BENVINDO A FREGUESIA DE SANTA CATARINA FOGO
Nov 24, 2008
                                        MEMÓRIAS E TESTAMENTO DE UM PATRIOTA

                                                                                    Os meus dias no Hospital de Bucareste


Tanto sonhar... um dia sonhei que estava afogado a  morrer   com a boca seca; lembrei-me no sonho que  tenho falta de sono.

Na cabiceira da cama,  sorri! Chegou uma mulher velha que  nunca vi neste  Hospital,era Virgem Maria dentro duma casa   somente em
pedra e  monte de terra, ela me disse, pedimos a Deus  para que tu vives!

Comecei  presentir a saúde voltar.

Espantei-me cansado, com a boca amarga e seca; bebi agua, a té amanhacer.

No dia seguinte fiz um sacrifício sem comer nada até ás 4 horas da tarde; queria continuar até amanha, mas não podia porque senti-me
fraco com vertigem, comi às 4 horas da tarde.

Pensamento constante na familia, a minha mulher e os meus filhos!

Sinto coragem quando lembro que já estamos livres com o nosso grande partido P.A.I.G.C. Senti coragem e pensei: eu já vi a
Independência, mas Camarada Cabral que tanto lutou sem ver independencia, mas sabia ele que era inevitável.

É bom quem tem filhos ! Quem tem filho nunca morre.

Peço sempre a Deus de me deixar criar os tres pequeninos, para que a minha mulher não sofrer tanto. Se acontecer qualquer coisa, os
pequeninos são confiados ao Partido P.A.I.G.C.


Camarada Cabral disse: aqueles que é contra nosso caminho é o nosso inimigo. A nossa verdade nao é contato pela história, mas está a
frente de nós.

Hoje dia 30/8/77 sentado sozinho na Praça do Hospital Elias a recordar no passado e no futuro.

Pensar no dia que estarei junto das minhas familias com os meus três flores, Kennedy, Anibal e Didi.

Idade de 48 anos, dei a minha contribuição ao nosso grande Partido o P.A.I.G.C.

E continuarei até ao ultimo suspiro.

Quando lembro Patrisse Lumumba, N’Kuame, N’Kruma, Amilcar Cabral, John Kennedy que ja morreram, sinto me aleviado da morte.
Acho que é suave.

Ambição mais grande que eu tenho é de ver África livre, África-do-Sul, Namibia, Rodesia, Palestina, e Saraui.

Tenho ideia de te ver, se no caso não conseguir ver esta grande ambição, e se depois da morte alma contribui, darei a minha
contribução.

Tarde de Bucareste!

Aos emigrantes Caboverdianos de toda parte do mundo, hora chegou, a verdade está connosco, está a frente de nós, contribuimos
todos para fazer da nossa terra que tanto amamos, progresso e felicidade.

Ainda em C. V. tem crianças que não viram uma árvore de Natal, e não sabem o que é, agora chegou a hora de as conhecer.

As pessoas adultas que ainda nao curaram, hora chegou, doutor é para todo mundo, porque somos todos filhos da humanidade.
Povo de Bucareste povo solidário.

Temos uma grande história, mais ainda nao terminou, estamos no caminho, lutamos ainda para terminar a história.

Unidade Guiné e Cabo Verde, um dia nos contou Camarada Cabral numa reunião na Costa de Marfim, quando Portugues tinha descoberto
as ilhas de C. V. não havia ninguém, tinha-nos levado da Guine a C.V. É um simples reencontro de dois irmãos separados pelos
colonizadores.

No momento de escrever, chegou um velho Romeno a perguntar-me quem eu sou, respondi a ele: sou de Guine Bissau, porque assim é
melhor e mais conhecido pela História.

Quanto a humanidade, sou humano, para mim todo homem é homem; tratei – me mais com aqueles que chamamos pobres, que eu sou
também.

No tempo da nossa luta, e luta nas outras Colonias portuguesas, eu simpatisava muito com P.A.I.G.C. M.P.L.A. F.R.E.L.I.M.O. e M.L.S.T.P.

Estou à procura da saúde para poder contribuir neste momento de Reconstrução Nacional. Ttrabalho que eu gosto mais é a agricultura,
sempre que me servem balancia tiro semente para ir semear e produzir em Cabo Verde; algumas flores tirei semente para levar comigo
e semear em C. V.

Na varanda de meu quarto tinha flores, muitas vezes as mulheres esquecem de pôr água , durante o tempo que ali estive eu regava as
plantas, as mulheres na cozinha me perguntavam se eu gostava de flores.

No dia de hoje pensei em não ir a C. V., mas ir Abidjan ver as familias que tenho muitas saudades dos filhos.

Tarde de Hospital Elias: Bucareste! Se eu era um escritor, hoje escreveria um livro.

Dia grande de Bucareste com saudades sem fim, noite grande de H. E., neste momento estou a pensar o que está a Niquinha agora a
fazer, está a costurar, os meninos a jogar bola, Alexandre com Richar, Cuca na cozinha, Elga a ajudar sua mãe, e Panchita ao lado.

Estou longe, tao longe!

No meu quarto eramos dois camaradas Asmane e Mané, já tem seis dias que foram transferidos para outro Hospital, fiquei sozinho,
telefonei-lhes hoje dando as minhas novidades.

Tarde!... Tarde escura... escrevi, escrevi... , sem ser escritor, somente para safar esta tarde horrivel de H. E.

Micilde minha primeira flor, tres meses sem novidade, talvez sentes qualquer coisa neste momento, esta hora é hora de dificuldade.

Os meus mais grandes amigos são aqueles que estamos de acordo em falar no P.A.I.G.C, Camarada Apokne M. Diabate, falecido, Rokne,
Antoninho Monteiro, Niango, amigo de confiança de Abidjan e Rene.

Mecilde, Elga, Alexandre nao deixam a vossa mãe um so minuto e a velha Cuca, e minha mae, tia Gorda que está a passar encomodada.

Antoninho Monteiro meu camarada fixe de Partido, temos a mesma ideia.

Quinquim parente que tenho mais estima. O que eu tenho é para minha mulher e os tres pequenos. Os que estão grandes devem cuidar
por eles. Dei todos filhos nome para nao levar mal de mim.

Herança é palma da vossa mao e tratam bem com a minha mulher porque foi a minha melhor companheira.

Não-se lembra do desacordo de vez familiar, é a dura colonização que o fez.

Alexandre Vieira Fontes
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