biforcava-se em duas vertentes concomitantes. 2. Primeiro, a organização e os arranjos da festa de “nha Santa Catrina” encontrava-se ou encontra-se, “ao Deus dará”, segundo os interlocutores mais novos, apesar deste evento se encontrar “na solera porta”. A Câmara local não adiantava dicas nenhuma sobre o assunto. E, para alguns rapazes ali presentes, tudo aquilo cheirava a malandrices. Coisas da política, diziam. Mas, as suas explicações afrontava a razão com discrições languidas e um tanto ou quanto complexas para quem, tal como o edíl que temos, não tem traquejo suficiente para tanto maquiavelismo espangido em poucos tempos. E portanto, como defendia os mais velhos, já que o poder local não podia, ou não queria fazer nada, então cabia aos munícipes mais responsáveis e os mais esclarecidos - a palavra esclarecidos fora usada com ligeireza – não se sabia se se referia ao poder financeiro dos santacatarinenses ou, se se referia à savoir-fair dos mesmos - pegar o boi pelos chifres – assim como dizia o meu sogro que, com uma destreza pouco habitual, saltitou para rua – e pam, com o clicar dos dedos, resolver o assunto. Ora, assim como sempre acontece com os semi- intelectuais em regime de part-time, essa conversa não tardou em seguir a lógica do costume - enveredou-se para a política, ou será para as tagarelices de terra queimada? Como os deméritos dado à actual Câmara não eram suficientes para colmatar a raiva dos queixosos, então, pantearam-se da inteligência e arranjaram, repentinamente, um bode espiatório; uma desculpa remota para o descalabro em que o concelho se encontra – esta era uma forma engenhosa de re-equilíbrar a síncope cognitiva em que se meteram, após terem deixado as suas emoções desfraldarem-se, tornando-se dono das circunstâncias. 3. Nós? Culpado, de quê? Espantado e acabado de chegar da rua, meio molhado pela chuva e meio atordoado pela retórica do grupo, perguntava, com os meus olhos a rolar de um lado para o outro, à procura do fio da meada deste convoluto debate que se fervia no meio de tanto frio que se fazia sentir lá fora. Mas eles retorquiram – voçês, sim. Todos aqueles que deixaram abandonados e despresados a terra, etc...etc, esquecendo das suas gentes e mostrando muito desleixo para com as responsabilidades...etc...etc. Mas que tarde vespertina! Pelas ruas havia chuva de água fria, no entanto, cá dentro, chovia acusações despropósitadas, pensei. A propensão do raciocínio deste pequeno grupo era, no mínimo, muita elástica. Rebocar do passado as emoções mortas, para, depois justificar a afronta do presente. A lógica acabou de entrar de férias, conclui, resignadamente. Esses eram os remoques dos velhos tempos; o martelo de guerra que fora enterrado há mais de quatro décadas; esquecido por muitos, mas que agora, por virtudes bisonhas, uns o quer desenterrar para o re-erguer, mais uma vez, tentando reformar, ou talvez repor, algo - ninguém sabe concretamente o quê – uma enigma? - que outrora fora descabido. Entendia, sim, até certo ponto, as frustações que se derramavam em catadupas, e em cada palavra pronunciada carregadamente das bocas santacatarinenses, ali presentes, especialmente numa época dessa, quando a nossa identidade sócio-cultural é posta à prova. 