| A voz do ESCRITOR Fliporto 2008 Samuel Gonçalves recebe diploma da Academia do Nordeste Na 6ª feira passada, dia 07 de novembro, por ocasião da palestra que proferiu na IV Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (FLIPORTO) sobre literatura em Cabo Verde, o acadêmico Samuel Gonçalves, de Cabo Verde, recebeu o Diploma de Sócio Correspondente da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Na ocasião, o acadêmico Alexandre Santos, presidente da Academia e coordenador da mesa, convidou os acadêmicos Ana Maria César e Vital Corrêa de Araújo para fazer a entrega do galardão. |
| TCHITCHITI Cheguei de conhecer este homem. Os seus traços ainda os tenho no meu disco duro da memória. Era dos poucos prêtos da minha cidade que tinha “um bom cabelo” como era hábito ainda dizer-se quem tem cabelo liso. Considerado o maior tamborileiro que havia no nosso país. Rufava o seu tambor com gosto e sempre com o seu avental branco, bem penteado com uma madeixa caindo pela testa, cobrindo parcialmente os seus olhos achinezados. Com o seu tambor Tchitchiti andava pelas ruas de S. Filipe anunciando os mais diversos avisos importantes das autoridades Municipais, principalmente. Cada acontecimento tinha o seu toque especial . Familiar a todos menos os mais novos. Era como um jornal de grande tiragem -ambulante, que tinha mais som que palavras que todos “comprava” e ouvia-lia” . O interesse daquele aviso sonoro despertava atenção a muitos e ele educadamente informava. Tchitchiti, está tocando porquê? Para irem pagar as “décimas na Fazenda antes de relaxar senão ficam sem terra e sem casa”. E hoje, porquê. Para os contratados buscar a farda e o dinheiro. O “falucho” que vai levá-los está na Fonte Bila. Vão até Praia e depois tomam o vapor para S. Tomé. Quando o toque é mais “rapicado” é porque a notícia é deveras “sabi”. Logo cedo Tchitchiti acordou toda a cidade e arredores. Alguns ainda ensonados. Era o aviso “rapicado” de que o Presidente da República de Portugal chegava no dia seguinte ao meio dia à Ilha no barco de guerra “Almeida Carvalho”. O Administrador do Concelho “mandou intimar” toda a gente. Tinha que ir de fato e gravata. A concentração é na Praça da Cãmara às nove horas e dali seguem para Fonte Bila no carro “José Catchim”. De fato e gravata? Sim porquê? Com este “calorzão” de Maio toda a gente vai desmaiar... Parapam-pam-pampam-pampampam. Era o recrutamento dos mancebos para a tropa em S. Vicente e na Praia. Pam...pam...pam. pam. de longe a longe ouvia-se o anúncio da morte. Tchitchiti com aquele ar triste pedia às pessoas para irem enterrar o coitado, que já esperava havia muito na Cruz dos Passos -o descanso obrigatório de todos os finados do campo. Sabiam que era um pobre no caixão da Câmara não descartado. Emprestado. Cedido. Retornável. Era verde e apenas um, servindo a todo o tipo de finado . Não interessava a altura nem a largura. Muitos iam com os seus alvos pés de fora baloiçando no compasso dos que carregavam o caixão nas suas quatro cordas laterais, duas à frente e duas atrás O Cabo-Chefe com uma espada ameaçadora dizendo ”vamos depressa porque há mais” . Dividia o grupo em dois: quatro para levar o corpo e outros quatro para trazer o caixão de volta à Câmara. Tchitchiti não tocava o seu tambor apenas nessas ocasiões. Sem ele as festas de S. Filipe, S. João e S. Pedro não aconteciam. Era o primeiro a ser chamado e com ele a sua Banda. Ficava à frente desta como um Comandante na parada com os seus subordinados desfilando. Nas grandes festas dos sobrados de Bila, Tchitchiti era convidado só para tocar. Fazia-o com gosto e profissionalismo. Depois dos cavalheiros molharem os pés dos seus cavalos na praia do Bocarron, vinham à missa sob o toque peculiar da cavalgada. Na Igreja o seu tambor soava iniciando a procissão. Depois o almoço naquelas grandes