4. As minhas raizes estão por lá enterradas - está certo. As minhas lembranças da meninice e os meus traços culturais são do fenotipo foguense – isto é mais que clarividente. Mas, não me sinto assim tanto “paroquialista”- no sentido socio-politico do termo - como os outros que lá costumam ir brindar a festa de Nha Santa Catrina. Outrossim, eles têm mais anos de lidas e de experiências com as gentes da minha ilha e, por consiguinte, mais amizade, o que é natural. Mas não deixaria de afirmar que os meus poucos e tenros anos da vivência naquela terra que amo, também me enchem o peito – a paridade do amor à terra, entre nós, claro, não podia ter a tal ambivalência, não é? – e portanto, a bazófia do meu apego para com a ilha não é tanto grande, (aprecio comedimento) tanto quanto como daqueles que lá viveram por muitos mais anos do que eu. 5. Mas, amigos, como esquecer dos meus primeiros anos de vida? Isso é uma aberração de tamanho do mundo; falar de desprezo e da incúria? Isso então é o cúmulo de insensatez. Resmunguei injuriadamente, voltando para o velho amigo do Liceu que, por espanto meu, concordava com a síntese da conversa – ou lamúria do grupo? - Aliás, ele até ia mais longe, afirmando que não só o partido do actual governo tinha abandonado o Djarfogo. Nós, segundo ele, especialmente aqueles que tinham saido há muito tempo da ilha, também tinham esquecido do ninho. Terminou, taxativamente, o reencontrado amigo. Não tentei derrubar esse argumento que fora sufragado em meu desfavor, pois, sabia que essa opinião não tinha base racional. As suas emoções falaram mais alto. E quando assim, não há explicações que chegue para repor a objectividade na conversa. Aliás, o propalado efeito benéfico da “democracia”, em causas de cariz emocional é, no mínimo, nebuloso - tal como diz o adágio – “a quantidade de opiniões não é o critério da verdade” 6. Não me é habitual estar a delinear prosas, mormente poesias, para serem publicadas na banda-larga – nessa praça pública desguardada - uns, de libido denodado, diriam. Mas, apesar dessa apreensão factual, e portanto justificada, a intrepidez causada pelo desafio lançado pelos amigos, me enche o peito dando me o brio necessário para compartilhar com os santacatarineses os meus ensejos, desilusões – e porque não? - também as minhas saudades da terra natal. Vale a pena – após desta troca de impressões, se assim o podesse caraterizar - vos dizer que, não despi as roupas que a ilha me tinha dado quando ali nasci e cresci - esses hábitos, costumes e experiências que comungamos das nossas gentes, da nossa terra - dos seus algerozes em tempos das azáguas; dos nossos passeios por entre o milharal; de “guarda corbo no som de Tchapalate, dos gorjeios dos pássaros em Cabo Nhanduca e em Rotcha D’arco; dos voos rapantes de “passinho de mar” na Ruberinha; dos mugidos dos animais no Matinho; da Canizade; dos Renados; dos “cudin bachons” da Néné de Arcanja; das estrelas fugidias sobre o vulcão, nas tardinhas do cambar de sol; da procissão no dia de Nha Santa Catrina... e de tantas outras lembranças do nosso Fogo e Cova Figueira que povoam tanto o meu, como os vossos eu(s). 7. Não amigos, não esqueci do meu berço e nem esqueci daquele lugar ingreme onde nasci. Não somos os “disparoquializados” como alguns pensam. Carrego comigo o nosso Fogo. Ele fez de mim muito daquilo que hoje sou. Em cada dia que passa uma lembrança que às vezes transcrevo, e outras vezes as guardo no peito. Elas são memórias, não só dos lábios molhados pelo beijo da namorada, assim como cantam os poetas, mas ainda são rabiscadas de saudades, provocadas pela recordação quando a inspiração ataca. Deixo convosco um desses filhos dessas tantas recordações(voltarei): C. Henriques veiga |
| ~~~~~ Hino de um Emigrante Ando com um barco a remar neste peito meu a chorar para o mar a procura desta Terra minha que a muito tempo esquecido tinha. É Cabo Verde, aqui, no meu leito a chorar ~ Ando com um barco a navegar neste peito meu salpicado de saudades deste Baluarte que não consigo olvidar deste amor que tenho para lhe dar ~ Ando com um barco a velar neste peito meu sangrento, sem lar nesta angústia de separação, sem par para quem escrevo estes versos, a clamar? É Djarfogo para além de ultramar ~ Se um dia a sorte me abençoar com o meu barco um novo rumo vou tomar, que o destino seja aonde o coração me levar e que Deus me guia até eu lá chegar ao porto de Alcatraz com meu bote a remar ~ Cova Figueira de mim não esqueces Mãe que tanto te padeces das ausências dos filhos que muito carecem das tuas queridas e esperadas preces Cândin di Crizanta di Quina-Carolina-Nha Guida (Férias no Fogo - Verão de 96) |
| Nov 17, 2009 POEMA AOS SANTACATARINENSES Aproveito esta oportunidade para dedicar este poema aos Santacatrinenses, mais em particular, aos Figueirenses que, de uma forma ou de outra, se encontram no processo de celebração da festa de Nha Santa Catrina. Sei que, como eu, eles sentem as picadas de saudades em momentos solenes tal com este - 25 de Novembro. Cova Figueira ~ Este vale, por entre mar e céu, repletas de figueiras, plantadas no meu peito, aqui, à minha beira, povoas as minhas memórias, de que maneira, como só tu sabes fazer, ô mãe matreira ~ Berço meu! Berço meu! acantonado por este emblemático monte; nosso clemente castelo, que ergue ao céu e passa por aquela Ponte, para onde correm as tuas lágrimas, à caminho da fonte, que é o repositório das mágoas dos teus filhos, para além dos teus horizontes ~ Cova Figueira! Lugar ingreme de infantes e almadinas memórias. No meu peito gravado as tuas indeléveis histórias, no meu ser brotado as tuas mais inesquesíveis Jóias; plantadas por ti, nos tempos das nossas glórias; agora são estóicos faróis, nas brumas noites das inglórias ~ Cova Figueira! Tu és a minha legítima herdade. Como dói e aperta as minhas saudades; essas mágoas que entristecem sem piedade, a face pura e singela da minha predileta cidade; esculpida nas entranhas nuas e osseas, mas sem maldade, naquela ilha de fulgor, ninho da minha natalidade. ~ Terra minha, que ingrata e inexaurível é essa distância! Mas, na minha mente repousa os ensinos da infância, que semeastes, com a profecia da tua ânsia, de guarderes por perto, o tesouro e a lembrança, destes teus filhos que, com a remível consolança, hão de voltar para abraçar num gesto, de infinito elegância, o teu corpo sensual; beijando a tua alma, alvacenta e mansa Cândin di Crizanta de Chalé di Mámá di Nhô N’tonim (Férias no Fogo - Verão de 2000)) |
| Nov 23, 2009 EM HONRA DE NHA SANTA CATARINA FOGO Baluarte! Como minha derradeira oblação (dádiva) à terra natal, nesta quadra festiva de Santa Catarina, não quería deixar de prestar uma homenagem poética à terra que mais marcou a minha meninice: Baluarte - a terra do meu querido pai. ~ Baluarte Visitou-me Chilreios de uma manhã, clara e ríspida de domingo, quando, o sol; esfolhando os seus raios, se poisou mansamente nos meus olhos, apoquentando o meu manso sono, com a fresca brisa do Abril. Ele, de mansinho, forçou, as volúveis grades do meu eu, libertando as tuas benditas e efemérides recordações, até que, a própria beleza, cerimonialmente, se encolheu. ~ Pelos primeiros rasgos de memória, sobias lentamente, com esta mansidão de um eterno amor fraternal que enalteçe o meu sonho e acorda as tuas afáveis lembranças. As imagens, espalham-se por esta fértile e mental planície – somos assim tantos, ó veigas! - deste baluarte imerso nas saudades e preso aos olhos, encharcados de clamorosas lágrimas de separação ~ Baluarte! Ês tu? ó velho amor meu, batendo à porta da letargia, acordando amores guardados, por entre as incertezas do sono. Este sono (ausência) que fora indusido pelo falso e ingrato destino; separando as águas dísparas para roubar da virgem mãe dos baluartenses, os rebentos barões, agora assina, nos confins do mundo, contratos com deuses amorfos, para fazer guerra à