varandas e salões com a Banda do Tchtchiti rufando o tambor no quintal. Coladeiras colando com mensagens algumas vezes abrangentes! Incomodativas! Talvez subtilmente picantes. Tinham o alvo certo e cheio de pruridos. Faziam grandes pratos para o Tchitchiti e a sua Banda comerem lá mesmo no quintal. Nunca ele os aceitou. Recusava a comida nem bebida tão pouco. Dizia ele que tinha comida em sua casa e não era “nego” de quintal de ninguém. Apenas profissional. No meio do almoço, Tchitchiti e a sua Banda subiam até os salões cumprindo a tradição. Ali davam três voltas à mesa repicando o seu tambor e atrás as coladeirasr colando e rebolando ao som do tambor e da tchabeta. Não tocavam num só bolo. Veio a fome e com ela várias pessoas foram dizimadas. Tchitchiti não parava em casa. O seu dia estava sempre cheio, solicitado pelo Administrador que poucas vezes pagava-lhe pelo tambor. E com a fome, o trabalho triplicou e a energia mitigou. Por toda a cidade o tambor da morte ecoava e reverberava nos ouvidos dos vivos. Mesmo com fome Tchitchiti fazia o seu trabalho desobedecendo a própria mulher. Quantas vezes não teria desmaiado por causa da fome! Não havia caixão para os mortos nem mãos para levá-los ao cemitério. Muitos iam embrulhados em “finingue” que na hora de dar à terra era-lhes retirado para servir o próximo. Na boca da cova dos finados, viram um “finingue” fazendo ondas mais que tantos outros que tiveram o mesmo fim. Ficaram curiosos olhos arregalados porque aqueles movimentos chamavam a qualquer um atenção. Não foi como muitos casos da mesma índole que deixaram passar. Cuidadosamente e com medo, descobriram a cabeça do morto e ouviram uma ténue voz :” sou eu, Tcitchiti, só estava desmaiado e tenho fome”. Alguém ao lado chorou e exclamou: por ele os tambores não rufaram. Samuel Gonçalves |
| SOCIO-CULTURAL |
| AQUELE RETRATO O escitor cabo-verdiano Dr. Samuel F. F. Gonçalves, apresentou ontem 26 de Julho, 2009, na Sociedade Filarmónica de São João em Stoughton, Massachusetts, USA, a sua última obra literaria com o titulo de Aquele Retrato. Durante a ceremonia de apresentação, estiveram presentes cerca de duas centenas de convidado/as que tiveram oportunidade de conviver e passar uma tarde amena e cultural. Aquele Retrado, é a segunda obra deste conceituado escritor e médico que tinha sido galardoado com o prémio de Literatura Africana em 2003 pelo Instituto Marquês de Valle-Flor, em Lisboa, Portugal, com o seu primeiro romance de nome Chinho e Colicho que foi grandemente aceitado pelos amantes da literatura. Aquele Retrato, já foi lancado em Cabo Verde, primeiro em São Filipe, ilha do Fogo, e depois na cidade da Praia, São Tiago. A história deste romance é muito elucidativo e divertido, baseia se mais na disparidade ou estratificação sócio-cultural que reinava na ilha do Fogo, principalmente na cidade de São Filipe algumas décadas passadas, precisamente nos anos sessenta. É sempre gratificante ler um bom romance, e neste caso o romance Aquele Retrato servirá de um instrumento literal que vivifica o espirito como disse o escritor no prefácio do livro: "Cada um tem dentro de si um vulcão que faz explodir segundo as oportunidades que lhe vão surgindo no seu quotidiano. Há os que gostam de brigar, outros de gritar, ofender e apunhalar a terra. Sentem se felizes, porque a sua alma fica mais fria e descansada, sem agredir ou machucar ninguém, mas apenas machucando a terra. Há ainda outros que usam este seu vulcão para recordar o seu tempo de juventude. Têm medo que esse tempo seja ingrato em tudo, mesmo nas recordações mais íntimas. Vão apressados, correndo atrás dele, que vêm passando, não muito rápido, mas antes lentamente, como lavas escorregando pelas encostas abaixo, até desaparecerem no mar distante." Uma boa leitura a todos. Quinquim Randolph, Julho 27, 2009 |