progénie. E, lampejando sem parar, a memória saltita, festejando a lembrança. ~ Acordei, e, no primeiro fôlego saiu o teu sagrado nome: Baluarte! Ecoando por entre os lençois e o raspar das folhas do carvalho, no meu quintal plantado, coberto deste teu puro azul marinho, que atormeta o meu peito e engoda a saudade; o som do teu nome ressoava, fazendo-me lembrar do teu baloiço que me ensinou a sonhar, com o teu bonito céu ~ Sózinho alí deitado, sabendo que esta realidade matinal não era mais do que um sonho, donde as tuas angélicas vozes da profundeza chamam me para este encontro há muito adiado. E, pela enfadonha distância do tempo que não passou, e pela tua presença, por entre as folhas com orvalho, que não secou; as tuas imagens ficaram retidas nas fecundas almas dos teus fagueiros filhos ~ O vento, a murmurejar, fazendo ranger as tuas janelas, corria suavemente sobre as lavas negras dos meus pêlos, pulando o cheiro do teu pó, pelas curtinas do meu quarto, trazendo o sabor do teu corpo, para saciar as saudades da infância. Porque me atormentas ó saudades, se bem sabes que esta recordação me alimenta - este Baluarte, minha Dulcineia, é um amor que não abdico - ~ O cantarolar das aves do monti Lela, aqui ao meu lado, neste passeio virtual, pelo Cabo-Nhanduca, no meu quintal. Separação feita, sim, mas, esta é uma ilusão que nunca mais será desfeita, apesar desta imagen ser apenas presente guardado na mente do meu eu; filho legítimo deste berço de beleza sem igual ~ Esta brisa mansa que acalenta e anima a tua singela face, pela janela sobe, bofeja e limpa a alma inquilina de Deus; originário de monti Pelado e ruivo como o teu ser, que fez o meu eu, e alberga no teu, a minha essência, será o quinhão deste menino mimado, criado e moldado, pelas tuas santas mãos que, algum dia hão de te careciar e beijar, num infinito gesto de um amor filhal Cândin di Cândo di Pedro Nhá Sacorro |
| Tempestade na Praça da Desgraça Uma leve ansiedade pairava nos mares turvidos quando a história suspirou, folegando a raiva sem vénia, deixando escapulir da garganta seca os sons atrevidos que alertaram os veleiros da porcelosa ventania que soprava dos tempos, há muitos séculos idos e, com a âncora à popa, a desgraça aponta para os capitães vendidos ~ A solene, grave e omnipresente crispação resolveu, na sua enorme constância, manter tensa a corrente para socorrer das lamúrias e das falsas exuberâncias as sizígias dos homens, que se imbuiram em actos consuetudinários cortando resvés os mastaréus para calar os marinheiros arguentes ~ Rumores seguiram a pegada do hábito que se perimiu fazendo do pobre, um nobre, cobrindo-lhe de cobre fincando-o, depois, como espeque, na altura que se caiu pois, a embófia foi espezinhada pela argúcia que se virou podre de tanta usura fraturada que se ruiu ~ Choros – prantos de dores em casas sem tetos quando descobriu-se que os avós ficaram sem netos pois, estes foram hipotecados nos balcões da farta algibeira que abriu a bolsa engolindo, a prazo, a roubalheira obnubilando os seguidores de caminhos e linhos rectos ~ Coros – prantos de alegria em casas de vetos quando descobriu-se que os aqueloutros avôs ficaram com os restos que sobraram das pilhagens feitas em manobras eleitas pelas sondagens das leis nos lugares das urnas, feitas. e assim se consagra a oblação que fora remida em tempos de votos ~ A tempestade da riqueza amansa-se para além dos íris arcos enquanto a âncora, preguiçosamente, se encolhe sobre o cais. a sua bravura chora, copiosamente, da morte dos pais que deixaram o barco, desgraçadamente, à deriva nas baias ao mercê dos ventos e das querenças vadias dos salavancos e das marés tardias; esse enchente das águas que não levanta todos os barcos |
